Em meio a uma crise que tem impactado as operações e as entregas de pedidos, a rede de móveis planejados de alto padrão Kitchens fechou lojas em diferentes estados do País, incluindo o showroom de Fortaleza.
Localizada na Avenida Senador Virgílio Távora, a unidade foi alvo de uma ação de despejo após dois meses sem pagamento de aluguel. No processo, ao qual o Diário do Nordeste teve acesso, a proprietária do imóvel calculou que, incluindo honorários advocatícios, a dívida da Kitchens era de mais de R$ 104 mil.
A Justiça determinou o despejo em 20 de agosto, e um mandado foi expedido no dia seguinte para que a empresa desocupasse o imóvel no prazo de 15 dias, sob pena de despejo compulsório. Contudo, o imóvel foi desocupado voluntariamente em setembro.
Fechamento da loja
Um troca de e-mails entre os representantes da Kitchens e da proprietária do imóvel mostra que, no dia 12 de agosto, a rede informou a decisão de fechar a unidade de Fortaleza, pois a operação “mostrou-se economicamente inviável”.
À reportagem, a Kitchens informou que o fechamento se refere exclusivamente ao espaço físico da loja na Capital cearense, mas que o atendimento aos clientes e a atuação da equipe responsável pelas montagens na região estão mantidos.
“Os dados sobre o quadro de funcionários em Fortaleza e o panorama nacional de lojas e equipes estão sendo consolidados no contexto da reorganização [da empresa] e, por isso, não estão sendo divulgados neste momento”, complementa a nota.
Procurado pelo Diário do Nordeste, o escritório de advocacia que representa a proprietária do imóvel não comentou o caso.
“Em razão da natureza da nossa atuação e do compromisso com a confidencialidade dos assuntos relacionados aos nossos clientes, temos como política não comentar publicamente casos nos quais o escritório atua, ainda que se trate de processo de natureza pública”, informa.
Cearense relata atraso em projeto de R$ 590 mil
Esse, porém, não foi o único problema enfrentado pela loja de Fortaleza. Em fevereiro deste ano, uma cliente ajuizou uma ação por danos morais contra três empresas do grupo Kitchens, alegando atraso na entrega e montagem de um projeto de móveis planejados avaliado em R$ 590,3 mil, com instalação estava prevista para outubro de 2025.
O processo tramita na 2ª Vara Cível da Comarca de Eusébio, do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE). Foram contratados os serviços de três empresas do para mobiliar e montar diversos ambientes.
Segundo o detalhamento do processo, a cliente desembolsou mais de R$ 303,3 mil no momento da contratação, que ocorreu em fevereiro de 2025, e o restante do valor seria pago em seis parcelas.
A entrega e a montagem dos móveis foram agendadas para outubro daquele ano, mas só ocorreram em dezembro, inviabilizando planos pessoais da cliente.
“E, ainda assim, a entrega ocorreu de forma incompleta, como os armários da cozinha sem porta, closet sem porta e faltando peças, a ilha faltando peças, com a ausência de diversos componentes essenciais, como a cristaleira e o armário para adega, itens relevantes do projeto que sequer foram entregues ou montados, deixando o serviço inacabado e comprometendo a funcionalidade e a estética dos ambientes”, informa o processo.
Um ano depois, em outubro de 2026, ela recebeu cerca de 80% do projeto, segundo o advogado que a representa. “Antes, prometiam prazos de entrega, agora não estão mais prometendo”, afirma.
Em outra ação, ajuizada em 25 de setembro na 11ª Unidade do Juizado Especial Cível de Fortaleza, um consumidor pediu a rescisão de contratos de fabricação e instalação de móveis planejados, a devolução integral dos valores pagos e indenização por danos morais.
O consumidor citou a crise operacional e o fechamento da loja de Fortaleza e alegou que as empresas não teriam condições de cumprir os prazos de entrega.
Na nota, a Kitchens reconheceu os atrasos e os impactos para os clientes e afirmou que a reorganização inclui um diagnóstico da operação e de toda a carteira de pedidos em aberto.
Porém, disse que novos prazos de entrega só serão apresentados quando puderem ser “efetivamente asseguradas pela operação”.
“[A empresa] trabalha para estabelecer prioridades e reorganizar os fluxos de produção, fornecimento, montagem e atendimento. Por entender a importância de oferecer maior previsibilidade, novas datas de entrega só serão apresentadas quando puderem ser efetivamente asseguradas pela operação”, diz.
Entenda a crise da Kitchens
A Kitchens foi fundada em 1964 e informa, no site oficial, ter 20 lojas pelo País — incluindo unidades em Fortaleza, Recife, Salvador, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. Segundo os advogados de defesa, a rede conta com cerca de 500 funcionários em todo o Brasil.
O portal C-Level, da Folha de S. Paulo, noticiou no dia 1º de outubro, a crise enfrentada pela empresa, o fechamento da loja de Brasília e dezenas de ações de clientes na Justiça solicitando cancelamento de contratos e devolução de dinheiro neste ano.
Na contestação à ação de despejo da loja de Fortaleza, a defesa da Kitchens contextualizou essa crise e aponta que a rede atravessa “um dos períodos mais delicados de sua história empresarial”, enfrentando dificuldades financeiras e operacionais. O documento também cita o ambiente econômico “extraordinariamente adverso” para as empresas brasileiras.
Em nota, a Kitchens afirmou que iniciou uma nova etapa de reorganização de sua gestão e operação, com suporte de assessorias especializadas nas áreas jurídica, financeira, operacional e de reestruturação.