Belchior 80 anos: de cantor da contracultura a ícone pop, artista segue como voz fundamental
Obra do artista, falecido em 2017, é revisitada na literatura, no audiovisual e em diversos tributos ao longo da última década, conquistando novas gerações de fãs.
No dia seguinte ao resultado de uma eleição presidencial acirrada, uma data importante para a cultura cearense e nacional talvez acabe sendo deixada de lado. Na próxima segunda-feira, 26 de outubro, completam-se os 80 anos de nascimento de Antônio Carlos Belchior, cearense de Sobral e um dos grandes cantores e compositores da Música Popular Brasileira.
Fato é que, independentemente da data oficial de seu aniversário, Belchior nunca foi tão festejado quanto nos dias de hoje. Na última década, de nome da MPB conhecido principalmente pela poética, que dialogava com temas da juventude e da classe trabalhadora, o artista se tornou um ícone da cultura pop, reverenciado tanto por fãs antigos e artistas consagrados quanto pelas novas gerações.
Essa celebração segue numa crescente, especialmente neste ano, com o aniversário de 50 anos de seu disco mais emblemático, “Alucinação”, de 1976.
Nos últimos anos, o repertório afiado de Belchior, com suas muitas frases marcantes, virou também patrimônio carnavalesco – o bloco “Volta Belchior”, em Belo Horizonte (BH), reúne milhares de fãs todos os anos –, protagonista de intervenções urbanas e de uma série de tributos musicais. Daíra, Ana Cañas, Silvero Pereira e André Prando são apenas alguns dos nomes que já rodaram o País interpretando letras como “Alucinação”, “Coração Selvagem” e “Divina Comédia Humana”.
Uma das homenagens mais conhecidas, porém, vai além de um setlist de clássicos e traz uma conexão mais profunda com a obra de Belchior. A cantora Vannick Belchior, de 29 anos, dedica boa parte da carreira artística a manter a obra do pai viva desde 2021, quando começou a interpretar clássicos de Belchior nos palcos de Fortaleza por estímulo do músico Tarcísio Sardinha, grande amigo do artista sobralense.
Filha caçula e a única cearense entre os herdeiros do artista, a cantora conta que o começou como uma homenagem acabou tornando-se, também, um reencontro com o pai, de quem foi próxima na infância, mas se distanciou em decorrência do “desaparecimento” do artista da vida pública, nos anos 2000.
À coluna, Vannick relata que acredita que esse afastamento é responsável por parte do interesse renovado no trabalho do artista. “O público ficou com uma saudade muito grande. Acho que gerou essa coisa da saudade e também a coisa do herói musical nacional, através da mensagem que ele passou. Aquele herói que cantou o povo brasileiro e cantou a realidade mesmo”, afirma.
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Esse novo boom da obra de Belchior, para Vannick, tem como marco expressivo o ano de 2019. Apenas dois anos após a partida do artista, o rapper paulista Emicida lançou a música “AmarElo”, integrante do álbum de mesmo nome, que utiliza como sample o refrão de “Sujeito de Sorte”.
Rapidamente, “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” se tornou mantra da juventude. Hoje, a música, que não era das mais conhecidas, é a mais ouvida do artista nas plataformas de música.
“Até quem não conhece Belchior, quando escuta ‘presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte’ já conhece essa música. É um hit nacional que se tornou hit pós-morte de Belchior. Acho que isso contribuiu bastante para esse segundo estouro”, comenta Vannick.
“A atemporalidade da obra também contribui bastante para que ela seja revisitada e redescoberta. Porque, nos tempos de hoje, o que meu pai cantou em 76 ainda é completamente atual. A gente vê aí, nessa política”, pontua.
“Quando ele fala ‘um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha’, em ‘Alucinação’, a gente vê que ainda, né, 50 anos depois, os problemas cíclicos são os mesmos, eles se repetem, estão completamente enraizados. Essa parte da sociedade é a primeira a ficar na corda bamba em qualquer crise que a gente enxerga politicamente. Então, acho que ele cantou uma coisa muito para além do tempo dele. Ele cantou a raiz do problema do povo brasileiro.”
Belchior era ‘aliado da juventude’ e antifascista, diz biógrafo
O jornalista Jotabê Medeiros escreveu o livro “Apenas um rapaz latino-americano”, lançado pela editora Todavia poucos meses após a morte de Belchior, em 2017, após perceber que boa parte da vida do artista seguia um mistério – pelo menos para parte do País. Crítico de música por décadas, decidiu se dedicar a pesquisar a vida e a obra do cearense por volta de 2014 e se surpreendeu com a riqueza das histórias.
Aprendeu sobre a infância de Belchior em Sobral, o noviciado em Guaramiranga, o período em que cursou Medicina e as delicadezas da vida pessoal do artista. Mas o que mais chamou atenção, frisa, sempre foi a própria obra de Belchior, que parece ter sempre algo a ser relido, redescoberto.
“A questão da qualidade da obra dele extrapola até o debate da mitologia, da persona, porque, mesmo quem tem outras preferências de música, nunca deixa de notar que o Belchior tem uma abordagem extremamente original e pessoal da poesia e da música”, conta Jotabê.
