Conquistar uma medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) é um ato que exige mais que inteligência, mas dedicação e comprometimento. Nas últimas três edições, 146 cearenses alcançaram o feito: entre eles, os estudantes Efraim Basílio, Samuel Caleb e Bonfim Pereira, de Fortaleza, além de Davi Duarte, da cidade de Farias Brito.
Com a aproximação da 2ª fase da competição, prevista para ser aplicada neste sábado (17), eles detalham quais estratégias os auxiliaram na conquista — da rotina de estudo a dicas para quem vai realizar a prova discursiva nessa última etapa.
Voltada para alunos do 6º Ano do Ensino Fundamental (EF) ao 3º Ano do Ensino Médio (EM), a iniciativa é dividida em duas etapas, sendo a primeira objetiva e a outra discursiva, nas quais busca estimular o estudo da Matemática e identificar talentos na área.
Resolva provas de edições anteriores
Ao Diário do Nordeste, todos os medalhistas cearenses são unânimes sobre a importância de analisar e de solucionar edições anteriores da OBMEP — disponíveis no próprio portal do projeto.
“Em geral, qualquer prova segue um padrão semelhante. Ao tentar resolver os problemas, analiso a solução focando em dois pontos: se a justificativa (já que a segunda fase é dissertativa) está compreensível e com uma boa explicação, e caso a demonstração e desenvolvimento da questão está correto”, conta o aluno do 3º Ano do EM da EEEP Antônio Valmir Ribeiro, Davi Duarte, de 17 anos.
Aprenda com os próprios erros
Para o discente da região do Cariri, a tática ainda permite aprender com as respostas incorretas, o que classifica como a parte mais importante do processo.
Ao errar uma questão, tento verificar se foi por falta de conteúdo ou por falta de atenção. No primeiro caso, busco aprender os novos conceitos e pratico esses conceitos em várias questões para conseguir um bom domínio. [...] Já no segundo ponto, me atento mais para as próximas questões.”
O professor do Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC) da OBMEP, Carlos Alex Martins Oliveira, reforça o papel das questões antigas, destacando que o candidato deve evitar consultar a resolução imediatamente ao encontrar uma dificuldade.
"É essencial dedicar um tempo à investigação do problema, testar diferentes caminhos e desenvolver a persistência. [...] Também recomendo realizar simulados respeitando as três horas de duração da prova, para desenvolver a capacidade de administrar o tempo”, detalha o especialista em olimpíadas científicas.
Ganhador de um dos ouros do ano passado, Davi integra o grupo dos 900 mil classificados para a 2ª fase da OBMEP 2026. Além dele, o estudante do 1º Ano do Colégio Master, Samuel Caleb, de 16 anos, também participa da etapa.
Embora seja voltada principalmente para alunos da rede pública de ensino, a competição também aceita discentes de instituições privadas.
Mantenha uma rotina de estudos sem distrações e peça ajuda
Para ter um bom desempenho na competição, o jovem investe na constância. “No ano que acabei pegando ouro foi quando estudava todo dia um pouco. Agora, estudo mais para o Ensino Médio, mas sempre tento tirar uma hora do dia para me dedicar às olimpíadas”, diz Samuel.
“Recomendo que o aluno dedique, sempre que possível, de 30 minutos a uma hora por dia à resolução de problemas. Entretanto, mais importante do que a quantidade de horas é a qualidade desse estudo. Resolver um único problema, explorando diferentes estratégias e compreendendo profundamente sua solução, pode ser mais proveitoso do que resolver várias questões de maneira superficial”, completa Carlos Alex.
Manter o ambiente de estudo livre de distrações, como o celular, e pedir auxílio aos professores sempre que for necessário são as dicas do discente do 1º Ano do EM do Colégio Master, Bonfim Pereira, de 16 anos. “Tente não se pressionar tanto, é completamente normal acabar errando alguma conta básica na prova.”
Descanse e cuide do bem-estar antes da prova
Para o dia da prova, Bonfim destaca a importância de levar água e um lanche simples, além de separar algumas ideias para revisar rapidamente antes da avaliação.
