Segurança

Dentro de perucas e vinhos: exportadora do CE é investigada por envio de cocaína à África e Ásia

Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
24/08/2026 - 06:00

Uma série de investigações sobre tráfico internacional de drogas no Terminal de Cargas e de Passageiros do Aeroporto de Fortaleza desvendou um esquema inusitado, que escondia cocaína em itens como perucas, cilindros de oxigênio, cadeiras de dentista e até garrafas de vinho branco. Um total de 19 inquéritos da Polícia Federal (PF) apuram a ligação entre o tráfico e empresas transportadoras e exportadoras. 

A carga de perucas, também chamadas de laces, continha apenas 550,57 gramas de cocaína, mas chamou atenção pela engenhosidade do grupo criminoso. Essa apreensão ocorreu em abril de 2023 no Terminal de Cargas do Aeroporto e contava ainda com duas caixas grandes com 148 pares de chinelos.

O entorpecente estava dissimulado de forma não convencional: cada lace (trança) ocultava, por baixo do tufo de cabelo sintético, um pacote alongado (no mesmo formato da trança) confeccionado com papel carbono e fita adesiva transparente. O uso do papel carbono é uma tática comum do tráfico para tentar burlar a inspeção por scanners de raio-X. 

Segundo documentos obtidos pela reportagem, a carga foi despachada sob responsabilidade da empresa Unique Brazil e o destinatário tinha endereço na cidade Praia, em Cabo Verde. Esse endereço foi um dos que mais apareceram no processo. Há notas fiscais que apontam a pessoa como a recebedora final da carga com cocaína.

Segundo a reportagem apurou, um total de 14 inquéritos envolvem a mesma empresa, a Unique, que tem sede na avenida Carneiro de Mendonça, em Fortaleza, e se apresenta como um empreendimento de exportação e importação. O destino principal das drogas eram países da África e da Ásia, mas com a maioria tentando embarcar para Cabo Verde e Moçambique. 

177,8 kg 
de cocaína eram ligados somente à Unique

Boa parte das ocorrências já está na mira do Ministério Público Federal (MPF). Apesar das apreensões, documentos da PF e MPF apontam fortes indícios de que tentativas de envio de drogas possam ter sido concretizadas com sucesso, ou seja, saíram do país sem serem interceptadas.

A última apreensão do caso ocorreu em 15 de novembro de 2025, quando agentes da PF encontraram 3,60 kg de cocaína diluídos em 17 garrafas de vinho branco rotulado da marca Collina. A droga estava escondida em meio a uma carga considerável, de 180 garrafas de 750 mililitros (mL).

Em abril deste ano, o MPF deu parecer favorável à destruição de toda essa carga. Entretanto, o inquérito só "ingressou" de fato na instituição no dia 8 de junho. 

Em manifestação no último dia 13 de julho, o órgão público federal reconheceu a conexão entre o caso do vinho com, pelo menos, outros 17 inquéritos, que foi reforçada "pelo indicativo de organização criminosa". Foi pontuada pelo MPF a necessidade da junção das investigações em uma única Vara Federal, já que atualmente elas estão em discussão na 12ª e 32ª Varas. Entretanto, ainda é necessário resolver "incidentes de atribuição de competência". 

Em 28 de julho, ainda no caso específico dos mais de 3 kg de cocaína encontrados nos vinhos, a Justiça Federal deu mais 90 dias para que sejam resolvidos os "incidentes" e também sejam feitas novas diligências do caso. 

No último dia 4 de agosto, a 12ª Vara Federal solicitou acesso a outro processo para poder apreciar o pedido do MPF de reunião dos 17 inquéritos em uma só Vara. 

O MPF quer que os casos se concentrem na 32ª Vara Federal, onde há uma investigação mais avançada e medidas cautelares, como quebras de sigilo, já executadas, mas ainda faltam trâmites judiciais, como a manifestação de todas as varas, para que isso se concretize. A PF também reconheceu que há inquéritos que se complementam. 

