A recuperação extrajudicial da Aeris, fabricante cearense de pás eólicas, deve levar a uma operação menor e mais voltada à exportação e pressionar os fornecedores locais de menor porte, segundo análise de fontes especializadas.
O pedido de recuperação extrajudicial foi divulgado nessa quarta-feira (4) em fato relevante ao mercado.
Segundo os especialistas, o episódio reflete uma crise que afeta todo o setor de energia eólica, causada por fatores como falta de demanda, excesso de oferta de energia e cortes de geração.
Nesse contexto, explicam, o Ceará corre o risco de ter a imagem comprometida para futuros investidores internacionais e de perder a capacidade de fabricar.
Contudo, não são esperados o fechamento da empresa e a demissão de funcionários a curto prazo.
Procurada, a empresa informou que "não pode comentar além do que está no Fato Relevante".
Por que a empresa pediu recuperação extrajudicial?
No fato relevante, a companhia disse que a medida visa renegociar um montante de pouco mais de R$ 1,52 bilhão em obrigações financeiras e readequar a estrutura de capital da companhia, cuja principal planta fabril opera no Complexo Industrial e Portuário do Pecém.
Apesar da medida, a diretoria da Aeris destacou que as operações industriais não serão impactadas.
O que muda é que as execuções e cobranças judiciais vinculadas às dívidas abrangidas pelo plano serão suspensas por 90 dias.
Durante esse período, a empresa deve negociar e reorganizar suas dívidas com os credores, buscando chegar a um acordo sobre condições como prazos e formas de pagamento.
Redução da operação e pressão sobre fornecedores
Para o consultor e sócio fundador da Energo Engenharia, Adão Linhares, o pedido de recuperação extrajudicial deve resultar em uma operação menor e mais voltada à exportação.
Segundo ele, os fornecedores locais de menor porte podem ser os principais afetados pela medida. Mesmo com a empresa garantindo a preservação das linhas de fornecimento, explica, “qualquer renegociação de dívida aperta o capital de giro e alonga o prazo de pagamento na ponta".
"Quem é pequeno sente primeiro”, enfatiza. Além disso, Linhares destaca que o episódio compromete a percepção de investidores internacionais de que o Brasil é um lugar seguro para instalar uma indústria de equipamentos de transição energética.
Na visão do membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE) Thiago Holanda, o episódio representa um alerta para o Estado e expõe a fragilidade da cadeia industrial.
“Mostra que atrair indústria ligada à transição energética não basta se a demanda interna por novos projetos não for estável. O Ceará corre o risco de manter os parques e perder a capacidade de fabricar”, reflete.
A Aeris vai fechar?
A curto prazo, Holanda destaca que o risco concreto não é um fechamento imediato, mas uma empresa com pouco fôlego para investir, contratar e disputar novos contratos.
Caso a companhia não consiga renegociar as dívidas com a maior parte dos credores, o especialista pondera que o caminho mais natural seria a recuperação judicial, “que é um processo mais longo e mais caro”.
Para Linhares, o pedido de recuperação representa, justamente, uma tentativa de evitar o encerramento das atividades da empresa.
O consultor também acredita que não deve ocorrer redução de empregos. Após a empresa já ter demitido mais de 5 mil funcionários ao longo da crise no setor, de acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do Ceará (Sindmetal-CE), o especialista projeta que o movimento para 2026 será de reativação e recontratação, puxado pela exportação.
A análise é sustentada por iniciativas da própria Aeris. Depois de encerrar o primeiro semestre de 2026 com apenas duas linhas de produção ativas, a empresa começou a reativação de outras quatro linhas em julho. O investimento foi de R$ 23,9 milhões, o maior montante desde o fim de 2024.
“Sobre os empregos, eu diria que o ajuste mais duro já aconteceu. A empresa opera hoje com um quadro dimensionado para as linhas ativas. O que a recuperação faz é dar fôlego. Para os fornecedores correntes, o sinal é de preservação das relações comerciais. Para os credores financeiros, haverá deságio ou alongamento. Para novos investimentos no Pecém, o efeito imediato é de cautela”, visualiza.
Histórico de crise da Aeris
A crise da Aeris remonta a meados de 2023. Em 2022, a empresa encerrou o período com 17 linhas de produção ativas, mas passou a reduzi-las no ano seguinte. No fim de 2025, a operação abrangia duas linhas.
Além das milhares de demissões ao longo da crise no setor, a empresa fechou o primeiro semestre deste ano com dívida de R$ 1,93 bilhão e prejuízo líquido de R$ 290 milhões.
O rombo no segundo trimestre foi de R$ 152 milhões, com alta de 10,2% em relação ao primeiro trimestre e redução de 4,8% frente ao mesmo período do ano passado.
Mesmo com cerca de 90% do endividamento da empresa reestruturado em 2025, com alongamento dos prazos de vencimento e redução da pressão de curto prazo, a empresa precisou recorrer a uma segunda medida cautelar para suspender a execução de dívidas por 60 dias, entre agosto e setembro deste ano.
Em seguida, foi feito o pedido de recuperação extrajudicial.
Crise não é exclusiva da Aeris e afeta todo o setor de energia eólica
O declínio no setor de energia eólica não é de hoje. Em nível nacional, um levantamento da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) estima que o setor eólico perdeu cerca de 10.000 empregos diretos entre 2024 e 2025.
De acordo com Thiago Holanda, a desaceleração na área se agravou em 2023, devido ao excesso de oferta de energia, preços baixos no mercado livre, cortes de geração por falta de linhas de transmissão e juros altos, o que fez a contratação de novos parques cair.
“A Aeris fechou o segundo trimestre de 2026 com R$ 1,956 bilhão em dívida bruta e caixa livre de apenas R$ 17,3 milhões. Com a fábrica produzindo menos, os juros dessa dívida passaram a consumir qualquer melhora operacional”, aponta.
Conforme explica Linhares, a crise no setor afeta diretamente a Aeris, uma vez que a fábrica trabalha sob encomenda. Assim, quando as montadoras de turbinas param de contratar, o negócio não tem para quem produzir.
“O investimento em eólica está travado no País inteiro pelos mesmos motivos: curtailment sem regra clara de compensação, falta de leilões e um sistema de transmissão que não acompanhou a geração. Se o curtailment não for equacionado e os leilões não voltarem com previsibilidade, a Aeris sai da recuperação sem demanda doméstica”, alerta.
Paralelamente, o consultor indica que a Aeris também “expandiu capacidade e se alavancou apostando em um mercado que não se confirmou".
Nesse cenário, o pedido de recuperação extrajudicial dá tempo para a empresa, mas não é suficiente. Para os especialistas, a recuperação total da Aeris depende de fatores como a entrada de capital novo, diversificação de clientes e um ambiente regulatório com mais previsibilidade.