Chefe de facção preso no Paraguai e ligado a série de mortes por vingança vai a júri no Ceará

'Racha' interno na extinta GDE causou temor nas comunidades do Jangurussu e da Maria Tomásia, em 2022.

Escrito por Matheus Facundo matheus.facundo@svm.com.br
15 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: Julgamento ocorre na 3ª Vara do Júri no Fórum Clóvis Beviláqua.
Foto: Divulgação/TJCE.

Um homem apontado como chefe de facção ligado a uma sequência de assassinatos, motivados por vingança no contexto do conflito entre organizações armadas, vai a júri em Fortaleza no próximo dia 3 de dezembro. José Renan Oliveira Marinho será submetido ao Júri Popular desta vez por um homicídio e uma tentativa, ocorridos em fevereiro de 2022. 

Apontado à época como liderança da extinta facção cearense Guardiões do Estado (GDE), ele foi foi preso no Paraguai, em uma cooperação internacional da Polícia Civil cearense com a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), em dezembro de 2022. A captura aconteceu na cidade Salto Del Guairá. 

Em nota, a defesa de Renan, promovida pela advogada Juliana Santos, afirmou que lamenta que ele "tenha sido apresentado publicamente como culpado antes de qualquer julgamento". 

"A defesa confia na soberania do Tribunal do Júri, reafirma o respeito às famílias das vítimas e sustentará, em plenário, perante os jurados, a quem cabe a decisão, a inocência de José Renan. Espera que o julgamento ocorra com serenidade, imparcialidade e observância de todas as garantias legais",  diz a defensora particular. 

O julgamento ocorre na 3ª Vara do Júri, no Fórum Clóvis Beviláqua, e será o segundo e último derivados de uma série de homicídios ligados a um "racha interno" da extinta GDE, segundo o Diário do Nordeste noticiou. 

A acusação feita pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) apontou que membros da GDE se uniram à facção de origem carioca Terceiro Comando Puro (TCP), resultando em assassinatos pela discordância da troca de grupos criminosos.  

O homicídio objeto de julgamento ocorreu em 19 de fevereiro de 2022, quando a vítima Júlio César Arcanjo da Silva, conhecido como 'Beijinho', foi morto a tiros no bairro Jangurussu, em Fortaleza. Diogo Ângelo Ferreira Bezerra, o 'Lorim' também foi atingido por disparos, mas sobreviveu ao ataque. 

Júlio e Diogo teriam participado do homicídio, dias antes, de Josenildo Marques Palhano, o 'Sal', que era de facção rival. A dupla que participou do homicídio estaria entre os integrantes da GDE que estariam rompendo com facção.

Os ataques de vingança teriam iniciado após supostamente José Renan, que era cunhado de 'Sal', assumir o seu posto como chefe local da organização criminosa. A reportagem apurou que homicídios relacionados ao rompimento interno na facção  começaram a ser registrados nas Áreas Integradas de Segurança (AIS) 3, 7 e 10, em Fortaleza. 

"No papel de liderança, surgem José Renan, juntamente com Danielzim, George e Wanderson, em retaliação à morte de Sal. De acordo com a acusação, "eles ordenaram a morte de integrantes do grupo dissidente rival", diz o MPCE na peça acusatória. 

Clima de terror em comunidades

O assassinato de 'Sal' iniciou instaurou um clima de terror nas comunidades do bairro Jangurussu e no Conjunto Maria Tomásia. Entre os dias de 16 e 19 de fevereiro de 2022, segundo as investigações, ocorreram ordens de retaliação partidas da nova liderança, que resultaram em execuções e tentativas de homicídio.

Além do rastro de violência, o domínio por parte da facção provocou a expulsão forçada de mais de 50 famílias de moradores de suas residências, segundo uma testemunha ouvida durante o curso das apuraçõees. 

As investigações detalhadas pela denúncia Ministério Público mostraram ainda que havia uma clara divisão de tarefas na organização, na qual 'matadores' atuavam sob a orientação direta das chefias, abordando alvos de forma coordenada.

Os executores se deslocavam em motocicletas ou veículos para cercar a vítima e inviabilizar qualquer reação. Para não alertar os alvos, os atiradores empregavam táticas de dissimulação, como a simulação de conversas amigáveis, pedido para examinar a arma da própria vítima ou interrogá-la sobre sua lealdade antes de efetuar disparos à queima-roupa.

A atuação ostensiva era acompanhada pela destruição de provas e pela intimidação violenta para impor a conhecida "lei do silêncio" na região, nas quais testemunhas não depõe com medo de represálias. 

'Matadores' e líderes criminosos condenados a 210 anos de prisão 

Sete réus denunciados junto a José Renan já passaram pelo Tribunal do Júri em 15 de maio de 2025, e foram condenados, somadas as penas, a mais de 210 amos de prisão. Eles foram apontados pela acusação como os "matadores" e criminosos que exerciam função de comando dentro da facção.

Eles foram considerados responsáveis pelo homicídio de Júlio, pela tentativa de homicídio contra Diogo, e por outras mortes na região.

Seu papel dentro da mencionada organização inclui o de praticar crimes contra a vida, eliminando desafetos do grupo e objetivando assegurar a autoridade e o domínio da facção em diversas áreas de Fortaleza-CE, dentre as quais a região onde ocorreram os fatos. Aliás, como se não bastasse, a própria motivação do homicídio constitui evidência bastante além das circunstâncias dos fatos - da efetiva integração deles à organização
MPCE
Sobre os réus, em denúncia

Os réus e suas penas foram: 

  • Daniel dos Santos Alves: 26 anos e 10 meses
  • George Matheus de Sousa Braga: 31 anos, 3 meses e 19 dias
  • Wanderson Sousa Lima: 31 anos, 3 meses e 19 dias
  • Júlio César Moreira da Silva: 30 anos e 6 meses
  • Emerson dos Santos Sousa: 26 anos e 2 meses
  • Antônio Laerte Ferreira Bezerra: 30 anos e 6 meses
  • Josiel Oliveira da Silva: 30 anos e 6 meses

O Conselho de Sentença acolheu integralmente as teses da acusação, reconhecendo a autoria delitiva, o emprego de recurso que impossibilitou a defesa das vítimas e a motivação fútil, além da majorante por uso de armas de fogo pelo grupo criminoso. 

Os réus recorreram das sentenças, e os processos estão em avaliação até que as sentenças entrem em trânsito em julgado. 

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