Cearense caminha 100 km até Canindé após promessa para cachorrinha idosa sair viva de cirurgia
Jornalista Daniella de Lavôr passou três dias na estrada e enfrentou de calor a pé inchado.
Foi o olhar de Serena que cativou Daniella de Lavôr. Foi o sacrifício de Daniella de Lavôr que honrou a vida de Serena. Essa relação tão profunda entre tutora e pet ganhou um dos capítulos mais fortes neste mês de outubro, quando Daniella percorreu 100 quilômetros, de Fortaleza a Canindé, em agradecimento a São Francisco. Serena sobreviveu a uma cirurgia que poderia separar duas almas destinadas a continuar juntas e a desfrutar o bom da vida.
Aos 14 anos, a cachorrinha, considerada idosa no universo canino, contraiu, em maio, uma infecção no útero, início de uma piometra – como se chama a infecção bacteriana grave e potencialmente fatal, responsável pelo acúmulo de pus no interior do útero de fêmeas não-castradas. Daniella se viu em desespero. Acostumada à trajetória saudável de Serena, nunca imaginou passar por essa situação. Precisou se recompor e optar pela cirurgia.
Quando olhou para as câmeras do hospital e viu a cadelinha desacordada numa maca devido à aplicação da anestesia, tudo mudou. O mistério das coisas se fez. Uma voz de dentro falou: “Se ela ficar bem, vou para Canindé”.
“Veio com a força de um vômito. Eu não sabia quem era São Francisco, não sabia nada sobre ele, mas essa frase veio”, conta a jornalista e apresentadora cearense, integrante da Rádio Verdinha e da TV Diário, onde apresenta o programa Bom Dia Nordeste.
Ali mesmo selou a promessa, não sem depois escutar da própria veterinária: “Agora você vai ter que comprar um tênis para ir a Canindé, porque ela está ótima”. Estava feito: sorriso, alívio e preparação. Começava ali a jornada de Daniella para um encontro consigo mesma que ela poucas vezes imaginou. Mulher de fé, mas de uma fé “superficial”, conforme detalha, viu-se de repente imersa na história de São Francisco e na vontade de peregrinar até ele.
Descobriu, por exemplo, ser ele o padroeiro dos animais – ou seja, feito ela, o santo também era apaixonado por bichinhos. E que havia toda uma logística para que uma romaria segura e devota pudesse acontecer, algo com veículos de apoio, paradas para descanso e dinâmicas específicas para auxiliar na travessia. Munida de todas as informações e, sobretudo, do amor por Serena, Daniella deu o primeiro passo em 8 de outubro.
No primeiro dia, caminhou 34 quilômetros. O cansaço, opressivo, surgiu principalmente por ter cumprido expediente nas horas anteriores, e se prolongou pelos dias seguintes.
“Fui sem ninguém, então eu estava completamente sozinha na estrada. Percebi o silêncio dela, um silêncio que muitas vezes grita – tanto que chorei. Eu gritava sozinha e ninguém me ouvia, porque eu estava sozinha, realmente”.
Ainda assim, percebeu o céu “estreladíssimo”, as pessoas que se achegavam para seguir o trajeto com ela – uma delas, Lívia, marcou pela prosa fácil e inspiradora – e os tão belos sinais.
Em certo instante, por exemplo, caiu e, com ela, a imagem de São Francisco, presente de uma amiga, guardada numa bolsa feita pelas mãos de outra amiga. Apenas o nariz do santo quebrou, deixando Daniella intacta, o que para ela significou a necessidade de seguir o caminho, mas amparada pelo carro de apoio.
“Entendi que o mais importante não era a estrada; o caminho, sim, era muito mais interno do que o acostamento”. Três dias depois de puro calor, suor e sacrifício, a peregrina pisou no solo sagrado de Canindé, e emocionou-se tão logo viu a faixa de boas-vindas na entrada do município. Deu-se conta do quão forte pode ser um sentimento. Do quanto a gente pode ir longe quando escolhe amar.
“Eu estava sentindo meu pé como se ele estivesse em carne viva. Junto à marca no nariz da imagem de São Francisco, tudo teve um significado pra mim. Deus usou a Serena porque só ela podia me chegar até lá, daquela forma, pra que eu chegasse até mim. Ela foi um instrumento. Se não fosse por ela, eu não teria ido a pé a Canindé por ninguém. O amor dela me fez enxergar outras coisas”.
Não à toa, a certeza: faria tudo de novo. Acolheria Serena como presente quando ela tinha apenas 52 dias de vida; vivenciaria começos e fins ao lado dela, chegadas e despedidas, mudanças de apartamento e emprego, até pandemia; daria a ela o nome que escolheu porque foi aquele sereno par de olhos caninos que a conquistou e representou lar.
E, claro, chegaria de Canindé e mostraria a ela a imagem de São Francisco, a bolsinha companheira ao longo da jornada, fotos, vídeos e toda sorte de experiências. Fatos para cravar no peito.
No fim das contas, amor é pele em carne viva mesmo, feito os pés após romaria. “Deus sempre me colocou no lugar certo e na hora certa, e eu nunca prestei atenção nisso. Nessa caminhada, até isso consegui entender, que eu tive várias chances. Quando penso no amor, penso nessa carne viva, que lateja, mas que, ao mesmo tempo, te faz passar em cima da dor para chegar em algum lugar. O meu lugar era Canindé”.
*Esta é a história de amor de Daniella de Lavôr por Serena. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.