No Ceará, há quem tenha descoberto, justamente após os 60 anos, uma forma nova e ainda mais feliz de viver. Cursos de memória, teatro, quadrilha junina e dança têm sido algumas das alternativas encontradas por idosos para permanecerem ativos, exercitarem habilidades e encontrarem novos espaços de convivência social.
Nessa etapa da vida, buscar formas de manter a capacidade funcional é essencial para ter autonomia, criar vínculos e até mesmo tomar decisões, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Especial Envelhecer com Saúde marca o Dia Nacional e Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1° de outubro desde 1990.
Mais do que ocupar o tempo, atividades em grupo podem proporcionar uma nova fase marcada por descobertas e alegrias.
Neste especial, o Diário do Nordeste mostra como diferentes ações e cuidados podem contribuir com a manutenção da autonomia, com a estimulação do corpo e da memória, além de reforçarem a convivência social nesta fase da vida.
“Só agora que eu estou vivendo a minha vida, e com muita alegria”. É assim que Maria Joventina Brasil, de 62 anos, avalia as experiências a que se permitiu fazer parte logo depois da aposentadoria. Como uma série de pessoas idosas no país, ela trabalhava fora de casa, possuía atribuições no seio familiar e temia a possibilidade de não se sentir mais “preenchida” quando as atividades laborais finalmente se encerrassem.
A realidade, entretanto, veio diferente. Admiradora das quadrilhas juninas, ela descobriu um projeto voltado para a prática enquanto participava de uma aula de hidroginástica no Serviço Social do Comércio (Sesc), no Centro de Fortaleza. A parte física estava muito bem, mas foram as necessidades sociais, de convívio com outros admiradores da dança, que a levaram a “se divertir e não se anular” em busca de um desejo antigo.
“Quando eu era adolescente, minha mãe não deixava. Eu ia escondida, dizia que ia para a missa, mas ia para os ensaios da quadrilha. Mas, quando chegava o dia da apresentação, não podia ir porque não tinha roupa. Quando soube agora, já idosa, não tinha mais impedimento. É a realização de um sonho e uma superação na minha vida”, conta.
São atividades como essas que, segundo a OMS, contribuem para o bem-estar durante o envelhecimento. A entidade global aponta que esse processo natural se caracteriza por dois pilares: a capacidade intrínseca do indivíduo e as características ambientais acessadas por ele. A junção dos dois compreende a capacidade de andar, pensar, ver, ouvir, lembrar, assim como os ambientes e relacionamentos que cercam a pessoa idosa.
“É importante buscar e garantir, da melhor maneira possível, que uma pessoa idosa permaneça autônoma e independente, que tenha a capacidade de tomar as decisões a respeito da própria vida e fazer aquilo que gostaria de fazer, que entende como bom e que faz sentido para ela”, explica o geriatra e professor do curso de Medicina da Universidade de Fortaleza (Unifor), Victor Falcão Macêdo.
Como evidenciam as Projeções da População para 2026 do IBGE, o Ceará concentra quase 1,49 milhão de idosos com 60 anos ou mais, dos quais 1,04 milhão integram o grupo de 65 anos ou mais. O Estado ocupa, conforme o levantamento, a 12ª posição na proporção de idosos do Brasil (16%), dado que expõe desafios de atender essa população em distintas áreas, inclusive na saúde.
O profissional reforça a complexidade do envelhecimento porque torná-lo saudável envolve dezenas de fatores.
“É um fenômeno do ser humano, inerente. Todos envelhecemos e isso traz diversas mudanças. Muda a nossa fisiologia, que é a forma como o nosso corpo funciona. Vêm também as mudanças estruturais, orgânicas, a de papéis sociais. É multidimensional”.
Ainda segundo o especialista, a aposentadoria chega como um marco. Quando se fala de paralisar o trabalho nessa fase da vida, surge a ideia de que ela será de tranquilidade completa, sem considerar que nem todos possuem o mesmo nível de acessos.
"Ainda existe uma falha econômica e social muito grande na sociedade, fazendo com que o envelhecimento aconteça também de maneira diferente para as pessoas. Alguns vão ter acesso à saúde, prática de atividade física e lazer, enquanto outros não vão ter nada disso", reforça.
