Após mais de 20 dias internado, o influenciador Lito Sousa, diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), recebeu alta e deixou o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, e agora está sob cuidados paliativos em casa.
Na residência da família, uma estrutura home care foi preparada para receber Lito e atender as novas necessidades do youtuber.
Segundo Mila Seidl, esposa de Lito, o térreo da casa da família foi reorganizado para reproduzir os elementos de uma internação, com enfermeiros divididos em turnos 24 horas por dia, e equipamentos para suporte constante.
A revelação de Mila sobre a nova estratégia de tratamento do youtuber reacendeu um debate nas redes sociais: estar em cuidados paliativos significa estar em fase terminal de uma doença grave?
Apesar de serem frequentemente associados a pacientes com câncer em situação crítica, os cuidados paliativos também são opção para outras pessoas diagnosticadas com doenças raras, progressivas e incuráveis. A seguir, entenda melhor como funciona a abordagem médica.
O que são cuidados paliativos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define que os cuidados paliativos consistem na abordagem multidisciplinar focada em melhorar a qualidade de vida dos pacientes, e de seus familiares, no enfrentamento de doenças que oferecem risco de vida. E isso acontece por meio da prevenção e do alívio do sofrimento de ambos.
Em entrevista anterior ao Diário do Nordeste, a geriatra e paliativista Cinara Franco, médica da equipe de Cuidados Paliativos do Hospital Universitário Walter Cantídio, explicou que os cuidados paliativos integram uma área nova da medicina que se propõe a tratar pacientes e familiares que estão passando por uma doença que ameaça a vida e a qualidade de vida. Não necessariamente esses pacientes precisam estar no fim da vida.
“É uma área da medicina que utiliza uma abordagem holística, na tentativa de controlar sintomas físicos como a falta de ar, náuseas, vômitos, mas também controlar outros sintomas como o sofrimento espiritual, social, do ponto de vista psicológico. São muitos os desafios que a pessoa que está enfrentando uma doença grave precisa”, afirmou a especialista.
A profissional destaca que esse cuidado é feito por uma equipe, com vários aspectos abordados de forma holística. “Geralmente, tem um médico, a enfermeira, psicóloga, assistente social, mas a equipe pode ser bem maior, outros profissionais podem estar nesse cuidado que se destina ao paciente que tem uma doença grave”, disse.
Cinara Franco destaca que esse cuidado pode acontecer em qualquer fase da doença, tanto numa fase inicial como em estágios terminais.
“Você pode cuidar daquele paciente para que ele passe pelo tratamento, por aquela fase com controle dos sintomas e com melhor qualidade de vida. Cuidado paliativo não significa que o paciente está morrendo, está em terminalidade, porque você pode oferecer os cuidados paliativos para um paciente que ainda tem chance de cura”, destacou.
“Temos divulgado muito a importância de esclarecer para a sociedade, para os pacientes, para as famílias, de que o cuidado paliativo não significa morte, significa dar qualidade de vida a quem está sofrendo muito. Então, é um cuidado a mais por uma equipe especialista em trabalhar o paciente de forma holística”, sublinhou.
Qual o objetivo desse tipo de tratamento?
Segundo a "ABC do Câncer", são objetivos da modalidade:
- Promover alívio da dor e de outros sintomas que causam sofrimento, buscando a melhora da qualidade de vida do paciente, o que pode influenciar positivamente o curso da doença;
- Integrar os aspectos físico, psicológico e espiritual no cuidado ao paciente, por meio de equipes interdisciplinares, com profissionais preparados para esse tipo de abordagem;
- Promover os cuidados e as investigações necessárias para melhorar a compreensão e o manejo das complicações clínicas que causam sofrimento ao paciente, evitando procedimentos invasivos que não levem à melhoria da qualidade de vida;
- Oferecer suporte para auxiliar os pacientes a terem uma sobrevida o mais útil possível, de preferência usufruindo do ambiente familiar;
- Oferecer suporte para a família no período da doença e depois do óbito, em seu próprio processo de luto;
- Respeitar a morte como um processo natural do ciclo da vida, não buscando a sua antecipação ou o seu adiamento.
A instituição internacional recomenda que todos os pacientes com doenças graves, progressivas e incuráveis devem receber cuidados paliativos desde o diagnóstico. Ou seja, ser um indivíduo em cuidados paliativos não tem relação com estágio de avanço ou espalhamento de uma patologia.
Atualmente, existem critérios estabelecidos de recomendação para cuidados paliativos: no momento do diagnóstico; quando a doença é detectada em estágio em que a possibilidade de cura é questionável; ou quando já se esgotaram todas as possibilidades de tratamento curativo ou de manutenção da vida e a doença progride.”
No último caso citado pelo Inca, geralmente, os pacientes apresentam sofrimento de moderado a intenso. O recomendado é que o encaminhamento para a abordagem de cuidados paliativos seja realizado enquanto o paciente apresenta condições de autocuidado, estimulando a autonomia dele pelo maior período possível.
Quais as diferenças das abordagens?
O tratamento de uma doença grave, com ameaça à vida, e a aplicação de cuidados paliativos são abordagens que envolvem terapias e técnicas diferentes. No entanto, ambas possuem o mesmo objetivo: proporcionar melhor qualidade de vida ao paciente.
Os cuidados paliativos recorrem a uma equipe multidisciplinar — que inclui profissionais como médico, enfermeiro, assistente social, nutricionista e fisioterapeuta —, e consideram aspectos físico, social, emocional e espiritual para oferecer conforto e autonomia para o enfermo e os familiares.