O que significa Brasil ser representado por Feito Pipa no Oscar e Vicentina Pede Desculpas no Goya?

Academia Brasileira de Cinema afirma que "cada premiação tem suas características".

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 13:39)
Legenda: Cearense "Feito Pipa" e mineiro "Vicentina Pede Desculpas" vão tentar indicações brasileiras em diferentes premiações internacionais.
Foto: Jamille Queiroz / Divulgação e Denise dos Santos / Divulgação.

Em 24 horas, a mesma Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema (ABC) anunciou as escolhas de dois filmes diferentes para representarem o Brasil na disputa por indicações em duas premiações cinematográficas.

Para tentar vaga na categoria de Filme Internacional no Oscar, o escolhido foi o longa cearense “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Já para Melhor Filme Ibero-Americano no Goya, principal premiação do cinema espanhol, a obra representante será o filme mineiro “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.

As decisões, anunciadas respectivamente nos dias 16 e 17, causaram confusão em quem começou a prestar mais atenção às temporadas de premiações recentemente e foram, até, alvo de críticas de quem já acompanha processos do tipo.

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Mesmo filme representou Brasil nos prêmios apenas duas vezes em 10 anos

O histórico de representantes escolhidos nos dois prêmios, porém, revela que há uma constante.

Nas últimas 10 edições dos dois prêmios (2017 a 2026), um mesmo filme representou o Brasil tanto no Oscar quanto no Goya somente duas vezes. No mesmo período, o Brasil emplacou dois indicados em cada evento. 

  • 2026 - Goya: “Manas” - indicado / Oscar: “O Agente Secreto” - indicado
  • 2025 - Goya e Oscar: “Ainda Estou Aqui” - foi indicado e venceu nos dois
  • 2024 - Goya: “Carvão” / Oscar: “Retratos Fantasmas”
  • 2023 - Goya: “Marighella” / Oscar: “Marte Um”
  • 2022 - Goya: “A Febre” / Oscar: “Deserto Particular”
  • 2021 - Goya: sem representante / Oscar: “Babenco”
  • 2020 - Goya: “Bacurau” / Oscar: “A Vida Invisível”
  • 2019 - Goya: “Benzinho” / Oscar: “O Grande Circo Místico”
  • 2018 - Goya e Oscar: “Bingo” - não recebeu indicação a nenhum
  • 2017 - Goya: “Boi Neon” / Oscar: “Pequeno Segredo”

*o ano é referente à realização das premiações

Entre os críticos das decisões, o principal argumento é que escolher filmes diferentes pode “enfraquecer” as campanhas das obras — o que teria ocorrido neste ano, em que “O Agente Secreto” chegou ao Oscar e “Manas”, ao Goya, mas ambos terminaram de mãos vazias.

Nos casos de “Ainda Estou Aqui” e “Bingo”, no entanto, é difícil afirmar que o simples fato de um mesmo filme ser escolhido como representante nacional no Goya e no Oscar tenha tido peso nos diferentes resultados finais.

Frente à repercussão, a ABC afirmou, em comentário no Instagram, que a comissão é “soberana e independente em suas indicações” e, ainda, que “entende que cada premiação tem suas características, por isso a escolha de filmes diferentes para cada uma”.

Na prática, como isso impacta as chances de “Feito Pipa” no Oscar? 

Desde o anúncio da escolha e até o próximo dia 15 de dezembro — data em que a Academia do Oscar divulga lista com 15 pré-finalistas da categoria de Filme Internacional —, um aspecto central é a visibilidade.

Neste sentido, a eventual escolha de um mesmo filme como representante do Brasil em premiações de diferentes países poderia fortalecer mundialmente o nome e a circulação da obra na temporada.

A discussão, como desde o início do processo a coluna vem ressaltando, vai além da ideia de “qualidade” das obras e precisa incluir variáveis como, em especial, a distribuição internacional.

Na disputa entre os pré-selecionados, “Vicentina Pede Desculpas” tinha a dianteira neste sentido por ser original Netflix, mas o filme escolhido pela comissão para tentar vaga no Oscar acabou sendo “Feito Pipa”.

A M-Appeal, empresa que comanda as vendas internacionais do longa cearense anunciou, próximo ao dia da escolha, que havia fechado negócios para distribuição dele em vários territórios da América Latina e da Europa, incluindo a Espanha — que tem o Goya como principal evento de cinema.

Com a distribuição para o território espanhol garantida e tendo o recorte da competição focado em longas ibero-americanos, o longa de Allan Deberton poderia ter interessante vitrine europeia caso tivesse sido escolhido representante, o que decerto seria bem-vindo no processo até o Oscar. 

Apesar deste cenário não ser mais possível, “Feito Pipa” ainda pode aparecer entre os indicados de outros eventos com alta visibilidade na temporada de premiações, como o Globo de Ouro, cuja presença de brasileiros como votantes pode ser positiva ao cearense.

Nas redes sociais, o próprio cineasta já divulgou que esteve, na semana passada, no importante Festival de Toronto para reuniões em busca de que o longa “seja acolhido pelo mercado americano (e canadense) com o mesmo carinho que está recebendo da Europa, da Ásia e da América Latina”.

Chances de "Vicentina Pede Desculpas"

Vale ressaltar, finalmente, que "Vicentina Pede Desculpas" estreia em importante evento audiovisual espanhol justamente nesta semana.

Nesta quinta (25), o filme de Gabriel Martins será exibido na competição principal do Festival de San Sebastián.

A visibilidade adquirida após a sessão e um eventual prêmio podem favorecer a corrida do longa até uma indicação na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano no Goya.

Caso a obra da produtora mineira Filmes de Plástico — de "Marte Um", representante brasileiro no Oscar em 2023, e da comédia romântica "O Dia que te Conheci" — chegue lá, será o terceiro ano seguido de uma obra do País no Goya.

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