A estudante universitária Isabelle Caracristi, de 22 anos, se viu diante um pesadelo nas últimas semanas de vida. A reportagem do Diário do Nordeste apurou junto a documentos que Isabelle conversava com amigos e parentes sobre como vinha se percebendo vítima de violência psicológica.
Após ser encontrada morta em um prédio residencial no bairro Aldeota, em Fortaleza, o celular da vítima foi apreendido e levado à perícia. O aparelho tem danos físicos devido à queda, mas a partir de uma extração inicial a Polícia concluiu que "o conteúdo recuperado permite inferir, desde já, a existência de violência psicológica, ao mesmo tempo em que sustenta a continuidade da linha investigativa destinada a verificar eventual induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio, especialmente diante da proximidade temporal entre o agravamento do sofrimento emocional da vítima, a afirmação de que desejava 'sumir', a elaboração da mensagem de despedida e o resultado morte".
João Munhoz Neto, namorado de Isabelle preso na manhã desta terça-feira (22) para prestar esclarecimentos às autoridades e garantir a ordem pública, não estava no edifício quando Isabelle caiu do 23º andar. No entanto, a Polícia diz que "é necessário esclarecer se o investigado, conhecendo a vulnerabilidade emocional de Isabelle, praticou atos destinados a criar ou reforçar seu propósito suicida ou lhe prestou alguma forma de auxílio material".
Lígia Peixe, advogada de defesa, diz que João está "emocionalmente abalado e sob efeito de remédios desde que soube da morte da namorada". A defesa nega que a mãe da menina não tenha sido comunicada sobre a morte.
SEQUÊNCIA PROGRESSIVA DE VIOLÊNCIA
Para as autoridades está evidenciado que Isabelle sofreu uma sequência progressiva de violência, acompanhada de manifestações cada vez mais intensas de sofrimento por parte da vítima.
"Isabelle afirmou sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa, além de relatar expressamente que as condutas do investigado lhe faziam mal e adoeciam".
João e Isabelle começaram a namorar há cerca de dois meses. Ela, universitária do curso de Direito, ingressou em um escritório onde João trabalhava após conseguir uma vaga de estágio.
"Poucos dias depois, passou a manter relacionamento afetivo com João, homem mais velho e que ocupava posição de ascendência profissional. Em curto espaço de tempo, o investigado passou a participar intensamente de sua vida familiar, financeira, sexual e profissional, bem como a exigir acesso permanente à sua localização. Há elementos de que havia alguma vinculação relacionada a auxílio financeiro e submissão à vigilância do representado, o que constitui elemento indicativo de controle coercitivo", conforme documentos.
Isabelle deixou a casa da mãe para morar com o namorado, irmão e mãe dele.
CÂMERA INSTALADA
Há informações de que João chegou a instalar uma câmera particular na soleira da porta de frente do apartamento, "contudo essa câmera foi retirada, sem informações precisas do momento em que ocorreu, mas levanta suspeitas se podem ter sido retiradas após os fatos".
"Análise cronológica das conversas evidencia que os episódios não se apresentam como discussões isoladas ou meros desentendimentos afetivos, mas como uma sequência progressiva de violência, acompanhada de manifestações cada vez mais intensas de sofrimento por parte da vítima. Isabelle afirmou sentir-se ameaçada, manipulada, pressionada, sobrecarregada e presa, além de relatar expressamente que as condutas do investigado lhe faziam mal e adoeciam".
Ao deferir o mandado de prisão preventiva, a juíza destacou que há uma grave comoção social gerada e que para a conveniência da instrução criminal é necessária a prisão.
"Os elementos coligidos indicam que a vítima foi submetida, em tese, a práticas de vigilância, manipulação, constrangimento, pressão emocional, insistência sexual, interferência em suas decisões e controle de sua localização e de aspectos de sua vida financeira", conforme o Judiciário.
ÁUDIO ENVIADO UMA HORA ANTES DA MORTE
O relacionamento conturbado entre a estudante universitária Isabelle Caracristi e o bacharel em Direito João Munhoz Neto era frequentemente tema de conversa entre a jovem de 22 anos e um parente dela. Uma hora antes de ser encontrada morta em um edifício na Aldeota, em Fortaleza, Isabelle fez novas revelações ao familiar.
'Não apague este áudio, me responde', pediu ela ao parente por volta das 19h40 do dia 13 de setembro de 2026. Às 20h40 o impacto ao solo da vítima foi registrado. Nas conversas pelo Whastsapp, Isabelle disse "que qualquer coisa que venha a acontecer com ela, este áudio é uma prova. João Munhoz é um doente, não acredite nele".
A editoria de Segurança do Diário do Nordeste apurou com exclusividade e teve acesso ao depoimento do parente de Isabelle, que não terá o nome divulgado para não expor a identidade dele. Ela disse ao familiar que se sentia explorada pelo namorado, que "não aguentava mais os jogos emocionais que ele fazia" e que ela o denunciaria na Justiça do Trabalho devido à exaustiva rotina no escritório de advocacia.
Quando o parente recebeu os áudios e as mensagens da vítima, ele estava em uma lanchonete, motivo pelo qual disse não ter ouvido naquele mesmo momento.
