A indústria da morte com filtro

Escrito por Gregório José producaodiario@svm.com.br
02 de Junho de 2026 - 06:00
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Legenda: Jornalista

O Brasil descobriu mais uma vez que o cigarro mata. A novidade é que continua matando com uma eficiência empresarial admirável. Segundo levantamento recente, mais de 63 mil brasileiros morreram de câncer associado ao tabagismo. Quase um quarto de todas as mortes por câncer do país. Uma tragédia estatística tão gigantesca que parece ter sido transformada em paisagem.

O mais curioso é que ninguém se espanta.

Sessenta e três mil mortos não produzem comoção nacional. Não interrompem campeonatos. Não provocam pronunciamentos emocionados. Não geram correntes de solidariedade nas redes sociais. A fumaça tem um talento extraordinário para esconder cadáveres.

Enquanto isso, a indústria do tabaco continua sua obra de ficção científica. Durante décadas vendeu câncer enrolado em papel e o chamou de charme. Associou fumaça à liberdade, ao sucesso, à aventura e até ao romantismo. Conseguiu uma façanha histórica. Convenceu milhões de pessoas a pagar para adoecer.

Agora a velha engrenagem se reinventa. O cigarro eletrônico surge embalado em design moderno, sabores adocicados e promessas tecnológicas. É o mesmo veneno com departamento de marketing atualizado. O que antes vinha com cheiro de cinzeiro agora chega com aroma de frutas tropicais e aparência de aparelho eletrônico sofisticado.

A lógica permanece intacta. Primeiro cria-se a dependência. Depois vende-se a ilusão. Por fim entrega-se a conta ao sistema de saúde.

Os números são brutais. Cerca de 90% das mortes por câncer de pulmão mantêm relação com o tabagismo. Mesmo assim ainda existe quem trate o assunto como mera escolha individual. É uma escolha tão livre quanto cair em areia movediça depois de ter sido empurrado para dentro dela desde a adolescência por campanhas milionárias e estratégias de sedução comercial.

A sociedade também tem sua parcela de hipocrisia. Condena o tráfico de drogas com indignação permanente, mas convive com naturalidade com um produto que responde por dezenas de milhares de mortes todos os anos. A diferença está no recibo fiscal.

O Dia Mundial sem Tabaco se aproxima. 31 de maio. Haverá campanhas, discursos e alertas. Tudo necessário. Mas talvez falte uma sinceridade desconfortável. O cigarro não é apenas um problema de saúde pública. É um dos negócios mais lucrativos já construídos sobre a fragilidade humana.

E continua funcionando.

Os cemitérios sabem disso. Os hospitais também. Só parece que parte da sociedade ainda insiste em não ler a fumaça.

Gregório José é jornalista

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