Estimulação cerebral pode trazer envelhecimento mais tranquilo
Na mesma busca por se manter ativa além do corpo, a aposentada Luciene Moura Fernandes, de 68 anos, encontrou um motivo nos primeiros sinais de esquecimento, despertados após a aposentadoria e vários meses de isolamento pandêmico.
Enfrentando longos dias de ócio e notícias de falecimento de amigos durante o isolamento social provocado pela Covid-19, em 2020, ela percebeu a recorrência da confusão sobre histórias recentes e afazeres em casa com uma frequência tão grande que recorreu até a um teste para detectar Alzheimer.
O resultado foi negativo, mas desencadeou o desejo de buscar exercícios cerebrais que estimulassem a mente. A terapia ocupacional com ativação cerebral foi descoberta pela geógrafa aposentada em meio aos exercícios para o corpo, durante uma aula de hidroginástica também em uma das unidades do Sesc em Fortaleza.
"Fiquei interessada, e foi só depois das aulas que me acalmei. Eu estava precisando, porque fiquei muito esquecida. Tem quatro anos que faço. Agora, brinco que o curso virou a minha segunda casa".
Pintura, caça-palavras, filmes, exercícios de cálculo e de lógica. As atividades realizadas em sala de aula são diversas e mudam a cada dia, sempre com o objetivo de estimular o cognitivo. Para Luciene, que chegou a doar vestidos após se aposentar, pensando que a vida social havia chegado ao fim, foi uma alegria perceber que ainda havia muito para experimentar.
Às segundas e quartas pela manhã, ela participa da atividade, mas chega mais cedo na maioria dos dias pelo apreço a uma boa conversa. "Sou de uma família em que todos conversam, e é muito bom porque você pode interagir com outros idosos. Vejo que muitos, principalmente viúvos e viúvas, têm uma carência muito grande", comenta.
Luciene e Joventina, assim como outras centenas de pessoas idosas, viram diversas oportunidades se abrirem dentro de uma das duas unidades do Sesc em Fortaleza. Diversas faixas etárias são atendidas nos centros, que contam com serviços que vão da saúde básica à promoção de acesso cultural.
No caso do Grupo de Trabalho Social com Pessoas Idosas (TSPI), desenvolvido para pessoas acima dos 60 anos, foram registradas, até setembro deste ano, quase 5 mil inscrições nas cinco unidades do Sesc Ceará (Fortaleza, Sobral, Iguatu, Juazeiro do Norte e Crato).
Segundo a entidade, o programa tem o objetivo de "promover a sociabilização e o pensamento sobre a longevidade", contribuindo com o bem-estar, autonomia e fortalecimento do protagonismo nessa fase da vida.
As atividades do serviço são divididas em três eixos: arte e expressão; corpo e movimento; e sociedade e cidadania. Para suprir a programação, os inscritos podem participar de oficinas, rodas de conversas, debates e até palestras sobre vários temas.
Novos projetos de vida
Ao Diário do Nordeste, a supervisora do TSPI do Sesc Fortaleza, Thaís Castro, explica que as ações para os idosos trabalham com diferentes eixos, desde estimulação cognitiva, com foco no corpo e na mente, até projetos sobre o protagonismo da pessoa idosa e convivência.
"Acho que o principal indicador que a gente tem da importância dessas atividades para o envelhecimento ativo dos idosos é a adesão. Eles são muito fiéis a esse trabalho que a gente desenvolve."
A gestora explica que são frequentes os relatos individuais de idosos morando sozinhos. Muitos dizem enfrentar a síndrome do ninho vazio — quando filhos e netos saem de casa — ou se sentem solitários.
"Eles querem ressignificar a vida e buscar novos projetos para após a aposentadoria. Querem ter uma velhice com maior qualidade de vida e ampliar seu repertório, e é isso que a gente tenta ofertar: todas essas oportunidades".
Autonomia, protagonismo e consciência das escolhas são alguns dos ganhos dos cursos ou processos de formação. "A gente instrumentaliza muito eles com relação aos direitos que eles têm." O programa ajuda a desconstruir antigas crenças sobre a velhice, rompendo o estereótipo de que os idosos já não aprendem ou de que precisam estar dentro de casa.
A pensionista Gema Maria Weyne de Paula é um desses exemplos. Aos 88 anos, a idosa participa da direção do “Estrela de Belém”, grupo cultural que celebra o nascimento de Jesus e a visita dos Três Reis Magos, em uma das unidades do Sesc. Ela começou aos 50, ajudando a montar as peças, mas a paixão cresceu e a levou a trabalhar com diferentes performances.