O celular da vítima foi entregue à Polícia Civil do Ceará (PCCE) e deve ser periciado. Os áudios e as mensagens também já estão em posse dos investigadores.
LIGAÇÕES TELEFÔNICAS
O inquérito para apurar a morte da estudante foi instaurado no dia 16 de setembro de 2026. Nos áudios enviados pela vítima no dia da morte ela relatou "ameaças atribuídas ao companheiro e pedia que a mensagem fosse preservada como prova".
Os áudios da vítima atribuíam a João Munhoz Neto a responsabilidade por eventual mal que lhe sobreviesse, "os relatos convergem com ciúmes, controle e ameaça".
Isabelle disse que João era muito ciumento e que inclusive limitava a liberdade dela, porque várias vezes ela queria visitar os parentes, mas não conseguia.
Em um dos desabafos com o parente, tido como um dos melhores amigos dela, o familiar questionou o porquê de ela não terminar o relacionamento, tendo Isabelle dito que "depois desse, não quero ninguém. Quero ficar sozinha. Não suporto mais o João".
A reportagem também apurou que semanas antes da morte, os familiares estavam em ligação, quando o parente ouviu ao fundo a voz de João dizendo: "desliga esse telefone, estou mandando". E na sequência Isabelle respondido: "não vou desligar, você não manda em mim".
Às 20h do dia 13 de setembro, ainda quando Isabelle estava viva, o parente contou que ouviu parte do áudio, com falas da jovem sobre como João era ciumentos. O áudio inteiro não foi ouvido naquele momento.
Às 20h11, o parente disse ter retornado a ligação para a estudante, mas ela já não atendeu. Depois mandou uma mensagem: "oi", que nunca foi respondida.
Só no dia seguinte, a família teria comunicado a ele a morte de Isabelle, tendo o familiar lembrado que não ouviu o áudio completo no primeiro instante.
QUEM ERA ISABELLE CARACRISTI?
O Diário do Nordeste conversou com o irmão da universitária, Rafael Magalhães, que falou sobre os "sonhos interrompidos e a tragédia que a família vive agora".
"Desde muito pequena ela sempre quis ser advogada, defensora dos direitos, ela brigava pelos direitos, pelas suas questões. Ela queria ser advogada criminalista, uma juíza, queria defender os direitos de crianças e mulheres", contou Rafael.
A Isabelle, minha irmã, sempre teve muitos sonhos, somos de uma família batalhadora, filhos de professora, filhos de quem sempre lutou".
O irmão lembra da jovem como uma menina alegre e que cuidava da mãe e da avó: "ela gostava de estar presente, de estar junta".
"Todo mês a Isabelle ia pintar o cabelo da minha avó e agora ela pergunta: 'quem vai pintar meu cabelo?'. Ela era comunicadora, divertida, não tinha tempo ruim para a minha irmã".
A Procuradoria Especial da Mulher da Câmara Municipal de Fortaleza e a Secretaria Municipal das Mulheres se manifestou nessa terça-feira (22) solicitando "especial atenção ao caso envolvendo Izabelle Caracristi"
"Desde que o caso veio a público, os dois órgãos vêm acompanhando atentamente os acontecimentos, inclusive participando de mobilizações e atos públicos que reivindicam justiça e a completa elucidação dos fatos. Diante da comoção social provocada pelo caso e, sobretudo, em respeito à família de Izabelle Caracristi, solicitamos que sejam envidados todos os esforços necessários para conferir celeridade às investigações, observados os procedimentos legais e a autonomia das autoridades responsáveis, para que os fatos sejam devidamente esclarecidos e sejam adotadas as providências cabíveis".
IMPACTO CONTRA O SOLO
Isabelle foi encontrada morta no último domingo (13), no Condomínio La Piazza, no bairro Aldeota. A Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) informa que nela foram encontradas “lesões no corpo compatíveis com o impacto contra o solo”. A reportagem apurou que ela caiu do rooftop do prédio, localizado no 23º andar.
Imagens de câmeras de segurança obtidas com exclusividade pela editoria de Segurança do Diário do Nordeste mostram que o namorado da estudante e a mãe dele não estavam no prédio quando a universitária morreu.
As câmeras dos espaços compartilhados do edifício residencial mostram que, às 18h32, o namorado da estudante vai até a portaria do prédio.
Isabelle continua no prédio e, às 19h12, é vista dentro do elevador, sozinha, com o celular na mão, a caminho do rooftop, no 23º andar.
Às 20h40, é registrada a queda e o impacto do corpo de Isabelle contra o solo
Uma patrulha do Batalhão de Policiamento Turístico (BPTur) foi acionada e chegou ao prédio às 20h51. Dois moradores presenciaram o momento em que a jovem morreu, conforme apurou o Diário do Nordeste.
Após a confirmação do caso, a Perícia Forense do Ceará (Pefoce) foi acionada e realizou os levantamentos periciais no local.
Cerca de duas horas depois da queda, às 22h48, o namorado retorna ao prédio.
A reportagem também apurou que não havia sinais de luta corporal dentro do apartamento.