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Afastamento por saúde mental cresce no Ceará e gera prejuízo milionário: 'Uma cultura de cuidado teria evitado'

Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
12/08/2026 - 14:00

No Ceará, os afastamentos do trabalho por motivo de saúde mental cresceram quase cinco vezes mais que os afastamentos totais por incapacidade temporária, entre 2024 e 2025. 

Nesse período, a quantidade de benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental passou de 12.081 para 13.597 no Estado, um aumento de 12,5%.

Já o total de benefícios por incapacidade temporária, considerando todas as causas de afastamento, cresceu apenas 2,7%, passando de 119.028 para 122.264. Os dados são do Ministério da Previdência Social (MPS), solicitados pelo Diário do Nordeste.

Além do impacto sobre a saúde e a vida profissional, esse aumento cobra seu preço. Enquanto famílias passam a arcar com os custos do tratamento e governos ampliam os gastos com benefícios previdenciários, há ainda um prejuízo menos visível: a perda de produtividade dos trabalhadores.

Segundo estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicado em abril deste ano, o presenteísmo (quando o trabalhador permanece em atividade, mas produz menos em razão do adoecimento), gera quase três vezes mais perda produtiva do que o absenteísmo (quando o funcionário se ausenta do trabalho devido à doença). 

Nesse contexto, só para o mercado cearense, o economista Thiago Holanda estima uma perda de cerca de R$ 108 milhões em 2025. Já para a previdência, o cálculo é de R$ 98 milhões em custos. Caso os índices se mantenham, a previsão é que os números dobrem em seis anos. 

Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos anualmente devido à depressão e à ansiedade, causando uma queda de produtividade de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões) por ano. 

Enquanto o impacto econômico do adoecimento populacional parece se ampliar, ficam os questionamentos: esses gastos poderiam ser evitados? Quanto custa não cuidar da saúde mental?

São esses questionamentos que as duas reportagens da série especial “O valor da saúde mental”, do Diário do Nordeste, tentam responder a partir de agora. 

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Afastamentos por saúde mental crescem no Ceará

De acordo com o MPS, entre 2024 e 2025, a quantidade de benefícios por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) concedidos devido a transtornos mentais e comportamentais no Ceará passou de 12.081 para 13.597, um aumento de 12,5%. 

Paralelamente, o total de benefícios por incapacidade temporária concedidos no Estado cresceu apenas 2,7%, indo de 119.028 para 122.264 no mesmo período. 
 
Além disso, no ano passado, a quantidade de benefícios por incapacidade temporária concedidos por motivos de saúde mental no Estado correspondeu a 11% do total de benefícios por incapacidade temporária gerados no Ceará. Em 2024, a porcentagem representativa era de 10%. 

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Para se ter uma ideia, os transtornos ansiosos, principal motivo de concessão de benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental no Ceará em 2025, também figuraram como a quarta principal causa de concessão desses benefícios no Estado, considerando todas as doenças. 

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Economia cearense deixa de produzir mais de R$ 100 milhões por ano

A reportagem solicitou ao MPS e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) o levantamento dos custos gerados pelos afastamentos relacionados à saúde mental no Ceará, mas nenhum dos órgãos conseguiu informar esses valores.

Diante da ausência desses dados, o Diário do Nordeste solicitou ao economista Thiago Holanda uma análise dos números disponíveis. 

Segundo o especialista, os 13,6 mil trabalhadores afastados por motivos de saúde mental em 2025 representam uma perda potencial de aproximadamente R$ 108 milhões para a economia cearense.

A estimativa considera a riqueza que deixou de ser produzida durante o período de afastamento dos trabalhadores.

O cálculo parte da seguinte fórmula:

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“A ideia é que uma empresa só mantém um posto se o trabalhador produzir pelo menos o que custa manter esse posto. O que se perdeu foi a produção que eles teriam gerado, e o salário entra apenas como forma de medir em reais. A produção perdida é riqueza que não foi criada e não reaparece em lugar nenhum depois”
Thiago Holanda
Economista
 

De acordo com o especialista, o salário foi utilizado apenas como uma referência para estimar o valor da produção que deixou de ser gerada durante o período de afastamento.

Somado a isso, ele reflete sobre o risco do Estado perder força de trabalho efetiva num momento em que sua estratégia econômica depende de ampliar a ocupação formal. 

"Como os transtornos atingem sobretudo a população em idade produtiva, o efeito recai justamente sobre a base que sustenta a arrecadação e o consumo no estado”, ressalta.

