Tem uma coisa curiosa no tarifaço que os Estados Unidos propuseram contra o Brasil no começo de junho. Diferente de outras disputas comerciais, o centro da discussão não é commodity, déficit, aço ou alumínio. É o Pix.
O documento do USTR, Escritório de Comércio dos EUA, cita o sistema brasileiro de pagamentos dezenas de vezes. A crítica é que o Banco Central seria regulador e operador do Pix, criando vantagem contra empresas americanas, especialmente bandeiras de cartão. O relatório também menciona redes sociais, etanol, propriedade intelectual e desmatamento. Ao fim, recomenda tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Mais do que discutir quem tem razão, a pergunta prática é: por que um empresário do Nordeste que importa da China deveria acompanhar uma disputa sobre meios de pagamento? Porque o episódio mostra que o comércio exterior mudou. Tarifa deixou de ser só instrumento econômico e virou ferramenta política. Hoje, um imposto pode surgir para pressionar regras internas, decisões judiciais ou políticas regulatórias, mesmo longe da mercadoria importada.
Para quem importa, isso aumenta a imprevisibilidade. Antes, bastava olhar preço, câmbio, frete e balança comercial. Agora, é preciso acompanhar clima político, consultas públicas, exceções e prazos. A proposta americana deixou de fora café, carne bovina, frutas, peças de aeronave e terras raras, mostrando que a letra miúda importa tanto quanto o anúncio principal.
No Nordeste, o recado é estratégico. A maior parte das importações vem da Ásia, não dos Estados Unidos. Ainda assim, quando grandes economias se enfrentam, cadeias de suprimento se reorganizam, custos mudam e decisões tomadas longe daqui podem chegar meses depois à operação local.
Também há um fator decisivo: calendário. A proposta americana não vira tarifa da noite para o dia. Há consulta pública, prazo para manifestações, audiência e só depois decisão final. Esse intervalo permite agir com planejamento.
A lição não é apenas sobre o Pix. É sobre método. Diversificar fornecedores, monitorar câmbio e calendário regulatório e tratar comércio exterior como leitura de cenário. Em 2026, importar não é mais só fazer conta de custo. Quem enxerga apenas preço, reage. Quem acompanha o contexto, antecipa.
Arcelino Calado é empreendedor