Ser Saúde

Inadimplência recorde amplia riscos à saúde mental dos brasileiros

Mylena Gadelha mylena.gadelha@svm.com.br
14/08/2026 - 06:00

A vergonha, o medo e a ansiedade de não conseguir pagar as contas ou comprar algo desejado são sentimentos que costumam acompanhar quem enfrenta dificuldades financeiras. Especialistas em saúde mental apontam que os impactos da inadimplência vão além do orçamento, enquanto o estresse causado pelas dívidas pode agravar quadros de ansiedade, depressão e compulsão. 

"Me afetava em tudo. Se eu ia comprar uma coisa, eu me sentia culpada. Logo em seguida, eu me sentia diminuída por não poder comprar por causa da dívida". O relato é da influenciadora e psicóloga Carol Rocha, uma entre milhões de brasileiros que, desde cedo, enfrentaram problemas financeiros no ambiente familiar.

Dados coletados pela Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box e divulgados no fim de 2025, mostram que 84% dos brasileiros já tiveram a saúde mental afetada por problemas financeiros.

Um dos sintomas recorrentes em meio a esse sofrimento mental é a ansiedade, relatada por 49% dos consumidores. 

A preocupação de Carol, também conhecida nas redes sociais como Tchulim, começou com um nome “sujo”, quando ainda tinha 18 anos.

Sem ter ciência sobre o assunto, a influenciadora percebeu um hábito comum na família: o de utilizar nomes limpos de parentes mais jovens para compras que, uma hora ou outra, acabariam não sendo pagas. 

Foi justamente o "nome sujo" que virou tendência crescente no Brasil em 2026. Segundo dados de julho do Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas, 83,9 milhões de pessoas estão negativadas no país atualmente.

Elaborado mensalmente pela Serasa há 10 anos, o levantamento chegou ao maior valor aferido na série histórica após 19 meses consecutivos de alta.  

Dívida X Inadimplência: Estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Uma pessoa pode ter dívidas e manter os pagamentos em dia.

"Quando fui sair de casa, eu precisava alugar um apartamento, dividir contas, mas tinha esse empecilho. Isso me causava uma ansiedade enorme. Eu sabia que tinha uma dívida muito grande, mas não tinha nem noção de quanto era e isso me preocupava", conta Carol em entrevista ao Diário do Nordeste

À época apenas uma estudante, a influenciadora se viu inapta a solicitar financiamento para uma faculdade ou ter crédito para uma casa. Por muitos anos, ela tentou evitar os maus sentimentos que surgiam por causa da dívida, o que agravava um Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) diagnosticado anteriormente.  

Conforme a Serasa, esse cenário não é incomum para diversas famílias. Os números de julho mostram que 21,1% das dívidas no país em 2026 são referentes a contas básicas, como água ou luz. A maior taxa, de 27,2%, ainda é proveniente de bancos e instituições financeiras relacionadas a cartões de crédito ou empréstimos, seguida de dívidas por financeiras (19,9%) e serviços (11,6%).

R$ 348 milhões
de dívidas circulam entre os consumidores em solo brasileiro.

Nas redes sociais, espaço utilizado por muitos para desabafar sobre problemas pessoais, centenas de relatos surgem em uma busca rápida sobre o tema.

“Quero ver de onde eu vou tirar dinheiro para pagar minhas contas esse mês”, reflete um usuário. “Não sei o que é pior: estar sem dinheiro ou receber e entrar em pânico até pagar tudo”, diz outro comentário na rede social.  

Especial sobre saúde mental e financeira

Causas devem ser investigadas 

Se, à primeira vista, a inadimplência parece ser resultado apenas de fatores econômicos, como juros elevados e inflação, o fenômeno pode ser mais complexo e envolver a falta de acesso à educação financeira e a cuidados adequados em saúde mental. 

A psiquiatra Luísa Weber Bisol, professora na Universidade Federal do Ceará (UFC), aponta que as dificuldades financeiras de uma população podem estar conectadas a múltiplos fatores, incluindo reflexos sociais, comportamentais ou de transtornos psicológicos preexistentes. 