O tempo estimado pelo especialista se alinha com as médias de afastamento apresentada pelo INSS e o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (leia ao final da reportagem). 

Previdência também sente impacto do avanço dos afastamentos

Além do impacto para a economia cearense, Thiago estima que, só em 2025, os afastamentos por motivos de saúde mental no Estado geraram cerca de R$ 98 milhões de custos previdenciários para o Governo Federal. Para esse cálculo, foram considerados os seguintes fatores:

  • Quantidade de benefícios por incapacidade temporária concedidos por motivo de saúde mental no Ceará em 2025;
  • Salário formal médio no Estado em torno de R$ 2 mil;
  • Benefício médio de cerca de R$ 1,8 mil por mês (equivalente a aproximadamente 91% do salário médio);
  • Duração média dos afastamentos de quatro meses. 

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Conforme aponta, caso as taxas observadas se mantenham, os benefícios por incapacidade temporária concedidos por motivo de saúde mental no Ceará dobrariam em cerca de seis anos, passando para mais de 27 mil por volta de 2031. 

A participação no total de auxílios também subiria dos atuais 11% para perto de 20%, e os custos para a economia cearense e para a previdência caminhariam, respectivamente, para a casa dos R$ 216 e R$ 198 milhões anuais apenas neste recorte. 

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Saída do mercado de trabalho e presenteísmo concentram perdas econômicas

Um relatório da OCDE, publicado em abril deste ano, também dimensionou os impactos econômicos dos transtornos mentais, desta vez considerando os países da União Europeia.

Segundo a organização, pessoas com transtornos mentais têm menor probabilidade de estarem empregadas e, quando permanecem no mercado de trabalho, tendem a trabalhar menos horas, faltar com mais frequência (absenteísmo), produzir menos durante a jornada de trabalho (presenteísmo) e se aposentar precocemente.

Com base nessas variáveis, a OCDE estima que, entre 2025 e 2050, a depressão, a ansiedade generalizada e os transtornos relacionados ao uso de álcool provocarão perdas na União Europeia equivalentes ao trabalho realizado por cerca de 2,4 milhões de pessoas em tempo integral por ano.

O impacto também se reflete no crescimento econômico. De acordo com o relatório, o Produto Interno Bruto (PIB) desses países deverá ser, em média, 1,7% menor a cada ano em razão desses transtornos, o que representa uma perda anual estimada em € 313 bilhões (cerca de R$ 1,8 trilhão).

Entre os fatores que mais reduzem a produtividade, a principal causa apontada pelo relatório é a diminuição da participação das pessoas no mercado de trabalho, seja por desemprego ou pela dificuldade de conseguir uma ocupação, responsável por 48% das perdas.

Em seguida aparecem o presenteísmo (36%), o absenteísmo (14%) e a aposentadoria precoce (3%).

Para ter direito ao benefício, o segurado deve ter a incapacidade para o trabalho reconhecida pela Perícia Médica Federal.
Legenda: Para ter direito ao benefício, o segurado deve ter a incapacidade para o trabalho reconhecida pela Perícia Médica Federal.
Foto: Natinho Rodrigues.

Conforme aponta a psicóloga Adrielly Sousa, a produtividade de um funcionário adoecido mentalmente cai "violentamente". De acordo com ela, a pessoa passa não só a não conseguir mais entregar os resultados esperados, como também, muitas vezes, a deixar de permanecer no ambiente de trabalho, pois tudo se torna insuportável. 

“O adoecimento mental, com foco na saúde versus o ambiente laboral, geralmente acontece quando o indivíduo perde o sentido da vida, se isola e vivencia certo grau de desconexão social, perdendo sua espontaneidade, capacidade de expressão saudável, adequação social e autenticidade”
Adrielly Sousa
Psicicóloga

Dessa forma, indica, os sintomas que acometem o trabalhador adoecido tornam impossível o desempenho de suas funções, até mesmo das aparentemente mais simples.

Em relação aos transtornos analisados no estudo, a ansiedade generalizada responde pela maior parcela das perdas de produtividade, concentrando 56% do impacto estimado pela OCDE. A depressão representa outros 39%, enquanto os transtornos relacionados ao uso de álcool respondem pelos 5% restantes.

