Astrônomos detectaram pela primeira vez uma emissão de rádio localizada diretamente em um planeta fora do Sistema Solar. O sinal foi identificado no exoplaneta Beta Pictoris b, um gigante gasoso situado no sistema Beta Pictoris, a cerca de 19,63 parsecs, aproximadamente 64 anos-luz da Terra.
A descoberta é apresentada no estudo "Descoberta de emissão de rádio do exoplaneta Beta Pictoris b", em tradução livre para o português. O trabalho é assinado por Kevin N. Ortiz Ceballos, do Center for Astrophysics Harvard & Smithsonian, além de Edo Berger, também do centro, e Yvette Cendes, da University of Oregon.
O trabalho foi publicado como preprint no arXiv em 15 de setembro de 2026 — repositório científico de acesso aberto criado para que pesquisadores compartilhem e encontrem trabalhos científicos.
Sinal foi separado da estrela
Conforme trabalho, a principal dificuldade em pesquisas desse tipo é determinar se a emissão de rádio observada vem efetivamente do planeta ou de uma estrela.
No caso do Beta Pictoris b, os pesquisadores utilizaram o conjunto de radiotelescópios MeerKAT, na África do Sul, em quatro sessões de observação realizadas entre fevereiro de 2025 e maio de 2026. Foram utilizadas as bandas L e S, abrangendo frequências de aproximadamente 0,85 GHz a 3,5 GHz.
Os astrônomos fizeram uma correção astrométrica utilizando fontes de referência identificadas pelo satélite Gaia e um calibrador de interferometria. Depois do procedimento, a posição da fonte de rádio coincidiu com a posição conhecida do Beta Pictoris b.
Segundo o estudo, a localização é incompatível com a estrela hospedeira em 4,4 sigmas e com outro planeta do sistema, o Beta Pictoris c, em 4,8 sigmas. Os pesquisadores afirmam que a atribuição da emissão ao planeta permanece consistente em diferentes testes realizados com as fontes de referência.
Emissão tem características de aurora
Apesar de a descoberta envolver um sinal de rádio vindo de um planeta localizado fora do Sistema Solar, os pesquisadores não interpretam a emissão como uma mensagem artificial ou evidência de vida extraterrestre.
Essas características levaram a equipe a associar a emissão à chamada instabilidade do maser de ciclotron de elétrons, conhecida pela sigla ECMI. Trata-se de um mecanismo de emissão coerente associado a elétrons acelerados ao longo de linhas de campo magnético.
A explicação apresentada é natural: o sinal seria produzido por auroras associadas ao campo magnético do Beta Pictoris b, de maneira semelhante às emissões de rádio aurorais observadas em planetas do nosso próprio Sistema Solar.
O fenômeno é conhecido no Sistema Solar. A Terra e os quatro planetas gigantes, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, produzem emissões de rádio aurorais. O estudo aponta ainda que sinais semelhantes são observados em algumas anãs ultrafrias.
O resultado, ainda não submetido à revisão por pares, abre uma nova possibilidade para investigar o magnetismo dos exoplanetas, uma característica que, até então, não havia sido medida diretamente nesses mundos.