Agricultor que encontrou petróleo no Ceará tem chance de achar água, mas falta dinheiro para poço

Estudo da Sohidra irá definir se há água no local.

Escrito por Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
31 de Julho de 2026 - 06:00
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Legenda: Única renda da família vem das aposentadorias do agricultor e da esposa.
Foto: Kid Jr.

Quando o agricultor Sidrônio Moreira perfurou dois poços na propriedade em Tabuleiro do Norte, o objetivo era combater a escassez e encontrar água para irrigar a plantação e alimentar os animais do Sítio Santo Estevão. No entanto, do chão brotou petróleo.

Sem o recurso desejado, a família não pôde recorrer à produtividade do terreno como fonte de renda e aguardou orientações da Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) sobre como proceder com a propriedade desde março deste ano, uma vez que perfurações indevidas poderiam resultar na contaminação de lençóis freáticos.

Agora, a família foi direcionada pela pasta a entrar em contato com a Superintendência de Obras Hidráulicas (Sohidra). Segundo seu Sidrônio, a entidade deve realizar, em agosto, um estudo no sítio para determinar em que local da propriedade será possível realizar uma nova perfuração que encontre água.

Essa poderia ser, finalmente, a solução que o agricultor buscava para o fim da escassez no terreno, se não fosse um detalhe importante: a família não tem condições financeiras de custear uma nova perfuração de um poço.

Atualmente, ele, a esposa e os dois filhos, que residem no sítio, arcam com uma dívida de R$ 25 mil devido a empréstimos feitos ao longo do processo de busca pelo recurso. A única renda dafamília vem das aposentadorias do casal, e o agricultor já cogita, inclusive, vender os únicos cinco novilhos restantes de sua criação.

Caso houvesse água, a produção mensal da propriedade poderia chegar a pouco mais de R$ 2 mil, segundo estimativa de Sidnei Moreira, filho de seu Sidrônio.

"Eu já tô endividado. As condições financeiras aqui tão difíceis, viu? Não tem como furar não. Eu vou abrir outra conta em cima de uma conta? Não tem condições"
Sidrônio Moreira
Agricultor

O Diário do Nordeste tentou contato com a Sohidra, mas não recebeu retorno até o momento de publicação desta matéria. O espaço permanece aberto.

Agricultor enfrenta dívidas e conta de água cara

A história teve início em novembro de 2024, após seu Sidrônio perfurar dois poços artesianos em busca de água. No entanto, foi descoberto um líquido preto e viscoso.

Em julho de 2025, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) foi contatada e visitou o sítio em março deste ano, oito meses depois. Já em maio, a entidade concluiu que a substância encontrada é "petróleo cru".

Na época, o agricultor precisou fazer um empréstimo bancário de R$ 15 mil para contratar o serviço de perfuração de poço, e a esposa, Maria Luciene, alimentada pela esperança da água, fez um empréstimo de R$ 10 mil pouco tempo antes, com o objetivo de renovar o rebanho.

A primeira parcela dos empréstimos a ser cobrada, avaliada em cerca de R$ 1.800, vence em setembro. Seu Sidrônio, no entanto, ainda não sabe como irá pagar a quantia e planeja negociar a dívida com o banco.

Outro obstáculo enfrentado pelo agricultor é o custo do abastecimento pela adutora instalada após a repercussão do caso. Apesar de a família utilizar a água apenas para necessidades básicas, por receio do valor da cobrança, a primeira fatura do serviço, recebida neste mês de julho, foi de R$ 241,44, surpreendendo negativamente os moradores.

"Agora eu vou ter que me virar, arrumar um canto que eu consiga trazer água pra dar pros bichos, porque não tem como 'nós pagar', tá entendendo? Nós tem [sic] que fazer economia. Nós tamo pelejando para fazer isso. Eu tenho meus bichinhos, não queria dar fim a eles tudo"
Sidrônio Moreira
Agricultor

Petróleo encontrado não tem garantia financeira

Após confirmar que a substância encontrada no sítio era petróleo, a ANP iniciou um estudo sobre a possibilidade de extração do líquido na área. Contudo, não há prazo para a conclusão dessa avaliação técnica nem garantia de que o recurso será comercializado.

A etapa pode durar anos e é apenas o primeiro passo de um processo complexo e moroso, já que a formação de um bloco de exploração de petróleo também depende de entidades como o Ministério de Minas e Energia (MME), o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Tribunal de Contas da União (TCU).

Além disso, a exploração do petróleo dificilmente teria viabilidade econômica. De acordo com especialistas, o alto custo de extração corre o risco de superar o valor de mercado do recurso.

Somado a isso, mesmo que a substância seja explorada, o material não é de seu Sidrônio: pela Constituição Federal e pela Lei do Petróleo (Lei nº 9.478/1997), os recursos do subsolo pertencem à União. Assim, caso haja atividade comercial, o agricultor pode receber entre 0,5% e 1% do valor da produção.

Mesmo rodeado de incertezas, seu Sidrônio já recusou todas as quatro propostas de compra que recebeu para o terreno, que está na família há gerações. Hoje, a esperança do agricultor é que a situação receba um desfecho o quanto antes.

"Eles têm que resolver de alguma maneira. Eu vou ficar desse jeito com as mãos abanando? Esses dois poços vão ficar parados sem receber nada?", questiona.

 

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