Sábado, 9 da manhã, 20 mulheres cantando Evidências em uma só voz. A música do Chitãozinho e Xororó foi a que eu escolhi para abrir o nosso encontro do módulo de relacionamentos do curso que dou para terapeutas. Todas nós conhecemos essa música de cor, afinal esse é o segundo hino nacional brasileiro na nossa faixa etária. E não à toa essa é a nossa abertura: quando falamos de relacionamentos, a lógica sofrida da entrega desmedida que aprendemos dá o tom das dores que enfrentamos.
A verdade é que nós fomos educadas para confundir controle com cuidado e possessividade com prova de amor. Quando alguém nos monitora, quando reage a cada passo que damos, se importando obsessivamente com quem falamos e onde estamos, aprendemos a ler isso como uma demonstração imensa de afeto. E há algo de profundamente sedutor nisso, porque se o outro está nos controlando, se importando com cada movimento nosso, reagindo a cada palavra que dizemos com raiva, ciúmes, ameaças veladas, de uma maneira muito violenta, ainda assim acabamos sentindo que alguém realmente se importa com a gente.
Essa importância, ainda que tóxica, mesmo que nos sufoque e maltrate, é mais palatável do que a dura verdade: na vida adulta, ninguém se importa tanto assim com a gente. E isso é uma constatação que fere muito o nosso orgulho. Inconscientemente, então, preferimos escolher a prisão. No fim das contas, dentro da prisão, pelo menos há a quem nos sirva imensas porções de importância e atenção. Mesmo que chegue em forma de raiva e controle, é uma afirmação incontestável da nossa relevância.
Mas, para quem já não pode mais com esse nível de dor, venho anunciar que há esperanças: outras maneiras de acolher nossa carência são possíveis. Não que seja fácil, mas o caminho é fazer as pazes com a nossa desimportância e encontrar modos de realização pessoal que não passam por entregar a vida nas mãos de alguém para "fazer o que quiser de mim", como diz a música. Precisamos encontrar o prazer em primeira pessoa, cultivando os próprios interesses, para tomar de volta o poder que entregamos ao olhar do outro sobre nós descobrindo (ou criando?) aquilo que, de verdade, nos satisfaz e motiva.
Eloisa Fuchs é psicóloga