"Quadros como ansiedade, depressão e transtorno bipolar podem comprometer a concentração, o raciocínio, a tomada de decisões e a execução segura das atividades profissionais. Quando não identificados e tratados com celeridade e a expertise clínica de um médico psiquiatra, pode resultar em afastamentos prolongados, prejuízo na qualidade das entregas e nas relações laborais e no agravamento do quadro clínico como um todo"
Antônio Geraldo da Silva
Presidente da ABP

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), dr. Antônio Geraldo da Silva, reforça que as doenças mentais, além de configurarem uma questão de saúde pública, trazem consequências para a capacidade funcional do trabalhador, produtividade, desempenho das organizações e sustentabilidade do ambiente de trabalho. 

Outras contas que chegam às empresas

Além do peso do presenteísmo e do absenteísmo, Thiago cita outros gastos gerados para as empresas, como reposição da tarefa via horas extras, contratação temporária ou redistribuição de carga, perda de conhecimento e de relacionamento com clientes e readaptação no retorno. 

Existem também os efeitos em quem permanece no trabalho, como sobrecarga, queda de qualidade e risco de novos adoecimentos, formando um ciclo.

O impacto financeiro para os negócios é ainda maior caso exista o reconhecimento judicial de que o trabalho contribuiu para o adoecimento mental do funcionário. 

Nessa circunstância, o presidente da Comissão de Direito do Trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Ceará, Raul Aguiar, explica que o trabalhador passa a ter direitos como estabilidade no emprego e indenizações por danos morais e materiais.

Os valores variam de acordo com os casos e levam em consideração fatores como a remuneração do funcionário e o ambiente adoecedor. 

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Depressão trouxe queda de renda, gastos com tratamento e batalha na Justiça

Thallyce Augusta, 29, é uma das cearenses que precisaram do benefício de incapacidade temporária devido ao adoecimento mental. No caso dela, o peso no orçamento envolveu não só o tratamento e a queda na renda mensal, mas também uma luta judicial pelos direitos trabalhistas. 

Thallyce foi afastada do trabalho após diagnóstico de depressão.
Legenda: Thallyce foi afastada do trabalho após diagnóstico de depressão.
Foto: Kid Junior.

Em 2018, ela começou a trabalhar como supervisora de vendas em uma grande rede de fast-food instalada em um shopping de Fortaleza. Pouco mais de um ano depois, no fim de 2019, precisou se afastar do trabalho por causa da depressão.

“Passei a errar mais em coisas fáceis que já eram da rotina. Foi assustador. Por conta da pressão das responsabilidades, me sentia sufocada no ambiente de trabalho, desmotivada, com vontade de voltar pra casa. Além das crises de choro e pânico, eu não estava mais conseguindo focar em nada”
Thallyce Augusta
Operadora de caixa
 

Segundo conta, a rotina era marcada por uma intensa demanda de trabalho, principalmente aos fins de semana. Com o passar do tempo, vieram a exaustão, a dificuldade de concentração e a queda no rendimento. Os erros passaram a ser mais frequentes, aumentando as cobranças da chefia e os conflitos com colegas.

Em busca de entender a origem do sofrimento emocional, Thallyce procurou atendimento médico e recebeu o diagnóstico de depressão. A recomendação foi imediata: interromper as atividades profissionais porque já não havia condições de continuar trabalhando.

O afastamento ocorreu no fim de 2019. No entanto, ela só conseguiu agendar a perícia do INSS para fevereiro de 2020, quando passou a receber o benefício por incapacidade temporária. O auxílio permaneceu ativo até 2021.

Mesmo conseguindo parte do tratamento pela rede pública de saúde, os custos continuavam elevados. As despesas com consultas e medicamentos frequentemente ultrapassavam o valor do benefício, de aproximadamente R$ 1.500 por mês. 

“Tive dificuldade na aquisição de medicamentos, na própria alimentação, deslocamento para as consultas e fiquei totalmente desamparada, só tinha ajuda dos meus familiares e ainda tinha a questão de não conseguir andar sozinha por causa dos pânicos. A preocupação com atraso de contas e alimentação da minha filha agravou meus sintomas”
Thallyce Augusta
Operadora de caixa

A quantia ainda era inferior ao salário que ela recebia quando estava na ativa, já que o valor mensal do auxílio corresponde a cerca de 91% da média dos salários de contribuição do segurado.

A situação se agravou quando o benefício foi suspenso após cerca de um ano. Segundo Thallyce, ela apresentou laudos médicos, receitas e todo o histórico clínico durante o processo de renovação, realizado de forma on-line, mas o pedido foi negado.

Legenda: Rotina de trabalho exaustiva agravou situação da profissional.
Foto: Kid Junior.

