'Jumento, nosso irmão!'
Escrito por
Saraiva Júnior
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Legenda:
Saraiva Júnior é escritor
Nos últimos dias a imprensa noticiou discretamente que a justiça federal do estado da Bahia proibiu o abate dos jumentos, mulas e bardotos – quiçá essa lei possa ser estendida para todo o país. Logo, me veio à tona lembranças de menino que vivi na exuberância da floresta caatinga em pleno sertão central. O envolvimento de carinho, admiração e respeito começava com os passarinhos: canário da terra, pintassilgo, graúna, sanhaçu, sabiá e galo de campina, todos soltos. As galinhas eram criadas nos arredores da casa e os porcos no chiqueiro. À noite, o cachorro “leão” tomava de conta do terreiro da casa.
Papai reservou o jumento Roxinho para meu irmão, era um jumento. O outro levava o nome de Cacheado, era o meu. Jumento manso, manhoso e desobediente. Passei a lhe dar milho na mão e conversar baixinho com ele, e com cuidado de ninguém escutar. Depois de alguns dias, coloquei o cabresto na cabeça e a esteira no lombo, lá na garupa, alisei sua cara, e só então montei nele. Devo dizer que me sentir o próprio Gerônimo, o herói do sertão.
O tempo passou entre o sol inclemente e as chuvas inconstantes e esparsas. Fui estudar na cidade grande. Ao retornar de férias, no final do ano, percebi que a mata perdeu a riqueza de sua diversidade. Meu pai procurava preservar os Juazeiros, Paus Brancos e Umburanas pelas margens do riacho. As dificuldades financeiras fizeram com que ele vendesse o resto das árvores cortadas para a fábrica de algodão e resídio. Diante da terra nua, ele arranjava a desculpa que precisava de pasto para o gado, não sabia que a terra ficava cada vez mais fraca. Aos poucos, os passarinhos foram sumindo.
Pelos menos o Cacheado na cocheira ficou forte e tornou-se um jumento de lote, cobria as éguas e nasciam lindos burrinhos. Doutra, não encontrei o Cacheado debaixo do Juazeiro com sua tina de pneu cheia de ração. Papai construía açude e sua tropa de animais, jumentos e burros, faziam o trabalho pesado de carregar terra escolhida para erguer a parede que iria represar as águas do riacho. Fui até o local da construção e vi o Cacheado magro, velho e alquebrado. Juro que ele olhou para mim e seus olhos lagrimejaram.
Voltei em casa e apelei para mamãe pedir, em meu nome, que papai dispensasse o Cacheado daquele penoso trabalho. De início, ele relutou, mas, no outro dia o jumento estava no quintal de casa. Tratei de banhá-lo, lhe dar milho e colocar água na tina do estábulo. Pelo que sei, Cacheado morreu de velho. Fico com a lição do Padre Antônio Vieira, em seu clássico livro “O Jumento, Nosso Irmão”, é urgente amar os animais e se conscientizar sobre a importância do meio ambiente como o único caminho para salvar a vida no planeta Terra.
Saraiva Júnior é escritor