Vestígios de sangue encontrados em fóssil do Ceará

Aratasaurus museunacionali, espécie de dinossauro bípede, teve o esqueleto escavado em Santana do Cariri.

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues (o PH) ceara@svm.com.br
Legenda: Não é possível precisar se fóssil contém células sanguíneas intactas, mas estruturas encontradas são semelhantes a glóbulos vermelhos.
Foto: Lisa Smith/Curtin University.

O Cariri entregou nova descoberta pré-histórica ao mundo. Pesquisadores afirmam ter encontrado vestígios de sangue de um dinossauro que viveu há 115 milhões de anos. O fóssil havia sido resgatado de uma mina de gesso na Chapada do Araripe. A pesquisa envolveu cientistas da Universidade Regional do Cariri (URCA), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Curtin, que fica na Austrália, além de outros pesquisadores que assinam o estudo publicado numa revista científica internacional.  

Os cientistas usaram uma série de técnicas moleculares, de imagem e microscopia de varredura, que permitiram a observação das estruturas de células sanguíneas, algo que é considerado raro na paleontologia, já que muitas moléculas não sobrevivem no registro geológico. 

"Parece que, após a morte do dinossauro, os ossos afundaram em um tapete microbiano lamacento. Essas condições apresentam pouquíssimo oxigênio e muitas comunidades microbianas. Elas teriam formado um biofilme ao redor do osso e protegido esse osso de uma decomposição ainda maior", afirma a professora Kliti Grice, fundadora do Centro de Geoquímica Orgânico e Isotópica da Austrália Ocidental. 

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No caso desse dinossauro, foram encontradas moléculas derivadas do heme, que é um composto da hemoglobina, proteína responsável pelo transporte do oxigênio no sangue. O resultado não significa que o fóssil contenha células sanguíneas intactas, mas as estruturas encontradas são semelhantes a glóbulos vermelhos e as análises químicas apontaram a presença de moléculas derivadas do heme. 

O animal cujos vestígios de sangue foram encontrados é o Aratasaurus museunacionali, espécie de dinossauro bípede que teve o esqueleto escavado em Santana do Cariri em 2008, nos resgates da mina Pedra Branca. O nome curioso conta uma histrória de sobrevivência: o fóssil poderia ter sido destruído antes que chegasse às mãos dos paleontólogos, como explica o professor Álamo Feitosa Saraiva. 

Cientistas usaram uma série de técnicas moleculares para chegar à descoberta.
Legenda: Cientistas usaram uma série de técnicas moleculares para chegar à descoberta.
Foto: Lisa Smith/Curtin University.

"Parte da preparação do fóssil foi feita por nós aqui [URCA]. Só a gente precisava de jato de areia, uma técnica de preparação que, na época, não tinha aqui. Por isso, a gente mandou para o Museu Nacional em 2016. E, por incrível que pareça, ele estava na saleta de preparação. E é por isso que ele tem esse nome. Ele escapou do fogo do Museu Nacional [setembro de 2018], porque não estava no prédio principal. É Aratasaurus museunacionali porque ele escapou do fogo das bombas lá da escavação para retirada da gipsita em Santana do Cariri e escapou do fogo Museu Nacional. Em tupi, Aratasaurus significa lagarto saído do fogo, e museunacionali, claro, é em homenagem ao museu." 

Estudo reuniu pesquisadores da URCA, da UFRJ e da Universidade Curtin.
Legenda: Estudo reuniu pesquisadores da URCA, da UFRJ e da Universidade Curtin.
Foto: Lisa Smith/Curtin University.

A nova pesquisa vai além do estudo da anatomia do animal, agora se tem uma dimensão molecular dele. Pesquisadores afirmam que esse tipo de pesquisa só é possível graças à qualidade dos fósseis encontrados na Chapada do Araripe, que tem condições de preservação peculiares em relação a outras bacias fossilíferas. 

É tanto que o Cariri teria a condição de duplo Lagerstätte, o termo em alemão para designar uma jazida paleontológica. Isso porque a nossa região tem uma concentração extraordinária de fósseis e ainda um nível de conservação excepcional de restos orgânicos, como é o caso dos ossos desse dinossauro, que escapou do fogo duas vezes após 115 milhões de anos envelopado na Chapada do Araripe, num nível de preservação tão ímpar que vestígios de sangue chegaram ao nosso tempo.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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