Com 2.000 animais silvestres apreendidos, CE já superou total de capturas de todo o ano passado

Especialistas alertam que o tráfico de bichos afeta a biodiversidade e a saúde humana

Escrito por André Costa andre.costa@svm.com.br
20 de Setembro de 2022 - 16:15 (Atualizado às 13:33, em 21 de Setembro de 2022)
capa da noticia
Legenda: Os três principais animais apreendidos são aves, das espécies de Sabiá, Galo de Campina e Bigodeiro
Foto: Divulgação

A quantidade de animais silvestres apreendidos pelo Batalhão de Polícia do Meio Ambiente do Ceará de janeiro a setembro deste ano já é superior a todo o acumulado do ano passado. Em média, são quase 8 animais apreendidos por dia, número que expressa o alto volume do tráfico de animais no Ceará. 

Nos nove primeiros meses de 2022 - até o dia 18 de setembro - foram 2.061 animais apreendidos e, ao longo de 2021, 1.318. Os dados foram obtidos pelo Diário do Nordeste através da Lei de Acesso à Informação. 

As cidades com maior número de animais apreendidos são Fortaleza, Juazeiro do Norte e Sobral. Já as espécies de animais silvestres mais apreendidos são Sabiá, Galo de Campina e Bigodeiro.

Apesar da crescente no número de apreensões, não há informações de pessoas presas ou atuadas por este crime, cuja pena de detenção pode chegar a 12 meses, mais pagamento de multa. 

"Considerando que os dados estatísticos de ocorrências são apurados em números globais, relativos a toas os procedimentos realizados pelas composições policiais do BPMA, fica impossibilitado a contagem específica" de quantas pessoas foram autuadas, justificou o órgão. 

A assessoria da Polícia Militar ressaltou, no entanto, que, para este tipo de crime, é realizado apenas um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Após a assinatura do TCO, o fato é investigado. 

Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida é crime com pena de detenção de seis meses a um ano.

Múltiplos danos

A bióloga Camila Barbosa Pinheiro Jereissati explica que o tráfico de animais representa uma ameaça não apenas à biodiversidade, mas, também, à saúde humana.

A especialista ressalta que a partir do momento em que uma determinada espécie é retirada da natureza, há uma quebra da cadeia. "A relação ecológica é afetada e isso impacta na rede de interação que existe na natureza", detalha Camila.

A redução desses animais - sobretudo as espécies nativas - acelera o processo de extinção e causa um desequilíbrio do ecossistema. "Várias aves são responsáveis por fazer a disseminação de sementes, por exemplo. Quando há essa quebra de interação, o impacto também é visto na diversidade das plantas. São múltiplos danos", alerta a bióloga. 

Camila Barbosa ressalta, ainda, que a retirada das mais variadas espécies da natureza reflete diretamente na diminuição da variabilidade genética. "Menos animais acasalando, menos animais interagindo isso reduz a variação genética", acrescenta. 

Saúde coletiva

Essa mudança genética pode afetar diretamente a saúde humana. Camila Pinheiro observa que, a partir do momento em que o ser humano é exposto a animais portadores de novos vírus ou com mutações, há uma maior tendência do surgimento de novas doenças.

"Animais contrabandeados são vendidos sem nenhum controle sanitário. Essa falta de controle [sanitário] aumenta enormemente o risco de zoonoses, como a raiva, e diminui o sistema imunológico dos animais, o que propicia a proliferação de vírus e novas mutações. Há pesquisas que sugerem que a Covid-19 pode ter surgido a partir da relação de animais com humanos, portanto, o tráfico de animais representa diversas ameaças", conclui a especialista.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), há três principais consequências da retirada desses animais de seu habitat natural:

  1. Risco sanitário: animais ilegais vendidos sem nenhum tipo de controle sanitário podem transmitir doenças graves, inclusive desconhecidas, para pessoas e criações;
  2. Econômica/social: o tráfico de animais movimenta recursos financeiros sem que impostos sejam recolhidos aos cofres públicos;
  3. Ecológicas: a captura sem critérios acelera o processo de extinção das espécies, causando danos às interações ecológicas e a perda de herança genética.

Ações para reduzir os números

Camila Barbosa destaca que o incentivo e o aumento de investimento em pesquisas que promovam a conscientização ambiental poderia ser um caminho para reduzir esse alto volume de animais contrabandeados. 

Powered by RedCircle

Questionado quanto aos principais desafios encontrados pela Polícia Ambiental para que este alto número seja minimizado, a assessoria do BPMA limitou-se apenas a dizer ser "diverso", no entanto, não especificou quais desafios são esses.

"Somente é possível [reduzir os números] através de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, atuando por meio de ações de conservação, proteção e preservação ambiental", pontuou o órgão.

Serviço:

Denúncias podem ser feitas através do número 190. A ligação pode ser anônima. 

 

Este conteúdo é útil para você?

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado

Colunistas