Sem a renda do benefício, passou a depender da mãe, com quem morava junto da filha, hoje com 10 anos. Ela chegou a tentar retornar ao mercado de trabalho, mas as crises de ansiedade e de pânico dificultavam sua permanência nos empregos.

Em 2022, com apoio da sogra, conseguiu buscar na Justiça o restabelecimento do benefício e um acordo com a empresa onde trabalhava, que, segundo ela, insistia para que pedisse demissão. Após três anos e um processo que exigiu tempo, recursos financeiros e desgaste emocional, a ação foi julgada procedente. 

Hoje, Thallyce trabalha como operadora de caixa em uma loja no Centro de Fortaleza. Em um ambiente que considera mais flexível e após anos de tratamento, afirma ter recuperado parte da qualidade de vida.

Ao olhar para trás, ela acredita que algumas medidas poderiam ter evitado o agravamento do quadro e, consequentemente, o afastamento.

“Flexibilização da escala de trabalho, a maneira como os meus superiores me tratavam, um RH mais humanizado, mais atencioso às demandas dos funcionários, a presença de um psicólogo do trabalho, uma orientação para o autocuidado. Poderia ter evitado esse afastamento também uma cultura de cuidado onde as pessoas tivessem mais empatia com as outras, pois atrás de um funcionário tem um ser humano”, ressalta. 

Medo de ficar sem renda fez enfermeira desistir de pedir benefício do INSS

A realidade de Roberta (nome fictício) foi diferente. No caso dela, apesar da necessidade, pedir o benefício por incapacidade temporária mal entrou nos planos.

“Já trabalhei 12h sem intervalo, em escala de plantão mista com plantão noturno e diurno na mesma semana, e atualmente trabalho em escala diurna fixa. Tive esgotamento, dificuldade de concentração, baixa tolerância, baixo rendimento às custas de muito gasto energético físico e mental. Trabalhei com sintomas por mais de um ano”
Roberta (nome fictício)
Enfermeira
 

Em 2025, a enfermeira precisou ser afastada do trabalho após ser diagnosticada com a Síndrome de Burnout. Conforme o relato, o receio de errar e de ter consequências mais graves para a própria saúde foi o que levou a mulher a buscar ajuda. 

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Na época, ela optou pela licença de 15 dias, quando o empregador é o responsável pelo pagamento do funcionário. Mesmo reconhecendo que o período não foi suficiente para o tratamento, Roberta preferiu não recorrer ao INSS por medo de ter o benefício negado ou de demorar a receber o pagamento. 

Atualmente, os gastos da enfermeira com remédios e consultas gerados pela Síndrome de Burnout chegam a R$ 1 mil por mês, além de R$ 700 a cada dois ou três meses. 

Há 24 anos na profissão, ela relata que ainda sente os impactos econômicos do afastamento, e conta ter sentido culpa e medo em relação ao futuro financeiro. O adoecimento ainda trouxe queda no rendimento, baixa tolerância e problemas interpessoais.

“Voltei com adaptações. Foi difícil, mas tem melhorado. O tratamento compromete uma parte do meu orçamento, mas é necessário”, relata. 

O Diário do Nordeste procurou o INSS para comentar a suspensão do benefício de Thallyce. Em resposta, o órgão solicitou o CPF da personagem para apurar o caso, mas ela não autorizou o compartilhamento da informação.

A reportagem também pediu um posicionamento sobre o relato de receio em relação à demora na concessão do benefício e à possibilidade de o pedido ser negado. O INSS, no entanto, não se manifestou sobre esses pontos.

Por fim, o órgão foi questionado sobre o motivo de o valor do benefício ser inferior ao salário recebido pelo trabalhador antes do afastamento. Em resposta, informou que "o percentual de 91% está estabelecido no artigo 61 da Lei nº 8.213/1991, que dispõe que o valor do auxílio por incapacidade temporária corresponde a 91% do salário de benefício".

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Falta de dados ainda dificulta dimensionar o problema 

Mesmo com a relevância do tema, mensurar essa realidade não foi uma tarefa simples. 

Para ilustrar o impacto econômico do adoecimento mental, o Diário do Nordeste concentrou a análise nos benefícios de incapacidade temporária especificamente relacionados à saúde mental, ou seja, quando o indivíduo é, temporariamente, considerado inapto para trabalhar devido a uma doença relacionada à saúde mental. 

