O que a rede elétrica brasileira precisa para atender grandes data centers?
Especialistas apontam como modernizar a gestão do sistema de energia para o aumento exponencial da demanda.
Os grandes data centers que devem operar no Brasil, voltados ao processamento de dados de plataformas de redes sociais e inteligência artificial (IA), exigem preparação da rede elétrica. Especialistas defendem a modernização da gestão do sistema para dar conta do consumo desses empreendimentos.
A demanda de eletricidade dos data centers deve crescer cerca de 12% ao ano a partir de 2027, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Com isso, o segmento será o quinto maior consumidor de energia elétrica do País até 2030.
Considerando os pedidos de ligação à rede elétrica, os projetos de data centers podem consumir até 10.721 megawatts (MW) em 2029. A demanda também deve dobrar até 2038.
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O QUE ESTÁ SENDO FEITO EM OUTROS PAÍSES?
O desafio da conexão dos equipamentos é global. No estado de Nova York, por exemplo, o governo suspendeu a construção de novos data centers por preocupações com o impacto no consumo de energia e água.
A suspensão vale até julho de 2027 para empreendimentos com potência superior a 50 megawatts.
Um dos modelos adotados por empresas nos EUA é a instalação de usinas dedicadas aos data centers, isoladas da rede, explica o líder de mercado e clientes da Siemens Energy, Pedro Matos.
A solução, entretanto, é transitória e pode ser menos sustentável. "Como vemos em outros países, a exemplo da Irlanda, onde o pedido de ligação à rede leva cinco anos, as empresas recorrem a uma geração temporária a gás. Quando recebem a ligação, passam a injetar energia renovável na rede", aponta.
O executivo participou da Atlantic Convergence, conferência organizada pela DE-CIX que debate o futuro das infraestruturas digitais, em Lisboa. De acordo com ele, o aumento da demanda energética por data centers deve atenuar o desequilíbrio entre a geração e o consumo de energia no Brasil.
"Esse equilíbrio é difícil de obter, mas, com mais potencial de consumo, com data centers e outras indústrias, será mais fácil gerir todo o sistema. Há uma oportunidade de ter um sistema ainda mais renovável", comenta.
Segundo Matos, o custo da energia no País tende a cair no longo prazo, desde que o Brasil aprimore a gestão dos recursos.
"No futuro, a energia será muito barata. O que pagaremos é a flexibilidade, ou seja, a capacidade de nos adaptarmos à quantidade de energia disponível naquele momento", diz.
ACESSO PRIORITÁRIO À REDE ELÉTRICA NO BRASIL
O acesso de data centers à rede de energia é viabilizado pela Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST). Na prática, o Ministério de Minas e Energia dará prioridade a empreendimentos considerados estratégicos.
Segundo a pasta, o objetivo é fortalecer o planejamento do setor elétrico, ampliar a segurança do sistema e criar condições para que o País não perca investimentos no setor.
No cálculo da capacidade disponível, o Operador Nacional do Sistema (ONS) determina o máximo valor de potência ativa que o sistema é capaz de transportar, sem apresentar violações de tensão ou fluxo de potência na região em análise, em condições normais de operação e em situações de contingência.
A primeira temporada de acesso, encerrada no início de outubro, teve 367 cadastramentos de empreendimentos de geração e consumo, totalizando mais de 20 GW em solicitações.
Considerando também o período transitório, o ONS analisou mais de 43 GW em pedidos de acesso à rede básica. Foram viabilizados ou habilitados 30,7 GW.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA GESTÃO DE GRANDES CARGAS
Ao modernizar a gestão do sistema elétrico, o ONS pode adotar ferramentas de inteligência artificial para melhorar a previsão de consumo e oferta de energia no País.
"A IA ajuda a perceber quanto vai ser a demanda, a procura. Assim, começa-se a equilibrar e a entender quando é possível produzir mais para consumir mais", explica o diretor da Greenvolt, Filipe de Oliveira Lopes.
Os modelos matemáticos também podem auxiliar na definição de locais para projetos de usinas renováveis e de equipamentos eletrointensivos.
"Cada vez mais teremos de nos preocupar com essa questão. No Brasil, sentem-se muito as alterações climáticas. É melhor construir uma central hidrelétrica perto de zonas de cheias, é preciso entender onde vai ter o melhor impacto", comenta.
EFEITO NAS COMUNIDADES
Para o especialista, ao fazer a conexão de data centers, é importante que os operadores também pensem na qualidade de conexão das comunidades no entorno.
Ou seja, em um ambiente adequado de instalação, as cidades próximas aos data centers não podem ter o acesso à energia prejudicado, mas sim aprimorado.
"A parte social é importante. É preciso entender o data center não só em termos econômicos. Os empreendimentos podem trazer know-how para o País, gerar emprego e ajudar a gerir a energia da rede", afirma.
*A colunista viajou a convite da DE-CIX para a Atlantic Convergence em Lisboa.