Covid-19: incertezas de cearenses que testaram positivo para coronavírus pela segunda vez

De sintomas leves até a surpresa do diagnóstico, pessoas que tiveram a doença por duas vezes alertam para necessidade de manter os cuidados de prevenção ao coronavírus

Legenda: País registrou quase 85 novos casos nas últimas 24 horas
Foto: Foto: Helene Santos

Para muitos cearenses, sobreviver à Covid-19 pareceu a possibilidade de uma nova existência, principalmente quando tantas vidas foram tomadas pelo novo coronavírus. Após superar os estágios de incerteza, mal estar, medo e vulnerabilidade, a recuperação vem carregada de alegria e alívio. Por isso, receber o diagnóstico positivado para a doença pela segunda vez, parece uma cenário quase irreal, assim compartilham os profissionais de saúde João Rafael Gomes e Clara Wirginia de Queiroz, com respectivamente 29 e 32 anos.

Leia mais

No caso do clínico médico e geriatra João Rafael, a surpresa foi primeiro sentimento ao ver o segundo resultado positivo, durante o mês de setembro. Apesar de trabalhar em unidades hospitalares, não atende diretamente pacientes da Covid-19 e também não havia apresentado nenhum sintoma da doença. Porém, o maior motivo da sua confusão pelo diagnóstico do teste RT-PCR foi por já ter tido a doença no mês de julho.

“Na verdade, não tenho certeza se foi uma reinfecção ou se o vírus ficou latente e reativou. O fato é que tem dois resultados com Covid-19 detectável no intervalo de pouco mais de um mês, com um negativo no meio”, compartilha. O primeiro teste foi realizado na metade de julho, dando positivo para a doença, e refeito ao final do mesmo mês, apontando negativo.

Por trabalhar em ambiente hospitalar, João Rafael tinha o hábito de realizar testes frequentemente antes de visitar os pai e foi ao fazer um novo exame durante o mês de setembro, que recebeu o segundo diagnóstico positivo. Se durante a primeira vez apresentou sintomas como fadiga, mal estar, dor de garganta e febre, a segunda foi assintomática.

“A primeira vez fiquei mais preocupado, a segunda não. Mas o fato da primeira vez ter sido leve não significa necessariamente que a segunda também vá ser, porque a gente não sabe quais são os mecanismos da doença”, pondera.

Em meio às incertezas, acredita que a segunda positivação passa a mensagem de que ainda não há como ter certezas absolutas sobre a doença. “Nós estamos ainda com muito menos informação e conhecimento a respeito dessa doença do que a gente precisa e de que a gente não pode baixar a guarda”, alerta.

Cuidar de si e do outro

Para a fisioterapeuta Clara Wirginia de Queiroz, 32 anos, perceber a positivação da Covid-19 pela segunda vez pareceu um cenário inacreditável. Quando realizou um teste rápido 2019-nCoV IgG/IgM pela primeira vez, durante maio, logo foi afastada do trabalho. Dentre os sintomas, apresentou febre, diarreia, dor de cabeça e dor nas costas. “Tive alguns dias que eu não lembro o que aconteceu. Eu não lembro mesmo. Se não fosse minha tia, não sei o que teria acontecido comigo”, compartilha.

Após a doença, muitos dos sintomas permaneceram, como o cansaço, a dor de cabeça e nas costas. Por isso, quando teve um dia de dor de cabeça mais forte durante o final de agosto e até alguns episódios de diarreia por dois dias, pensou que continuasse com a continuação dos sintomas. Porém, ao ver o teste RT-PCR no começo de setembro, descobriu que havia apresentado detectável para ‘Coronavírus SARS-CoV2’ mais uma vez.

“Quando eu recebi a ligação da diretora do hospital do interior eu até brinquei: ‘não, por favor, não é de novo’. Ela disse ‘Clara, sim, é positivo e vamos lhe isolar’”, compartilha. Até hoje não sabe exatamente o local em que pegou a doença, suspeitando principalmente dos ambientes hospitalares que frequenta.

Os dias seguintes foram marcados pela incerteza. “Fica aquela sensação ‘cara, eu peguei de novo. E se eu piorar, como vai ser?’ Nem eu entendia o que estava sentindo”, comenta. Apesar de não conhecer diretamente outras pessoas que apresentaram positivação por duas vezes, rapidamente organizou um segundo isolamento. Ficou em casa, recebendo o auxílio de familiares, mas respeitando o distanciamento.

Para Clara, o segundo teste lhe serviu um alerta sobre a sua vulnerabilidade e a das outras pessoas. Era um lembrete de que a vida ainda não voltou ao normal. “Foi bom para dar aquela freada. Tem muita gente que já pegou, outras que não pegaram e que podem vir a pegar com esse relaxamento. Não tem como ninguém ficar tranquilo”, declara.

Se antes já seguia com cuidados, mesmo tendo tido a doença pela primeira vez, agora redobrou ainda mais. “O que eu deixo é cuidado e respeito à vida. Nesse momento, me cuidar é cuidar do outro também. Todo o cuidado necessário para manter o amor da nossa vida bem, que influi nós mesmos e a quem amamos”, finaliza.

Critérios para reinfecção

De acordo com o infectologista Keny Colares, a literatura médica considera reinfecção quando o indivíduo tem dois testes positivos com intervalos de 45 ou 90 dias. “O critério técnico para aceitar como reinfecção é uma detecção do vírus em dois episódios separados. Se a pessoa tiver sintomas, em 45 dias de intervalo, esse é o mais utilizado. Se for uma pessoa sem sintomas, se for teste de laboratório, 90 dias de intervalo”, explica.

No entanto, o médico considera que o critério é “arbitrário”, já que “nem todos os casos respeitam esse intervalo de 45 ou 90 dias. Alguns deles aconteceram em menos tempo”. Em Fortaleza, afirma, a média foi de 60 dias. A diferença é que os casos locais não passaram por sequenciamento genético para comprovar a reinfecção.

“A gente tem chamado esses casos de recorrência porque como não tem a comprovação do código genético, está detectando só que a pessoa ficou doente e teve um teste positivo, ficou boa, e depois voltou a ficar doente e teve o teste positivo”, detalha.

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza

Redação 19 de Janeiro de 2021