Sucesso eleitoral de ‘forasteiros’ e concentração de votos no PL preocupa vereadores de Fortaleza

Dos 21 parlamentares que foram candidatos em 2026, quatro foram eleitos para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados.

Escrito por Luana Barros e Bruno Leite
08 de Outubro de 2026 - 06:00
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Legenda: O resultado das eleições acendeu alerta para vereadores de Fortaleza, principalmente aqueles que foram candidatos em 2026.
Foto: Érika Fonseca/CMFor.

O resultado da disputa eleitoral para o Legislativo cearense acendeu um alerta nos vereadores de Fortaleza, principalmente aqueles que foram candidatos para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara dos Deputados — dos 43 parlamentares, 21 haviam lançado candidatura em 2026.

Muitos deles confessaram estarem ‘perdidos’, enquanto outros mostram a preocupação com a perda de força da ligação entre políticos e territórios em prol da presença e engajamento nas redes sociais. A preocupação é inclusive saber como essa mudança deve ter impacto na eleição municipal de 2028 — na qual muitos devem tentar a reeleição. 

O tema dominou a primeira sessão da Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor) após a eleição do último domingo (4). Tanto na tribuna da Casa como nos bastidores, parlamentares tentavam apontar os motivos para os próprios resultados terem sido menores do que o esperado. 

Até mesmo quem não foi candidato, falava sobre a perda de força na transferência dos votos, ou seja, a capacidade de, como lideranças ligadas a determinado bairro ou região, contribuírem com a votação de aliados que concorriam para a Alece ou para a Câmara dos Deputados.

Um dos principais motivos apontados foi a concentração de votos em André Fernandes, reeleito deputado federal com o recorde cearense de 684 mil votos. Quase metade dessa votação, cerca de 313,5 mil votos, foi apenas na capital cearense. 

Também foi citado a chegada de candidatos ‘forasteiros’: aqueles que têm maior força em outras regiões do estado, mas que aumentaram a presença em Fortaleza, o que também teve impacto em quem tem a força eleitoral mais ligada apenas à capital. A falta de organização das chapas pelos partidos e investimentos financeiros abaixo do esperado também foram elencados pelos parlamentares. 

No total, quatro vereadores de Fortaleza devem deixar a Câmara Municipal para assumir novos cargos em 2027. O vereador Emanuel Acrízio (SD) irá assumir cadeira na Câmara dos Deputados, enquanto Gabriel Aguiar (Psol), Bella Carmelo (PL) e Gardel Rolim (PRD) ocuparão uma vaga de deputado estadual. 

O ‘efeito André Fernandes’ 

Os vereadores enfatizaram o impacto da votação conquistada por André Fernandes na votação dos demais candidatos, principalmente a deputado federal. 

No caso da disputa pela Alece, o efeito foi menor, mas ainda relevante, já que dois aliados de André foram eleitos entre os cinco mais votados — Tancredo dos Santos, inclusive, como o candidato com mais votos para deputado estadual no Ceará. 

"O André Fernandes, naturalmente, acabou retirando voto de absolutamente 95% dos candidatos a federal", disse o vereador Michel Lins (Republicanos), que foi candidato à Câmara de Brasília. "Gente que era para tirar mais de 100 mil votos, tirou 60. Quem tirou 70 mil na outra, tirou 40 mil. Quem tirou 40 mil, nessa tirou 20 mil". 

Soldado Noelio (União), que também concorreu à Câmara dos Deputados, também citou o recorde alcançado por Fernandes. "O André virou o Nikolas (Ferreira, deputado federal de Minas Gerais) no estado do Ceará. Conseguiu replicar a votação altamente, absurdamente, expressiva do Nikolas aqui, a nível de estado do Ceará", disse.

Ele disse que, por isso, mesmo tendo obtido 14 mil votos em Fortaleza, considera um bom resultado por ter tido "um concorrente muito forte". E cita que, no próprio PL, isso foi sentido por outras candidaturas.  

“A votação do Carmelo (Neto, deputado federal eleito), que todo mundo apostava ali em mais de 100 mil votos, a (deputada federal) Priscila Costa também, todo mundo esperava mais de 100 mil votos, (deputado federal reeleito)Jaziel, eu mesmo esperava uma votação maior ainda”. 

A vereadora Bella Carmelo, que foi eleita deputada estadual, também justificou a diferença de votação dela e do marido, o deputado estadual Carmelo Neto — ela teve mais de 130,8 mil votos, enquanto ele 56 mil votos. 

"Todo mundo caiu em votação esse ano, o André explodiu e pegou voto de todo mundo. Não só os votos do PL e da direita, a gente vê um Célio Studart, que sempre ganhou com 200 mil votos, cair para 100 mil e pouco", exemplifica.

