36 anos do SUS: a história por trás de um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo

Celebrar e valorizar não significa ignorar seus desafios.

Escrito por
Ítalo Henrique producaodiario@svm.com.br
Legenda: Defender o SUS é defender sua melhoria, para que o direito à saúde garantido pela Constituição não permaneça apenas no papel, mas seja efetivamente cumprido.
Foto: Thirdman/Pexels.

Imagine que você precisa de um atendimento médico, mas, ao chegar ao serviço de saúde, descobre que, para ser atendido, precisa ser servidor público, ter vínculo com a Previdência Social ou pagar pela consulta. Durante muitos anos, essa foi a realidade vivenciada pela população brasileira, antes de a Constituição Federal de 1988 instituir a saúde como um direito de todos e dever do Estado e estabelecer as bases para a criação do Sistema Único de Saúde (SUS).

No dia 19 de setembro de 2026, o SUS completou 36 anos desde sua regulamentação pela Lei nº 8.080/1990, após a saúde ter sido estabelecida como direito de todos e dever do Estado.

No entanto, essa conquista não surgiu do dia para a noite e foi fruto da luta de movimentos sociais pelo direito à saúde, tendo em vista que, antes do SUS, o acesso à assistência médica era restrito a uma parcela da população. Principalmente àqueles com trabalho formal, vínculo com a Previdência Social ou com condições financeiras para pagar por consultas e tratamentos.

Para entender melhor o que levou à criação do sistema, é importante conhecer a história pregressa da saúde no Brasil.

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Antes da colonização, a saúde dos povos indígenas era baseada em práticas tradicionais de cuidado, na espiritualidade, no uso de plantas medicinais e em uma relação coletiva e integrada com a natureza. Já durante o período de colonização portuguesa (1500-1822), práticas europeias de saúde foram impostas aos povos originários, enquanto diversas epidemias atingiram essas populações, principalmente doenças infecciosas para as quais não possuíam imunidade prévia.

Nesse período, a saúde pública era praticamente inexistente e as poucas ações existentes estavam voltadas aos interesses da Coroa Portuguesa e da Igreja. No período do Império (1822-1889), houve a criação das Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, além do início de algumas ações de controle sanitário nas cidades portuárias. O acesso à assistência médica, porém, permanecia bastante elitizado, enquanto a população mais pobre dependia da caridade das Santas Casas de Misericórdia e de outras ações filantrópicas.

Já no período da República Velha (1889-1930), começaram a ser realizadas campanhas sanitárias e de vacinação, mas muitas dessas ações eram desenvolvidas de forma autoritária e sem que a população tivesse acesso adequado à informação sobre sua importância. Esse contexto contribuiu para movimentos como a Revolta da Vacina, em 1904, enquanto a saúde continuava sendo marcada pela fragmentação e pela centralização das ações no poder federal.

Durante a Era Vargas e, posteriormente, no período da Ditadura Militar, foram estruturadas e organizadas instituições previdenciárias, como os IAPs (Institutos de Aposentadoria e Pensões), nas quais o acesso à assistência médica estava relacionado ao vínculo com a Previdência Social. Os trabalhadores informais, os desempregados e as parcelas mais pobres da população permaneciam, portanto, em situação de maior vulnerabilidade e com acesso limitado aos serviços de saúde.

É nesse cenário de exclusão, negligência à saúde pública e dificuldade de acesso universal que os movimentos sociais e políticos em defesa do direito à saúde e da responsabilidade do Estado começaram a ganhar força durante as décadas de 1970 e 1980. Esses movimentos eram organizados por profissionais de saúde, como médicos, enfermeiros e sanitaristas, além de acadêmicos, sindicatos e movimentos populares.

Um importante marco desse processo foi a 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986, cujas discussões, dessa vez contando com uma participação social mais ampla, foram fundamentais para a Reforma Sanitária Brasileira. As propostas discutidas no encontro foram consolidadas em um relatório que influenciou os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte e a elaboração do capítulo sobre saúde da Constituição Federal de 1988, especialmente o artigo 196, que estabelece que a saúde é direito de todos e dever do Estado.

Assim, em 1990, ocorreu a regulamentação do SUS pelas Leis nº 8.080 e nº 8.142, que estabeleceram as bases para a organização do sistema, a participação social e o financiamento compartilhado entre os entes municipais, estaduais e federal.

Com isso, o Sistema Único de Saúde passou a ser estruturado, e diversas políticas de saúde essenciais para a população brasileira foram desenvolvidas, como o Programa de Agentes Comunitários de Saúde, o Programa Saúde da Família (posteriormente chamado de Estratégia Saúde da Família), a organização do Sistema Nacional de Transplantes, a criação da Anvisa, a implantação do SAMU, o Programa Farmácia Popular, o fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações, além de políticas de saúde voltadas para populações historicamente negligenciadas, entre tantas outras ações imprescindíveis para a saúde pública brasileira.

Foi a partir dessas ações desenvolvidas e ampliadas pelo SUS, somadas a outras transformações sociais, econômicas e ambientais, que o Brasil conseguiu avançar no enfrentamento de sua elevada carga de doenças infecciosas e parasitárias, incluindo doenças tropicais como malária, doença de Chagas, hanseníase e tantas outras.

Também houve melhoria em diversos indicadores de saúde, como a mortalidade materna e infantil, a cobertura vacinal e a cobertura da atenção primária à saúde, além da redução da ocorrência de doenças infecciosas. Para fins de comparação, segundo a série histórica do IBGE que acompanha os índices de mortalidade infantil, em 1980, antes da criação do SUS, o Brasil registrava aproximadamente 69 mortes de crianças menores de 1 ano para cada mil nascidos vivos, já em 2023, esse número havia caído para aproximadamente 12,5.

Apesar da importância do SUS para a melhoria desses indicadores, também é importante reconhecer o papel de outros fatores, como a melhoria das condições de vida, o acesso à água potável e ao saneamento básico, o aumento da renda e da escolaridade e a redução da insegurança alimentar.

Celebrar e valorizar o SUS não significa ignorar seus desafios. Na verdade, valorizá-lo é uma forma de olhar para suas potencialidades e, ao mesmo tempo, reconhecer a necessidade de melhorias diante das grandes filas, das limitações estruturais, das desigualdades regionais, dos problemas de financiamento, da sobrecarga dos profissionais de saúde e da necessidade de maior valorização salarial, além das dificuldades de acesso, principalmente em áreas rurais e em comunidades historicamente marginalizadas.

Defender o SUS é, portanto, também defender sua melhoria, para que o direito à saúde garantido pela Constituição não permaneça apenas no papel, mas seja efetivamente cumprido. E essa construção também passa pela política, porque as condições de funcionamento do sistema dependem de decisões sobre financiamento, gestão, infraestrutura, formação e valorização dos profissionais e organização dos serviços, tomadas nos diferentes níveis de governo.

Por isso, escolher representantes políticos que tenham propostas claras e concretas para a saúde também é uma forma de defender o SUS. E a participação não termina no momento em que depositamos nosso voto nas urnas: ela também está na cobrança por melhores serviços, na fiscalização das políticas públicas e na atenção às decisões que definem quanto e como os recursos serão destinados à saúde.

O SUS é uma conquista histórica da sociedade brasileira, construída ao longo de décadas de mobilização social, científica e política. Valorizar essa conquista não significa acreditar que tudo funciona sem percalços, mas reconhecer o que ela representa, enxergar aquilo que ainda precisa melhorar e cobrar de quem ocupa espaços de decisão as condições necessárias para que a saúde continue sendo, de fato, um direito de todos.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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