João Munhoz Neto, 34, era casado quando começou a namorar Isabelle Caracristi, 22, mas esse fato só foi descoberto pela universitária semanas após se envolver com o bacharel em Direito. Os dois se conheceram na faculdade, mas se aproximaram em julho, depois que Isabelle passou a estagiar no escritório de advocacia em que João trabalhava e ficou diretamente subordinada a ele.
Há cerca de um mês, João e Isabelle deixaram o escritório onde trabalhavam. Ele, supostamente, por "querer montar um escritório semelhante". Ela, não se sabe o motivo.
Tudo isso foi relatado a autoridades da Polícia Civil do Ceará (PCCE) por um parente da estudante de Direito. Minutos antes de morrer, a jovem enviou para a testemunha, que era sua confidente, um áudio de cerca de 13 minutos narrando o relacionamento abusivo que vivia e revelando ter descoberto recentemente que o namorado era casado em cartório.
O Diário do Nordeste teve acesso a um documento que comprova que João se casou com uma fisioterapeuta em janeiro do ano passado, em um cartório de Iguatu, no interior do Ceará. Os dois, no entanto, se separaram nos primeiros dias do último mês de agosto. "Ocorre que a vida em comum tornou-se inviável em razão da insuperável impossibilidade de convivência conjugal", justifica o divórcio, assinado consensualmente por ambas as partes.
De acordo com a testemunha, Isabelle descobriu ainda que, depois de quase dois anos de casamento, a ex-esposa havia saído do relacionamento "sem nada", e confidenciou ao parente que ela também se sentia explorada pelo namorado.
Foi o dia em que o casamento foi constituído em regime de comunhão parcial de bens. O divórcio ocorreu em 12 de agosto de 2026. No processo, a ex-esposa de João Munhoz Neto solicitou o retorno ao uso do nome de solteira. A reportagem irá preservar a identidade dela.
Até o encerramento do matrimônio, que foi feito de maneira gratuita, por hipossuficiência econômica das partes, a residência oficial da ex-esposa de João era a rua Monsenhor Bruno, 999, em Fortaleza: exatamente o endereço do condomínio La Piazza, onde Isabelle morava com o namorado, a sogra e o cunhado, e onde o corpo dela foi encontrado caído no pátio, na noite do último 13 de setembro.
Relacionamento abusivo
Uma semana antes de morrer, Isabelle procurou outra vez o confidente para reclamar das atitudes do namorado. À testemunha, em chamada telefônica, ela teria dito que “não suportava mais” João e seus comportamentos abusivos.
A testemunha relatou que, neste momento, ao fundo, ouviu o namorado ordenar que ela desligasse o telefone. “Estou mandando”, teria dito ele. “Você não manda em mim”, teria respondido Isabelle.
Inclusive, na noite em que morreu, no áudio longo enviado à testemunha, a universitária reforçou que se sentia explorada por João, que não aguentava mais os “jogos emocionais” que ele fazia contra ela, que era ameaçada constantemente e que, se qualquer coisa viesse a acontecer com ela, aquele áudio era uma prova. “Não acredite nele”, pediu a jovem.
Morte de universitária em Fortaleza
Isabelle Caracristi morreu por volta de 20h40 do dia 13 de setembro. O corpo dela estava caído no deck do condomínio La Piazza, na Aldeota, em Fortaleza. De acordo com a Perícia Forense do Ceará (Pefoce), que atendeu à ocorrência, foram encontradas lesões no corpo da universitária "compatíveis com o impacto contra o solo".
A reportagem apurou que Isabelle caiu do terraço do prédio, localizado no 23º andar.
Imagens de câmeras de segurança obtidas com exclusividade pela editoria de Segurança do Diário do Nordeste mostram que o namorado da estudante e a mãe dele, dois dos três outros residentes do apartamento, não estavam no prédio quando a estudante morreu.
As câmeras dos espaços compartilhados do edifício residencial mostram que, às 18h32, João Munhoz Neto vai até a portaria do prédio. Isabelle continua no condomínio e, às 19h12, é vista dentro do elevador, sozinha, com o celular na mão, a caminho do terraço (ou rooftop). Às 20h40, é registrada a queda e o impacto do corpo de Isabelle contra o solo.
Uma patrulha do Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur) foi acionada e chegou ao prédio às 20h51. Cerca de duas horas depois, às 22h48, o namorado retorna ao prédio.
Depoimentos de testemunhas
A Polícia Civil do Ceará anunciou na noite do último domingo (20) que pretendia ouvir oito pessoas. Destas, quatro já haviam prestado depoimento, enquanto as demais tinham oitivas agendadas. Além disso, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou, em nota, que ainda analisava imagens de câmeras de segurança.
Exames laboratoriais realizados no corpo da vítima tiveram resultado negativo para a presença de substâncias de interesse toxicológico. Também foi descartada uma possível gravidez. Exames periciais complementares ainda estavam sendo feitos pela Pefoce.
Uma força-tarefa foi montada para elucidar o caso, que só terá seu desfecho após a finalização dos trabalhos policiais.