Quando os gastos fazem com que eu perca o sono sem saber de onde vou arrumar recursos, fazem com que eu seja cobrado na porta de casa, com que eu corra riscos, tudo isso deve ser avaliado como um sinal de perda de controle.
Luísa Weber Bisol
Psiquiatra

Em uma sociedade com tantas disparidades socioeconômicas, o consumo pode ser utilizado, de fato, como válvula de escape, mas deve ser averiguado em um contexto amplo por profissionais adequados. 

“É preciso saber se o endividamento exacerbado ocorre porque se tem algum transtorno mental, que faz a pessoa ser menos precavida e acabar gastando em demasia, ou se é porque ela tem uma renda mais baixa e o salário acaba antes do final do mês”, reflete.  

Segundo a psiquiatra, alguns sintomas podem ajudar a identificar uma falta de controle da situação. “Talvez muitos de nós tenhamos dívidas hoje. Uma pessoa pode ter um carro financiado, mas o possui como uma dívida que cabe no orçamento. Muitos compram a prazo, mas sem comprometer os ganhos”, ilustra Bisol.  

Transtornos preexistentes e a ligação com problemas financeiros 

A preocupação com o endividamento, porém, é capaz de chegar a um caminho totalmente contrário: alguns transtornos mentais podem, em determinadas fases, levar ao excesso de gastos.

Dificuldade financeira e o desemprego surgem como fatores de risco para o comportamento suicida, conforme documento da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM).

“É o exemplo do transtorno bipolar, que pode apresentar esse comportamento quando se está na fase de euforia. Um dos sintomas, além de humor eufórico, pode ser um exagero em gastos”, destaca, lembrando que a fase de euforia é marcada pela alta energia que afeta decisões ou modo comportamental. 

Outros transtornos são listados quando essa impulsividade é citada: 

  • Oniomania: alívio ou prazer por meio da compra; 
  • TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade): conhecido por trazer impulsividade ou falha nas funções executivas; 
  • TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada): possui relação direta com a preocupação excessiva e constante por um longo período. 

Com essa complexidade, indica Bisol, o acompanhamento psiquiátrico pode ajudar no esclarecimento e na compreensão de quais transtornos podem ter origem em aspectos biológicos ou de interação ambiental, como a falta extrema de recursos financeiros. 

Especial sobre saúde mental e financeira

Relação entre tratamento psiquiátrico e psicológico 

Uma abordagem multidisciplinar entre a psicologia e a psiquiatria pode ser aliada para controlar os transtornos, situar o paciente no presente e ajudá-lo a buscar uma relação mais saudável com o próprio endividamento.  

Como psicóloga, a influenciadora Carol Rocha lembra do quanto a psicoterapia se tornou fundamental para que o dinheiro saísse do campo da fantasia para algo mais “pé no chão”.

Tive uma mudança na minha relação com as finanças. A partir dali, entendi que eu precisava ter controle sobre. Não queria nunca mais viver com a sensação de não saber quanto eu devia 
Carol Rocha
Psicóloga e influenciadora

Foi dentro do consultório que ela descobriu a necessidade de lidar com a ansiedade para não se deixar afundar nas dívidas que nem partiram dela. Até que o problema fosse solucionado, foram necessários oito meses lidando com o problema diariamente. 

Hoje como profissional da Terapia Cognitivo Comportamental (TCC), ela ressalta que a abordagem vai ser a de “ter a consciência dos próprios padrões”. “É trabalhar para identificar quais são os gatilhos emocionais relacionados ao dinheiro, reestruturar umas crenças e tolerar o desconforto”.  

Diferente de ter dívidas, a situação de inadimplência ocorre quando uma dívida vence e não é paga no prazo.
Legenda: Diferente de ter dívidas, a situação de inadimplência ocorre quando uma dívida vence e não é paga no prazo.
Foto: Pormezz/Shutterstock.

Mas quando saber se também é a hora de recorrer à medicação?

"Não existe um medicamento específico para pessoas endividadas, mas para os sintomas aparentes por conta dele, sim", explica Luísa Bisol. 

A psiquiatra reconhece que muitos pacientes podem ter receio da medicação, mas ela pode ser o caminho para um tratamento complementar adequado.