Apesar disso, o estudante não defende que a véspera da 2ª fase seja de estudo, mas, sim, de lazer. “Para qualquer prova é importante você ter um bom descanso, boa alimentação e ir com a cabeça tranquila”, completa Davi.
Explique seu raciocínio e não deixe questões em branco
A última etapa da OBMEP é uma avaliação dissertativa, na qual os candidatos resolvem seis problemas de Matemática e, conforme Carlos Alex, precisam registrar o raciocínio, os cálculos e as justificativas utilizadas.
Essas questões podem ser divididas em itens — a, b, c etc —, e mesmo sem concluir toda a resposta, é possível receber pontuação parcial relacionada ao desenvolvimento apresentado nas etapas matematicamente corretas.
Devido a esses critérios, Davi destaca a importância de o participante tentar resolver o máximo de questões possíveis. “Se você não conseguir chegar na demonstração ou na resposta correta, mas conseguir entender como chegar na resposta ou chegou em algum raciocínio válido, pode te render pontos.”
O também estudante do 1º ano do EM do Colégio Master, Efraim Basílio, ainda ressalta que os itens dos problemas podem possuir alguma relação com os demais, e aconselha não deixar perguntas sem resposta.
Geralmente itens anteriores contêm ideias para os seguintes. Assim, é interessante analisar as ideias utilizadas anteriormente. O importante não é quantas questões completas você faz, e sim quantos pontos no total são ganhos. Mesmo não ganhando uma questão completa, considerações e casos pequenos podem garantir pontos parciais. Deste modo, não se deve deixar questões em branco por mais que você não saiba resolvê-la."
Administre o tempo de prova
Ao todo, os candidatos terão 3 horas para responder às seis questões. Para organizar esse tempo da melhor forma, o professor recomenda que o aluno comece a prova fazendo uma leitura inicial, identificando as perguntas com as quais possui maior familiaridade e comece por elas.
“É importante não ficar preso por muito tempo a uma única alternativa. Caso encontre dificuldades, o estudante pode avançar para outro problema e retornar posteriormente, sempre registrando seus raciocínios e justificativas, pois a OBMEP valoriza não apenas a resposta final, mas também o desenvolvimento matemático apresentado”, aconselha.
O que esperar da 2ª fase da OBMEP
A Olimpíada aborda principalmente quatro grandes áreas da Matemática: Álgebra, Geometria, Análise Combinatória e Teoria dos Números, respeitando o nível de escolaridade dos participantes. “Entretanto, a olimpíada vai muito além da simples aplicação de fórmulas e procedimentos matemáticos”, como aponta Carlos Alex.
A OBMEP não avalia apenas o que o aluno sabe de Matemática, mas principalmente como ele utiliza esse conhecimento diante de situações desafiadoras. Essa é uma das grandes riquezas da olimpíada: incentivar o estudante a pensar, investigar e descobrir diferentes caminhos para resolver um mesmo problema.”
Conforme o regulamento da iniciativa, a 2ª fase é a etapa decisiva da competição, na qual os estudantes classificados na 1ª etapa resolvem problemas discursivos de Matemática. Diferentemente da anterior, a última fase exige que o aluno apresente seus cálculos, raciocínios e justificativas.
A correção ocorre em duas etapas:
- Regional: as provas são corrigidas por equipes designadas pela OBMEP em 72 regiões.
- Nacional: uma parte das provas passa por nova correção, visando à premiação nacional.
Cada prova é corrigida e revisada por profissionais diferentes, seguindo critérios previamente estabelecidos pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). A premiação considera exclusivamente o desempenho na 2ª fase. A pontuação da 1ª fase não é somada à nota final.
“Os estudantes podem conquistar medalhas nacionais de ouro, prata e bronze, menções honrosas e medalhas estaduais, conforme os critérios específicos de cada categoria. Não existe uma nota fixa que garanta medalha. A premiação depende do desempenho dos participantes e das regras de distribuição dos prêmios”, explica o professor.