A reportagem solicitou ao MPS e ao INSS o levantamento dos custos gerados pelos afastamentos relacionados à saúde mental no Ceará, mas nenhum dos órgãos conseguiu informar esses valores.

Além disso, a reportagem encontrou limitações na disponibilidade de dados e até divergência de informações. 

O INSS informou que foram pagos R$ 971,8 milhões em benefícios por incapacidade temporária no Ceará em 2025. O valor, porém, não permite estimar o custo médio de cada auxílio.

Segundo o MPS, isso ocorre porque a quantia contabiliza cada benefício apenas uma vez, independentemente do tempo em que ele permaneceu ativo. Ou seja, um benefício pago durante três ou quatro meses, por exemplo, aparece registrado uma única vez.

Outro problema encontrado pela reportagem foi a divergência na quantidade total de benefícios por incapacidade temporária concedidos no Ceará, considerando todas as causas de afastamento.

Segundo o INSS, foram concedidos, ao todo, 123.248 benefícios por incapacidade temporária no Ceará em 2024 e 128.809 em 2025. Já o MPS informou 119.028 benefícios em 2024 e 122.264 em 2025.

A partir dessa discordância, a reportagem decidiu adotar para os cálculos apenas a base de dados fornecida pelo Ministério, já que a pasta apresentou detalhamento por tipo de benefício e permitiu identificar quantos deles estavam relacionados a motivos de saúde mental.

O INSS informou apenas o total de benefícios concedidos no Estado, sem esse detalhamento.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram o crescimento dos benefícios por incapacidade temporária devido a transtornos mentais e comportamentais no Ceará.
Legenda: Dados do Ministério da Previdência Social mostram o crescimento dos benefícios por incapacidade temporária devido a transtornos mentais e comportamentais no Ceará.
Foto: Fabiane de Paula.

Outro dado informado pelo INSS foi a duração média dos benefícios por incapacidade temporária no Ceará, considerando todas as causas de afastamento: 124 dias em 2024 e 127 dias em 2025, aproximadamente quatro meses. 

Como a reportagem não localizou nenhum órgão que disponibiliza esse indicador por tipo de doença, o dado está sendo apresentado apenas como contextualização e parâmetro.

O Diário do Nordeste também analisou os dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa conjunta do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) Brasil. As informações estão disponíveis em uma plataforma on-line.  

Segundo o coordenador do Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário (IBDP) na Região Nordeste, Carlos Éden de Melo Mourão, a ferramenta foca exclusivamente em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), filtrando apenas trabalhadores formais com vínculo CLT ativo. 

Já os dados do MPS incluem todos os tipos de segurados, abrangendo, por exemplo, trabalhadores com carteira assinada (CLT), autônomos (contribuintes individuais) e Microempreendedores Individuais (MEIs). 

Por utilizarem metodologias e universos distintos, os dados do Observatório divergem dos apresentados pelo MPS. Nesta reportagem, eles serão apresentados apenas para contextualização e não foram adotados como base de referência.

De acordo com o painel, o Ceará teve 12.785 benefícios previdenciários associados à saúde mental concedidos em 2024, dado mais recente disponível na plataforma. No mesmo ano, foram perdidos 1.481.258 dias de vida saudável e de atividade produtiva por problemas de saúde mental, em razão de afastamentos previdenciários, o que gera uma média de, aproximadamente, 116 dias, ou 3,8 meses de afastamento para cada benefício. 

Também foram procuradas entidades como a Secretaria do Trabalho do Ceará (SET), o Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), o Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (TRT-CE) e a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), mas nenhuma delas forneceu dados ou estudos sobre o assunto.   

Por essas razões, esta reportagem utiliza os números fornecidos pelo MPS junto a análises de especialistas para dar foco a esse impacto econômico ainda pouco mensurado pelo poder público local.

Frente a esse cenário crescente de adoecimento e custos, estudos apontam que cuidar da saúde mental do trabalhador é sinônimo de um bom negócio para as empresas. Na próxima reportagem, você vai entender qual o papel do trabalho no adoecimento mental da população e como investir em prevenção se tornou mais lucrativo para os empregadores. 

Créditos

Letícia do Vale, Repórter | Kid Junior, Natinho Rodrigues, Fabiane de Paula e Ismael Soares, Produtores Audiovisuais | Louise Anne Dutra, Artes e Diagramação | Bruna Damasceno e Hugo R. Nascimento, Editores de Negócios | Victor Ximenes, Coordenador de Jornalismo | André Melo, Gerente de Audiovisual | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo e Esporte

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