Como este problema financeio está me deixando angustiada? Tenho ideações suicidas por causa disso? Tudo deve ser analisado no consultório.
Luísa Weber Bisol
Psiquiatra
  

Do ponto de vista da psicologia, o fármaco também é visto como aliado. “O remédio chega quando a pessoa está muito desorganizada. Se ela está com um fluxo alto de pensamentos, com processos muito ruminativos, que ocorrem tanto na depressão, e ela não consegue sair desse limbo. Pode ser uma ajuda para se organizar", pontua Carol Rocha. 

O acompanhamento torna-se fundamental para prevenir casos mais graves. A cartilha “Suicídio: informando para prevenir”, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) com o Conselho Federal de Medicina (CFM),  enfatiza a importância de se falar abertamente, observar sinais de alerta e buscar ajuda profissional, assim como orienta profissionais de saúde no manejo dessas situações.

“Vai ser importante agir por várias frentes”, ressalta a psiquiatra Luísa Bisol.  

Especial sobre saúde mental e financeira

Nem todo mundo consegue ter acesso 

A pesquisa da Serasa sobre o cruzamento entre a saúde mental e financeira ainda diz que 49% dos entrevistados deixaram de buscar ajuda por não possuírem dinheiro suficiente para pagar por ela.  

Porém, entre as opções gratuitas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), estão os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), as Unidades Básicas de Saúde (UBS), os hospitais gerais com leitos de saúde mental e os serviços de urgência e emergência, como o SAMU e as UPAs. Esses serviços integram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que articula diferentes pontos de atendimento em saúde mental. 

“É muito importante ter lugares de apoio social também, ter centros de convivência, buscar o CAPS quando não há condições financeiras para um acompanhamento particular. Vai ser necessário buscar esse terceiro lugar para a pessoa, indo além do trabalho e da casa. Tudo pode ser terapêutico”, destaca Carol Rocha. 

Organização financeira pode ajudar na saúde mental 

Além da ajuda dos profissionais de saúde, especialistas em finanças acreditam na importância de um plano de ação para “desafogar” a situação do endividamento.

Luna Lyra, planejadora financeira do perfil “Guarda o Troco”, ressalta que não existe uma fórmula única para sair do endividamento. Um dos caminhos, segundo ela, é começar pelo entendimento de todas as dívidas e do tamanho do problema financeiro. 

"Acho muito importante o que chamamos de ‘arquitetura de escolhas’, que é ver na rotina da pessoa quais são os gatilhos, os obstáculos, para saber como se organizar", conta a profissional. 

O caminho para sair do endividamento é tentar não resolver tudo de uma vez só, aponta planejadora financeira.

A ideia da arquitetura é evitar o contato com cenários que levam ao endividamento, seja automatizando processos bancários ou fugindo de gatilhos para gastos. “A gente faz uma análise de urgência, de gravidade, de risco de cada dívida, sabendo quais são as prioridades”, reitera a planejadora.  

É nesse contexto que programas de renegociação podem representar uma alternativa para quem já está endividado. No Brasil, o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas anunciado pelo Governo Federal em 2026 e disponível até o fim de agosto, é uma das possibilidades. 

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada com indicadores de julho pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostrou que a parcela de famílias com contas em atraso passou de 29,9% para 29,8% entre junho e julho deste ano. Em julho de 2025, a taxa era de 30%. 

Segundo a análise da CNC, a pequena melhora pode estar relacionada aos primeiros 90 dias de vigência do programa. Ainda assim, o comprometimento da renda com dívidas, que chegou a 19% entre as famílias, permanece como um ponto de atenção. 

Para Luna Lyra, o processo de reorganização deve começar justamente pela retomada do controle sobre o orçamento. “O ideal, no começo, pode ser pausar um pouco os pagamentos acumulados, nunca pegar novos empréstimos. Depois, fecha o orçamento no verde, dentro dos custos de vida, e em seguida vem o primeiro passo para organizar uma dívida por vez”, orienta a especialista em finanças. 

Créditos

Mylena Gadelha, Repórter | Lorena Cardoso, Supervisora de Jornalismo | Louise Dutra, Arte/Animação | Karine Zaranza, Coordenadora de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | G. André Melo, Gerente Audiovisual | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo

Assuntos Relacionados