Todas as terças e quintas, no período da tarde, ela realiza trabalho com dança, exercício de voz, alongamento e ginástica para o corpo. Há ainda um momento de desabafo e conversas, para que todos se sintam acolhidos no grupo.
"É maravilhoso, porque nesses encontros, a gente tanto dá como recebe. É uma troca mútua, de aconchego, de carinho, de acolhimento. É muito bom", lembra com carinho.
Gema é uma das alunas que acreditam não haver espaço para achar que a vida acabou aos 60. "A gente tem que viver mais, estar mais feliz. Viver e não ter a vergonha de ser feliz”, parodia. “Nesses grupos, você vai encontrar o aconchego, o amor de outros idosos. Vai crescendo e aprendendo. Porque todo dia é dia de se aprender. Não tem essa questão de idade".
Cuidados com os envelhecimentos distintos na sociedade
Mas nem todas as pessoas idosas no Brasil possuem os mesmos acessos, seja por conta das disparidades entre as classes sociais, localidades geográficas ou comportamentos. Nos últimos anos, o termo NOLT, sigla para “New Older Living Trend” (Nova tendência de viver a maturidade, em tradução livre), tenta formalizar o ideal de uma geração 60+ extremamente conectada, ativa e independente. Mas isso, conforme profissionais, nem sempre será possível.
“Não se pode romantizar esse envelhecimento e criar o roteiro de que o idoso é sempre saudável, de que o que envelhece bem é aquele sem limitações, sem doenças, porque isso não é possível. O que a gente busca é diminuir essas limitações para adiar o que chamamos de morbidade para a fase mais tardia possível da vida”, esclarece o geriatra Victor Falcão.
O especialista expõe como as práticas de cuidado para pessoas idosas devem ser permanentes, tanto entre familiares próximos como perante a sociedade. Há um prejuízo, diz o médico, quando não existe um cenário socioeconômico favorável, quando a solidão é constante ou quando não há possibilidade de ir além das funções corriqueiras.
“Se não há tempo para o lazer, não existem recursos próprios. Isso impacta sobremaneira, principalmente na questão da saúde mental, por isso vemos um crescimento de pessoas idosas com depressão, com ansiedade, com insônia, com alterações do sono que acabam impactando na memória. Tudo mostra como é algo multidimensional”.
A Associação Cearense Pró-Idosos (Acepi) debate o assunto a fundo. Elizio Loiola, gerontólogo e presidente da entidade, explica que a capital cearense ainda precisa desenvolver muitas políticas públicas para proporcionar um envelhecimento ativo e saudável aos que vivem na cidade.
Há 47 anos, a associação incide junto a diversos órgãos municipais e estaduais, no papel de conselho social, para pulverizar o acesso a atividades físicas, mentais e sociais.
"Fortaleza não é satisfatoriamente acessível para todos de um modo geral. Tem um transporte público ainda muito deficiente, um processo complicado de urbanidade que traz um risco de uma pessoa idosa andar sozinha, por exemplo. Tudo isso que buscamos trabalhar”, avalia.
Para responder ao acelerado envelhecimento populacional, a Prefeitura de Fortaleza lançou em 2025 o programa "Fortaleza para Todas as Idades", que tem caráter permanente. A iniciativa foca na ampliação de espaços de lazer e no cuidado da pessoa idosa por meio da ampliação de centros-dia, do reforço de equipes de atenção domiciliar especializadas e da criação de núcleos de apoio a vítimas de violência.
Enquanto isso, mulheres como Joventina, Luciene e Gema já comprovam, no dia a dia, os benefícios das atividades sociais para garantir a longevidade e, além disso, a felicidade. “Já trabalhei demais na vida”, diz Luciene aos risos. “Demais mesmo, mas me aposentei e agora vivo isso. Está bom demais”, brinca.
Créditos
Beatriz Rabelo e Mylena Gadelha, Reportagem | Lorena Cardoso , Edição e Supervisão de Jornalismo | Thiago Gadelha, Fotografia | Louise Dutra, Arte/Animação | Felipe Mesquita, Supervisão de Jornalismo | Karine Zaranza, Coordenação de Jornalismo | Ívila Bessa, Gerente de Jornalismo | Gustavo Bortoli, Diretor de Jornalismo