Os profissionais do embelezamento, como cabeleireiros, barbeiros e manicures, têm a menor média de rendimentos do Ceará. É o que aponta a Receita Federal, com base nas declarações do Imposto de Renda de 2026.
A categoria de profissionais de beleza teve rendimento médio de R$ 29,7 mil ao longo de 2025, o equivalente a cerca de R$ 2,4 mil por mês.
Isso pode refletir a desvalorização que a manicure Kelma Santos, que atua na área há 17 anos em Fortaleza, vem observando no setor ultimamente.
"Eu venho de uma época em que a gente trabalhava 'normal' e ganhava muito bem. Hoje em dia, para a gente ganhar um valor bom, precisa trabalhar muito mesmo, e ainda tem a logística", comenta.
Ela tem dois filhos e é a principal responsável pelo sustento da família. Para aumentar o número de clientes e a renda, ela começou a atender em domicílio. A profissional encontra, entretanto, uma barreira no público consumidor a preços mais vantajosos.
"Eu já vi relatos de clientes que, em outros estados, encontram valores bem maiores do que aqui. Uma cliente viajou para São Paulo e foi fazer a unha, pé e mão, por R$ 150. Aqui, a gente faz a unha três vezes por esse valor", diz.
A desvalorização atinge principalmente os auxiliares de salões, como escovistas e designers de sobrancelhas, afirma Liduina Marques, presidente do Sindicato dos Oficiais Barbeiros, Cabeleireiros e Similares de Fortaleza (Sindibeleza).
Cabeleireiros, maquiadores e manicures podem firmar contratos de parceria, em que os profissionais recebem comissão por serviço.
"Os auxiliares têm que ser celetistas, de acordo com a legislação, e recebem salário mínimo. E aí sim sofrem desvalorização, por ter um piso salarial pequeno, embora o sindicato lute para que tenham um salário digno. Mas é difícil negociar com o patronato", afirma.
ESTRUTURA DO MERCADO
A menor média de rendimentos entre os trabalhadores de embelezamento está associada à estrutura desse mercado, segundo Thiago Holanda, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE).
"É um setor formado majoritariamente por microempreendedores, profissionais autônomos e pequenos salões, com elevada concorrência e baixa capacidade de repasse de preços", aponta.
Em estados com a renda mais baixa, como o Ceará, é natural que o ticket médio dos serviços de beleza seja menor, segundo o especialista. Mas o resultado, por si só, não indica desvalorização da profissão acima da média nacional.
"Para essa conclusão, seria necessário comparar os rendimentos da mesma ocupação em diferentes estados, controlando fatores como custo de vida, produtividade, nível de formalização e perfil dos estabelecimentos", afirma.
ANÁLISE DE DADOS EXIGE CAUTELA
A profissão com o segundo menor rendimento registrado em 2025 é a de corretor e administrador de imóveis, com média de R$ 31,1 mil. Em seguida, aparece a categoria de trabalhador dos serviços domésticos (R$ 32 mil).
Já as ocupações com maiores médias de rendimentos totais são titular de cartório (R$ 1,5 milhão), membro do poder judiciário — juiz e desembargador (R$ 1,19 milhão) e membro do Ministério Público — procurador e promotor (R$ 1,05 milhão).
Os dados de rendimentos devem ser analisados com cautela e não indicam necessariamente a realidade salarial das profissões, pondera Emanuelle Oliveira, contadora e sócia da Fonteles & Associados.
"A metodologia da Receita considera o total de rendimentos tributáveis declarado pelo titular e por seus dependentes, e não exclusivamente a remuneração obtida na ocupação indicada", explica.
No caso dos profissionais da beleza, por exemplo, a média pode decorrer de combinação de fatores, como prestação de serviços por conta própria e atividades complementares.
"Profissionais que não estão obrigados a entregar declaração de Imposto de Renda não aparecem na base. Também podem ficar fora dos rendimentos tributáveis receitas recebidas informalmente, valores não declarados ou quantias que foram contabilizadas no CNPJ e não como renda tributável da pessoa física", aponta.