Algumas investigações ainda incipientes, outras mais adiantadas, e algumas até concluídas, contendo nelas dados que se complementam, sendo assim compreensível que a instrução isolada de um inquérito policial aparente lacunas ou omissões. No entanto, vistos em conjunto, dão a noção da dimensão da atuação da ORCRIM, especializada na logística do tráfico de drogas para o exterior, via Terminal de Cargas (TECA) de aeroportos brasileiros, notadamente o Aeroporto Internacional de Fortaleza.
Polícia Federal
Em manifestação dentro de processo

As operações mais expressivas e os destinos da droga foram:

  • 87 kg: encontrados em cilindros metálicos com destino a Serra Leoa, em 17/07/2018 (apreensão realizada pela Receita Federal em São Paulo, mas relacionada à empresa com sede no Ceará).
  • 65,65 kg: localizados dentro de furadeiras destinadas a Cabo Verde, em 03/08/2021.
  • 32,1 kg: dissimulados em prumos de nível (prumos de pedreiro) com destino a Moçambique, em 29/01/2021.
  • 20,13 kg: escondidos em bolsas destinadas à Costa do Marfim, em 07/02/2023.
  • 15 kg: apreendidos em latas de achocolatado com destino a Cabo Verde, em 21/02/2024.
  • 11,1 kg: encontrados em amortecedores destinados a Cabo Verde, em 13/05/2022.
  • 11 kg: Ocultos em carga de açaí destinada à Tailândia (Bangkok), em 30/12/2021.
  • 10,7 kg: dissimulados em tubos de adesivo selante e silicone com destino a Moçambique, em 25/09/2019.
  • 10,3 kg: escondidos em uma cadeira odontológica destinada a Cabo Verde, em 02/08/2022.

Operação ilícita durou pelo menos 8 anos 

A primeira carga suspeita do esquema foi apreendida em 17 de julho de 2018, quando 87 kg de cocaína foram apreendidos escondidos em cilindros metálicos que tinham como destino o país de Serra Leoa. A operação ilícita ocorreu entre os anos de 2018 e 2025 (com exceção somente de 2020).

O evento criminoso apurado nestes autos não se tratava de um fato isolado, mas de um caso dentre outros relacionados à exportação de mercadorias contaminadas por cocaína, perpetradas com o envolvimento contínuo da empresa UNIQUE BRAZIL e de sua associada, a IBI BRAZIL EXPORTAÇÕES LTDA. Todos esses casos guardam entre si um contexto fático comum e um idêntico modo de agir, caracterizado pela utilização de cargas lícitas variadas para camuflar a droga e pela similaridade dos destinos das exportações, concentrados quase sempre nos continentes africano e asiático.
MPF
Em despacho judicial

O modus operandi sempre foi o mesmo: cocaína disfarçada em mercadorias que chegavam pelo Terminal de Cargas do Aeroporto de Fortaleza.  As investigações apontam que havia, por meio do WhatsApp, negociações das cargas que mais tarde terminariam apreendidas com droga dentro.  

Em depoimentos à PF, uma pessoa que se apresentou como gerente de exportação disse que os clientes estrangeiros com quem ele trata seriam os supostos contratantes das cargas suspeitas.

O homem ainda relatou que recebeu graves ameaças contra sua vida e a de seus familiares de uma pessoa não identificada que estaria associada à droga apreendida. A pessoa exigia a devolução do entorpecente ou do valor correspondente. 

Segundo os autos, houve por parte desse homem cooperação com a PF, em que ele entregou seu celular para que fossem extraídas conversas com os contratantes. 

O caminho do dinheiro

A análise dos Relatórios de Inteligência Financeira (RIF) elaborados pelo órgão federal Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou a engrenagem financeira que sustentava o esquema. 

Um investigado registrado nos bancos de dados como auxiliar de escritório com rendimentos formais "modestos" movimentou, em conta no Banco do Brasil, entre 2021 e 2022, pouco mais de R$ 1,6 milhão (sendo R$ 804.431,75 em créditos e R$ 796.402,08 em débitos).

A perícia financeira da Polícia Federal constatou que a conta funcionava como uma "conta de passagem" de recursos ilícitos. Entre os depositantes estavam cidadãos estrangeiros sob investigação, como um nigeriano, que, segundo os autos processuais, possui condenação anterior por tráfico internacional de drogas em 2017, na Justiça do Mato Grosso do Sul.

Os nomes dos investigados não são divulgados, pois eles ainda não estão na condição de indiciados, denunciados ou réus, e os advogados deles não foram localizados. 

Este conteúdo é útil para você?