Café robusta x café arábica: quais são as diferenças?

Veja comparativo completo entre sabor, cultivo e preço no Ceará e mercado internacional.

Escrito por Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
28 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Produção de café no Brasil segue duas principais espécies.
Foto: Fabiane de Paula.

Um dos principais produtos produzidos no Brasil, o café é uma fruta que precisa de condições específicas para prosperar. Neste segmento, dois tipos se destacam nas lavouras: a variante arábica e a robusta.

São frutas diferentes, mas que mantêm como característica o valor agregado na produção de café, até hoje um dos principais produtos exportados do País para o exterior.

Quais as diferenças, na prática, entre os dois tipos de cafés? Especialistas ouvidas pela reportagem elencam variações no sabor, textura, preço e produtividade do produto.

O que diferencia cada café?

Renata Silva, chefe de Inovação da Embrapa Café, explica que as diferenças entre as espécies de café, e observa que o tipo robusta trata-se, na verdade, de uma subespécie do café canéfora, que inclui ainda a variedade conilon.

Ao lado da espécie arábica, a canéfora é a variedade principal do café e a mais difundida no País, como reforça Silva.

"Os cafés arábica e canéfora, popularmente conhecido no Brasil como robusta ou conilon, pertencem a espécies diferentes de café e apresentam características agronômicas, sensoriais e produtivas distintas", pondera Mônica Pinto, Gerente de Marketing e nutricionista da Associação Brasileira das Indústrias de Café (Abic).

Visualmente, os grãos têm diferenças sutis, como formato ovalado e sulco mais sinuoso (arábica) e aparência redonda e sulco reto (canéfora).

Outras diferenças incluem o sabor, teor de cafeína, preço e áreas de cultivo, que favorecem, a depender de uma série de fatores, a prosperidade das espécies.

Quais os melhores locais para plantação de cada café?

A técnica em cafeicultura pelo IFSul de Minas Gerais e produtora de café em Ibiapina, na Serra da Ibiapaba cearense, Kaylane Santos, argumenta que as variedades arábica e canéfora têm diferenças agronômicas e sensoriais distintas. 

"Enquanto o arábica é normalmente cultivado em regiões de maior altitude e clima mais ameno, o robusta se adapta melhor a temperaturas mais elevadas, apresentando maior resistência ao calor e também a algumas doenças", define.

Mônica Pinto detalha que o plantio do café arábica é associado em regiões com temperatura entre 18 °C e 22 °C, em altitudes médias a altas, geralmente acima dos 800 metros.

"É mais sensível ao estresse, ao calor excessivo e a algumas pragas e doenças, como a ferrugem-do-cafeeiro e o bicho-mineiro", complementa.

Já com relação ao canéfora, a diretora da Abic afirma que as variantes conilon e robusta tem maior adaptação a climas mais quentes, com temperaturas entre 22 °C e 28 °C, e cultivo em altitudes baixas e médias, abaixo dos 800 metros. 

"É mais rústico e resistente, com bom desempenho em condições mais difíceis e maior tolerância a pragas e doenças", aponta a especialista.

Amargor mais forte, mais cafeína e adaptabilidade ao solo favorecem canéfora

A robustez das variedades do café canéfora favorece com que boa parte das regiões do País esteja investindo na produção dessa espécie da fruta.

Santos classifica que a bebida preparada a partir do café arábica é "mais complexa, com maior doçura natural, acidez equilibrada" e sabor que remete a frutas, flores, chocolate e caramelo.

"No caso dos cafés arábica, podemos destacar cultivares como Catuaí, Mundo Novo, Bourbon, Arara, Acauã, Catucaí, Topázio, Paraíso e o Typica, cada uma com características próprias de produtividade, resistência e perfil sensorial. Algumas são reconhecidas pela doçura e complexidade da bebida, outras pela maior adaptação às condições de cultivo e pelo bom desempenho agronômico", considera. 

Essas características vão depender da variedade, do processamento pós-colheita e da torra. Já o robusta tende a apresentar uma bebida de corpo mais intenso, menor acidez e um amargor mais pronunciado. É comum também encontrar notas sensoriais que remetem a castanhas, cacau e especiarias. Tudo vai depender do manejo adotado".
Kaylane Santos
Técnica em cafeicultura pelo IFSul de Minas e produtora de café

Café canéfora tem frutas similares ao do café arábica, mas várias diferenças sensoriais, no plantio e no manejo.
Legenda: Café canéfora tem frutas similares ao do café arábica, mas várias diferenças sensoriais, no plantio e no manejo.
Foto: Irene Mendes/Governo de Rondônia

Esse amargor acontece sobretudo pela maior concentração de cafeína nas variedades do café canéfora, que pode ser mais do que o dobro do presente na espécie arábica.