Digital versus a atuação comunitária

O peso da presença digital também foi citada pelos vereadores, principalmente com o bom desempenho de candidatos que não tem Fortaleza como principal base eleitoral. 

"As redes ampliam esse alcance e permitem que o eleitor se identifique com propostas e causas para além de sua cidade. E isso faz com que os votos do fortalezense se distribuam entre um grande número de candidatos de outras cidades", pontua Jorge Pinheiro, que concorreu a uma cadeira na Alece. 

O impacto disso, continua o parlamentar, acaba sendo em "candidatos que têm atuação mais específica em Fortaleza". "Mas tudo isso eu vejo como parte do jogo que se estabelece em cada eleição", completa. 

Vice-presidente da Câmara Municipal, Adail Júnior faz uma avaliação semelhante. "Devagarzinho digerindo, devagarzinho entendendo o verdadeiro processo de como é o voto hoje. Ficou bem claro o voto hoje predominante de rede social. Voto predominantemente polarizado demais, então a gente fica meio que perdido ainda na avaliação política eleitoral de resultado", diz. 

O vereador, que foi candidato a deputado federal, fala sobre o impacto disso para os parlamentares, principalmente aqueles que têm mais trabalho territorial — os chamados 'vereadores de bairro'. "Tem vereador que dá a vida, trabalha de manhã, de tarde e noite... Está tudo muito obscuro", disse.

Apesar de não ter sido candidato em 2026, o vereador Robério Sampaio (PRD) fez uma avaliação semelhante e projetou um cenário desafiador para a próxima eleição municipal, em 2028. "Eleição difícil (de 2026) em que o trabalho que os vereadores aqui desenvolvem nos seus bairros de nada está valendo, de nada está valendo", disse na tribuna da casa.

"Já estou ficando muito preocupado com a eleição de 2028", acrescentou o parlamentar, que afirmou que o desafio deve ser maior para quem "depende do trabalho comunitário". "A política, em vez de ser coisa séria, de quem trabalha, está virando entretenimento das redes sociais. Aquele que anda baixando, rebolando, no dia a dia é quem está carregando os votos". 

O vereador Pedro Matos (PL), que foi candidato a deputado federal, também reforçou essa relevância das estratégias digitais. "Tivemos candidatos com bases em outros municípios e atuação em todo o Estado obtendo votações expressivas em Fortaleza e na Região Metropolitana, o que torna a disputa ainda mais competitiva para quem tem uma atuação mais local", disse. 

Ele também fez uma projeção para 2028. "Alguns candidatos conseguem alcançar um público muito amplo no ambiente digital e isso tem impacto direto na concentração de votos. Acredito que essa seja uma tendência para as próximas eleições". 

Impacto da estratégia partidária

Ex-deputado federal, o vereador Ronaldo Martins (Republicanos) tentou retornar à Câmara dos Deputados, mas não teve sucesso, ficando na 1ª suplência do partido. Segundo ele, houve um problema na montagem da chapa para concorrer ao legislativo federal. 

"Estávamos realmente aqui nessa expectativa do partido fazer dois. Na verdade, esse foi o compromisso do governo (de Elmano de Freitas) com o presidente nacional (do Republicanos), que montaria uma chapa competitiva para fazer dois. Infelizmente não foi dada essa atenção, não foi cumprido o acordo", disse. 

Ainda sobre questões partidárias, o Psol não conseguiu alcançar a cláusula de barreira e deve ter que avaliar como serão os próximos anos da legenda, explica Adriana Geronimo (Psol). A vereadora concorreu a deputada federal, mas o partido acabou não fazendo nenhuma cadeira — apesar dos mais de 116 mil votos de Renato Roseno (Psol). 

"A gente ainda não conseguiu debater com qualidade as alternativas pro PSOL nos no próximo período, mas isso vai ser debatido com fôlego. Agora nesse momento a gente tá focado em eleger o Lula no segundo turno", detalha. 

Ela relembrou ainda que a confirmação da candidatura de Luizianne Lins (Rede) ao Senado Federal, que acabou sendo vencedora, teve resistências dentro da federação formada por Psol e Rede Sustentabilidade. A forma encontrada para garantir Luizianne no pleito foi "abdicando da nossa candidatura ao governo". 

"Não sei se isso de alguma maneira trouxe algum prejuízo para nós, porque ter uma candidatura majoritária chama realmente mais votos pro PSOL, mas foi a escolha que nós fizemos por entender a política grande. A política pequena às vezes ela precisa ser colocada em um segundo plano para a gente entender a política grande que vai mover o país", reforçou.

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