O que significa Brasil ser representado por Feito Pipa no Oscar e Vicentina Pede Desculpas no Goya?
Academia Brasileira de Cinema afirma que "cada premiação tem suas características".
Em 24 horas, a mesma Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema (ABC) anunciou as escolhas de dois filmes diferentes para representarem o Brasil na disputa por indicações em duas premiações cinematográficas.
Para tentar vaga na categoria de Filme Internacional no Oscar, o escolhido foi o longa cearense “Feito Pipa”, de Allan Deberton. Já para Melhor Filme Ibero-Americano no Goya, principal premiação do cinema espanhol, a obra representante será o filme mineiro “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.
As decisões, anunciadas respectivamente nos dias 16 e 17, causaram confusão em quem começou a prestar mais atenção às temporadas de premiações recentemente e foram, até, alvo de críticas de quem já acompanha processos do tipo.
Veja também
Mesmo filme representou Brasil nos prêmios apenas duas vezes em 10 anos
O histórico de representantes escolhidos nos dois prêmios, porém, revela que há uma constante.
Nas últimas 10 edições dos dois prêmios (2017 a 2026), um mesmo filme representou o Brasil tanto no Oscar quanto no Goya somente duas vezes. No mesmo período, o Brasil emplacou dois indicados em cada evento.
- 2026 - Goya: “Manas” - indicado / Oscar: “O Agente Secreto” - indicado
- 2025 - Goya e Oscar: “Ainda Estou Aqui” - foi indicado e venceu nos dois
- 2024 - Goya: “Carvão” / Oscar: “Retratos Fantasmas”
- 2023 - Goya: “Marighella” / Oscar: “Marte Um”
- 2022 - Goya: “A Febre” / Oscar: “Deserto Particular”
- 2021 - Goya: sem representante / Oscar: “Babenco”
- 2020 - Goya: “Bacurau” / Oscar: “A Vida Invisível”
- 2019 - Goya: “Benzinho” / Oscar: “O Grande Circo Místico”
- 2018 - Goya e Oscar: “Bingo” - não recebeu indicação a nenhum
- 2017 - Goya: “Boi Neon” / Oscar: “Pequeno Segredo”
*o ano é referente à realização das premiações
Entre os críticos das decisões, o principal argumento é que escolher filmes diferentes pode “enfraquecer” as campanhas das obras — o que teria ocorrido neste ano, em que “O Agente Secreto” chegou ao Oscar e “Manas”, ao Goya, mas ambos terminaram de mãos vazias.
Nos casos de “Ainda Estou Aqui” e “Bingo”, no entanto, é difícil afirmar que o simples fato de um mesmo filme ser escolhido como representante nacional no Goya e no Oscar tenha tido peso nos diferentes resultados finais.
Frente à repercussão, a ABC afirmou, em comentário no Instagram, que a comissão é “soberana e independente em suas indicações” e, ainda, que “entende que cada premiação tem suas características, por isso a escolha de filmes diferentes para cada uma”.
Na prática, como isso impacta as chances de “Feito Pipa” no Oscar?
Desde o anúncio da escolha e até o próximo dia 15 de dezembro — data em que a Academia do Oscar divulga lista com 15 pré-finalistas da categoria de Filme Internacional —, um aspecto central é a visibilidade.
Neste sentido, a eventual escolha de um mesmo filme como representante do Brasil em premiações de diferentes países poderia fortalecer mundialmente o nome e a circulação da obra na temporada.
A discussão, como desde o início do processo a coluna vem ressaltando, vai além da ideia de “qualidade” das obras e precisa incluir variáveis como, em especial, a distribuição internacional.
Na disputa entre os pré-selecionados, “Vicentina Pede Desculpas” tinha a dianteira neste sentido por ser original Netflix, mas o filme escolhido pela comissão para tentar vaga no Oscar acabou sendo “Feito Pipa”.
A M-Appeal, empresa que comanda as vendas internacionais do longa cearense anunciou, próximo ao dia da escolha, que havia fechado negócios para distribuição dele em vários territórios da América Latina e da Europa, incluindo a Espanha — que tem o Goya como principal evento de cinema.
Com a distribuição para o território espanhol garantida e tendo o recorte da competição focado em longas ibero-americanos, o longa de Allan Deberton poderia ter interessante vitrine europeia caso tivesse sido escolhido representante, o que decerto seria bem-vindo no processo até o Oscar.
Apesar deste cenário não ser mais possível, “Feito Pipa” ainda pode aparecer entre os indicados de outros eventos com alta visibilidade na temporada de premiações, como o Globo de Ouro, cuja presença de brasileiros como votantes pode ser positiva ao cearense.
Nas redes sociais, o próprio cineasta já divulgou que esteve, na semana passada, no importante Festival de Toronto para reuniões em busca de que o longa “seja acolhido pelo mercado americano (e canadense) com o mesmo carinho que está recebendo da Europa, da Ásia e da América Latina”.
Chances de "Vicentina Pede Desculpas"
Vale ressaltar, finalmente, que "Vicentina Pede Desculpas" estreia em importante evento audiovisual espanhol justamente nesta semana.
Nesta quinta (25), o filme de Gabriel Martins será exibido na competição principal do Festival de San Sebastián.
A visibilidade adquirida após a sessão e um eventual prêmio podem favorecer a corrida do longa até uma indicação na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano no Goya.
Caso a obra da produtora mineira Filmes de Plástico — de "Marte Um", representante brasileiro no Oscar em 2023, e da comédia romântica "O Dia que te Conheci" — chegue lá, será o terceiro ano seguido de uma obra do País no Goya.