Santos reforça que essas características podem variar conforme fatores externos, como altitude, clima, manejo e processo de pós-colheita da plantação.

"Nos últimos anos temos visto uma evolução dos cafés canéforas especiais (robusta e conilon), produzidos principalmente, no Espírito Santo, Rondônia e Bahia, que têm obtido excelentes resultados em concursos de qualidade e ampliado sua presença nos mercados de cafés premium", completa Mônica Pinto.

Produtividade favorece canéfora; preço, exportação e plantações privilegiam arábica

Silva pondera que a produtividade das duas espécies de café rende dezenas de sacas por hectare, no caso de uma boa produtividade da variante arábica. Quando se fala do canéfora, porém, esse resultado pode ser quatro vezes maior.

"Em uma lavoura muito produtiva de café arábica, pode-se chegar a 60 sacas por hectare. Já a canéfora tem produtividade muito maior, que chega a 100, 150 sacas por hectare, até mais", comenta.

Apesar disso, Silva classifica que ainda é menos difundido no território brasileiro a variante de café canéfora em detrimento da variedade arábica.

"Por enquanto o arábica é um café que tem maior valor de mercado. Temos uma produção mundial e no Brasil maior de arábica do que de canéfora", destaca.

Mônica Pinto reforça o protagonismo do Brasil na exportação de café arábica. No total, quase 80% de todo o café produzido no País e comercializado com o exterior é dessa variante. 

"Por outro lado, o café canéfora apresenta forte crescimento nas exportações, impulsionado pelo aumento do consumo mundial de café solúvel, cápsulas, blends e, também, pelo avanço dos canéforas especiais", completa.

Embrapa desenvolve estudos com café no Ceará

A produtividade da variedade robusta e os bons resultados obtidos a partir de testes no Norte do País, especificamente em Rondônia, devem fazer com que a Embrapa Café realize estudos de plantios da variante canéfora no Ceará.

As primeiras mudas já foram plantadas, e o projeto é desenvolvido em diferentes cidades. Silva destaca que o êxito da plantação pode levar alguns anos, e a tendência é de que os resultados sejam promissores.

Sucesso do plantio do café canéfora no Norte do País, em especial em Rondônia e Acre, passa a ser testado pela Embrapa Café no Ceará.
Legenda: Sucesso do plantio do café canéfora no Norte do País, em especial em Rondônia e Acre, passa a ser testado pela Embrapa Café no Ceará.
Foto: Daniel Medeiros/Embrapa.

"O café canéfora precisa de condições que a gente chama de edafoclimáticas, que reúnem condições de clima, de solo, de acesso à água. Tem várias características que a gente precisa avaliar para saber se uma cultura se adapta àquela região", pontua.

"A partir do momento que a gente testa, vai ver se é possível a produção, se vai ter acesso à água necessária, se vai ter realmente a geração de uma produção que gere renda para a família ou não. A Embrapa só consegue dar respostas disso após quatro a seis anos de teste", acrescenta a especialista. 

Produção de café no Estado ainda é pequena

O Estado do Ceará já foi um dos maiores produtores de café do Brasil, sobretudo entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX.

Dados da Prefeitura de Baturité, localizado no Maciço de Baturité, apontam que o município era responsável por 2% da produção nacional de café, e a fruta era exportado sobretudo para a Europa.

O Ceará, apesar do protagonismo entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX, é atualmente um estado com uma produção extremamente tímida de café canéfora, como provam os dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2024.

Foram somente 15 toneladas de grãos de café canéfora produzidas no território cearense, 15% a mais do que em 2023. Na série histórica dos últimos cinco anos, a produção chegou a, no máximo, 50 toneladas, marca atingida em 2020.

Desde quando começou a ser mensurado pela PAM, em 2012, a produção de café canéfora no Ceará atingiu o pico de 52 toneladas em 2019. A partir daquele ano, veio em declínio, com discreta recuperação desde 2022.

A partir de 2012, a produção de café arábica também passou a ser medida, com uma queda também acentuada na contabilidade do IBGE.

O ano que o Estado mais produziu o tipo de café foi em 2015, com 1,6 mil toneladas. Em 2024, a produção foi de apenas 495 toneladas, só 3% maior do que em 2023.

Minas Gerais é o maior produtor nacional de café, sendo o único Estado que, desde 2012, produz acima de 1 milhão de toneladas. 

No Ceará, as regiões serranas continuam dominando a produção de café. No Maciço de Baturité, a liderança fica com Mulungu, com 220 toneladas (t). Na sequência, vem Tianguá (89 t), São Benedito (62 t), Guaramiranga (54 t) e Pacoti (18 t). 

Ao todo, 17 municípios produzem café no Ceará, principalmente o arábica. Apenas Tianguá e Ubajara produzem a variante canéfora.

 

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