Aluna e orientadora morrem antes da banca, e Unicamp faz 1ª defesa póstuma de doutorado

Universidade criou um procedimento acadêmico para possibilitar o ato.

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
30 de Agosto de 2026 - 14:54
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Legenda: A mãe da Carla Vendramin, Leoni Lima, saiu do Rio Grande do Sul para acompanhar a defesa de doutorado. A defesa póstuma foi realizada na Casa do Lago.
Foto: Divulgação/Lúcio Camargo/Unicamp.

“Minha filha, receba esse momento carinhoso de todos nós aqui". A frase da mãe Leoni Lima marcou a defesa póstuma da tese da filha, Carla Vendramin, realizada na última segunda-feira (24), na Casa do Lago, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Morta em janeiro de 2024, aos 51 anos, Carla finalmente teve o trabalho apresentado a uma banca mais de dois anos depois de falecer.

O caso é inédito na Universidade. Além de a doutoranda ter morrido antes da defesa, a orientadora, a professora Sílvia Geraldi, também faleceu antes que o processo fosse concluído — em julho de 2025, aos 61 anos.

Carla Vendramin morreu em decorrência de um incêndio dentro de casa, em Porto Alegre (RS). Já Sílvia morreu em julho de 2025, aos 61 anos, vítima de uma doença congênita.

A Unicamp precisou criar um procedimento acadêmico para possibilitar a defesa póstuma, já que não existia uma regulamentação para uma situação como essa. A cerimônia reuniu professores, pesquisadores, amigos e familiares de Carla.

“Não há palavras para dizer a importância de uma realização como essa porque, de fato, tanto a professora Silvia quanto a Carla são pesquisadoras que merecem todo o nosso respeito e que precisam ser lembradas”, afirmou Marisa Martins Lambert, professora do Instituto de Artes (IA), que assumiu a continuidade do processo após a morte de Geraldi.

Segundo Lambert, a orientadora havia iniciado os procedimentos para levar a tese à banca depois da morte da aluna. O trabalho, porém, acabou interrompido novamente pela morte de Geraldi. “Mas não havia um procedimento acadêmico para fazer a defesa em si”, explicou Lambert. “Durante esse percurso, aconteceu essa fatalidade, que nos deixou completamente sem chão".

Vivas nos corações de todos

Amigos da doutoranda leram trechos da tese entre movimentos, flores, bambus e narizes vermelhos, em uma referência à palhaça “Malagueta”, personagem que acompanhou Vendramin durante trajetória artística.
Legenda: Amigos da doutoranda leram trechos da tese entre movimentos, flores, bambus e narizes vermelhos, em uma referência à palhaça “Malagueta”, personagem que acompanhou Vendramin durante trajetória artística.
Foto: Divulgação/Lúcio Camargo/Unicamp.

Para os amigos, a defesa foi também uma maneira de manter viva a presença da pesquisadora. Giovanna Zottis, a palhaça “Dolores”, conheceu Carla em Porto Alegre e acompanhou a amiga durante mais de dez anos. As duas trabalharam juntas, foram para a Unicamp em períodos próximos e chegaram a morar juntas durante a pandemia.

A última conversa entre as duas foi sobre justamente o doutorado. Carla também falava sobre a proximidade entre a defesa e o chá de bebê de Giovanna. “Ela dizia que estaria presente nos dois momentos, estava feliz".

Durante a cerimônia, amigos fizeram uma homenagem à pesquisadora do lado de fora da Casa do Lago. Trechos da tese foram lidos entre flores, bambus, movimentos e narizes vermelhos, em referência à personagem “Malagueta”, uma palhaça que acompanhou Carla na trajetória artística.

O nariz vermelho, segundo Giovanna, tornou-se uma forma de manter a amiga próxima. “Eu sinto que ela está muito perto de mim e de muita gente que conviveu com ela".

A mãe de Carla, Leoni Lima, viajou do Rio Grande do Sul para acompanhar a defesa. Ela lembrou que a filha começou a dançar aos seis anos e o acompanhou toda a formação. “Tudo que ela fazia, ela se jogava inteiramente".

Tese sobre dança, terra e transformação

A tese, intitulada “Compostagem como prática performativa: processos imersivos em dança e permacultura”, pesquisa as relações entre dança, ecologia, permacultura e práticas corporais.

A defesa não seguiu exatamente o formato tradicional de uma banca. A apresentação começou com uma performance que reuniu dança, práticas somáticas, permacultura, agrofloresta e questões socioambientais.

A compostagem é utilizada na pesquisa como uma forma de pensar processos de transformação do corpo, do ambiente e da própria vida.

Carla era professora vinculada ao curso de Licenciatura em Dança da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, fez mestrado em coreografia na Middlesex University, em Londres.

A pesquisa também dialogava diretamente com a trajetória de Sílvia Geraldi, que foi professora do curso de Dança e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da Unicamp.

Pesquisa seguirá após a morte

Com a realização da defesa, a tese poderá seguir o percurso acadêmico. O trabalho será disponibilizado no repositório institucional da Unicamp e há perspectiva de publicação.

Para Larissa de Oliveira Neves, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena, o processo só foi possível graças ao trabalho conjunto entre o programa, a secretaria, a Diretoria Acadêmica e as professoras envolvidas. “Não existia na Unicamp uma institucionalização de uma situação como essa, que representa também a criação de uma possibilidade que poderá orientar situações futuras". 

Marisa Lambert resume o desejo de que a pesquisa de Carla ultrapasse os limites da universidade. “Essa obra precisa ser plantada em muitos outros lugares".