Para o biógrafo, há muitas razões pelas quais Belchior voltou à cena mesmo após anos de afastamento. “O caso do Belchior é mais múltiplo, porque a música dele fala muito da juventude, fala muito do sentimento do que é ser jovem no mundo de adultos, do que é ter que provar o valor face à descrença, à falta de oportunidades, à desconfiança, ao sarcasmo, à ironia”, destaca.
Muito desse sentimento parte de uma capacidade de compreender o espírito da época, diz Jotabê. Em plena ditadura militar, Belchior embarcou para o “Sul Maravilha” junto aos outros integrantes do movimento Pessoal do Ceará na década de 70, e soube traduzir o desconforto de todos os lugares e não-lugares que ocupava.
“Nos anos 70, principalmente no período em que ele surge, de 76 em diante, você tinha a abertura política, que eles chamavam, que era a tentativa de sair do jugo da ditadura militar. E a juventude vivia entre dois movimentos, que eram o de permanecer alerta contra a ditadura e fazer música engajada, ou então inventar um novo futuro”, explica o jornalista.
“Belchior viu esse movimento, sentiu e traduziu isso nas canções dele de uma forma muito bonita, sem ser paternal, sem ser também debochado. Ele foi um aliado da juventude”, completa.
Medeiros destaca que, como ocorreu com outros artistas cujas obras tinham teor político forte, como Raul Seixas, há quem só tenha descoberto a verve política das letras de Belchior nos últimos anos. No entanto, segundo o jornalista, o artista nunca desvencilhou seu trabalho do que ocorria na política brasileira.
“Eles não compreendem muito bem. Isso acontece em vários artistas, né? Aconteceu, por exemplo, com o Pink Floyd, com Roger Waters, que chegou a ser vaiado em São Paulo por ter feito um discurso contra o fascismo. E o Belchior era antifascista, né? Está na música dele. Era antifascista, era democrata. E foi um dos primeiros militantes ambientais na música brasileira”, relata. “Belchior estava sempre à frente”.
Vannick Belchior lança novo projeto para celebrar 80 anos do pai
Desde que começou a homenagear a obra de Belchior, Vannick Belchior estreou com o EP “Das Coisas Que Aprendi Nos Discos” (2022), apresentou o show acústico “Um Concerto a Palo Seco” e gravou alguns singles.
No mês passado, deu início a uma nova fase da carreira ao lançar a primeira parte de um projeto mais robusto: seu primeiro álbum, “Meu Nome é Cem”, nomeado a partir de uma composição de Belchior musicada por Rick Ferreira, que trabalha com Vannick no projeto.
O EP conta com seis faixas, incluindo “Tudo Outra Vez”, com participação de Renato Teixeira, e “Meu Cordial Brasileiro, feat. com o rapper Don L. Um dos produtores do trabalho é o músico Sérgio Zurawski, que também foi parceiro criativo de Belchior. A segunda parte do álbum será lançada em janeiro de 2027.
Neste fim de semana, a cantora apresenta o novo repertório pela primeira vez em Fortaleza, em duas apresentações gratuitas, uma no Centro Cultural Belchior e uma no Museu da Imagem e do Som (veja agenda abaixo).
Vannick destaca que o intuito do projeto era unir parceiros e admiradores do pai para manter a essência do trabalho do artista. Para ela, o trabalho se destaca por destacar a relação de Belchior com a própria terra, algo fundamental em sua obra. “Eu costumo falar que o que meu pai com certeza acrescentou na música popular brasileira foi por ele ter nascido no Ceará, porque ele cantou o Nordeste, ele cantou o Ceará”, afirma.
No dia 26, Vannick lança o vídeo documental “Vannick Belchior apresenta Belchior 80 anos – Apenas um rapaz latino-americano” no Fino da Bossa, em São Paulo. O curta reúne relatos de amigos e parceiros musicais de Belchior e ficará disponível no YouTube da artista em breve.
Além do documentário e de apresentar “Meu Nome é Cem” pelo País, Vannick também fará uma homenagem especial ao pai ao lado da banda Cor dos Olhos e do cantor Mateus Fazeno Rock no dia 21 de novembro, no Festival Zepelim, com o show “Alucina”. “Vai ter muito Belchior, mas saindo desse óbvio. Podem esperar uma coisa mais rock, diria que um rock bem Pink Floyd, psicodélico. Acho que o público vai gostar muito”, destaca.
Emocionada, a caçula de Belchior afirma se sentir honrada por poder levar o nome e o legado do pai para tantos espaços e em diferentes frentes. Também diz achar “muito justo” o imenso número de tributos à obra do artista, que se multiplica a cada ano que passa.
“Ver onde a obra do meu pai chegou para mim é de uma honra imensa, porque o meu pai era um cara muito simples, um cara que dizia que a fama era circunstancial, mas efêmera. O que fica é a glória. É a glória e a honra. Então, é isso que ele tem. Ele tem a honra e a glória”, conclui.
Serviço
Show “Meu Nome é Cem”, com Vannick Belchior
Onde: Centro Cultural Belchior (rua dos Pacajus, 123 - Praia de Iracema)
Quando: Sexta-feira, 23 de outubro
Horário: 20h
Gratuito
Mais informações: @centroculturalbelchior
Onde: Praça do Museu da Imagem e do Som (av. Barão de Studart, 410 - Meireles)
Quando: Sábado, 24 de outubro
Horário: 18h
Gratuito
Mais informações: @mis_ceara