Deputados derrotados relatam ameaças e pedidos de 'pedágio' de facções durante a campanha no Ceará

Parlamentares falaram sobre o tema durante a sessão na Assembleia Legislativa do Ceará nesta quinta-feira (8).

Escrito por Luana Barros luana.barros@svm.com.br
08 de Outubro de 2026 - 12:52
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Legenda: Deputados estaduais que não conquistaram a reeleição em 2026 falaram sobre o impacto das facções criminosas na campanha eleitoral.
Foto: José Leomar/Alece.

Deputados estaduais derrotados nas eleições de 2026 no Ceará fizeram, nesta quinta-feira (8), relatos de ameaças e cobrança de 'pedágio' por facções criminosas durante a campanha eleitoral. Os parlamentares falaram sobre o impedimento de circular por regiões de Fortaleza, as ameaças sofridas por eleitores e a preocupação com as eleições de 2028. 

O primeiro a falar sobre o tema na tribuna da Casa foi o deputado estadual Antônio Henrique (PSDB). Ele, assim como boa parte da atual bancada tucana na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), ficou de fora das vagas após a votação do último domingo (5).  

Durante o discurso, Antônio Henrique chegou a se emocionar ao descrever ameaças sofridas durante o período eleitoral. "Aqui não é um choro de quem perdeu não, não estou chorando porque perdi, não. Eu estou emocionado porque está muito difícil", disse. 

"Em uma carreata que íamos começar a fazer, nós fomos ameaçados dizendo que, se não saíssemos, se aquela carreata não terminasse ali ou, pelo menos, nem começasse, ia ter algo pior. (...) Um amigo seu ligar para você e dizer 'deputado, eu retirei o adesivo do meu carro, porque se eu não tirasse, eu estava correndo risco'. Isso é grave. A população não poder se expressar. Eu caminhei tanto pelas ruas, trabalhando, servindo e agora ser impedido de caminhar porque não estava do lado que eles queriam".
Antônio Henrique
Deputado estadual

Cobrança de 'pedágio'

Em discurso na tribuna da Alece, Cláudio Pinho (PSDB) também citou casos semelhantes. "Eu passei, em alguns locais, parecido com o que você (Antônio Henrique) passou, especialmente já em São Gonçalo, disseram (que aconteceu) no Ipu. Mas eu nunca procurei conversa com esse tipo de ação", afirmou.

O deputado estadual, que não foi reeleito, afirmou que recebeu relatos de novas ameaças feitas para a campanha de 2º turno. "Já saiu hoje, e mandaram pra mim em visualização única, de um grupo do Pecém, que campanha lá só com ordem deles", relata.

Lucílvio Girão (PSB), que também não deve retornar para a próxima legislatura, falou sobre pedidos de "pedágio" feitos à equipe dele durante a campanha eleitoral. 

"As facções fazem pedágio, como fez pedágio para o meu pessoal, cobrando, e eu não sou homem para dar dinheiro para facção nenhuma. Eu entrei aqui pela porta da frente e vou sair pela porta da frente, isso é um absurdo", disse.

O deputado estadual falou ainda sobre episódios de ameaças a eleitores, inclusive em cidades do Interior do Estado. 

"Eles chegam na casa das pessoas mais humildes, na minha querida Morada Nova, dão o santinho e o dinheiro e dizer assim 'se você não votar, eles vêm buscar o dinheiro. E as pessoas ficam com medo", conta.

Só na manhã do domingo de votação, o Ceará registrou 16 pessoas conduzidas à delegacias da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) por crimes eleitorais. Ainda não foi divulgado balanço da operação Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).

Preocupação de todos os candidatos

Líder do Governo Elmano de Freitas (PT), o deputado estadual Guilherme Sampaio (PT) citou que a tentativa de interferência das fações criminosas foi uma preocupação de todos os candidatos durante a campanha eleitoral.

"Todas as campanhas no estado do Ceará enfrentaram esse desafio. (...) Eu vou lembrar aqui do vereador Adail Júnior, que estava votando no Elmano, teve sua casa alvejada por tiros, foi ameaçado. Não baixou a cabeça, obviamente tomou os cuidados e seguiu a campanha".
Guilherme Sampaio
Deputado estadual

"Portanto, essa ameaça, esse risco, essa preocupação não é de lado A ou de lado B, não é do lado da direita nem da esquerda", acrescentou. Assim como em 2022, Guilherme Sampaio ficou na suplência na disputa por uma cadeira na Alece.   

Pinho projetou ainda como esse problema pode continuar a ser um desafio em futuras eleições. "Fica o alerta para todos nós: se o Brasil e o Ceará, não der um freio de arrumação, a próxima eleição, agora daqui há dois anos, será o crime organizado. E nós precisamos reagir agora", disse.

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