'Pacificação' ordenada por facções aumenta insegurança

A diminuição dos homicídios pode ser resultado de ações que afetam no aumento de outros crimes

O mundo das facções pode parecer distante para quem está do lado de fora das unidades prisionais, mas no fim de toda a teia criminosa são as pessoas que não têm envolvimento com atividades ilícitas que sofrem as consequências do que é imposto pelas organizações. Em Fortaleza, as pacificações das comunidades supostamente propostas pelos líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) já estão impactando na queda dos homicídios. Em contrapartida, têm sido decisivas para o aumento de roubos e do tráfico de drogas, conforme uma fonte da Inteligência da Polícia Militar do Ceará.

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O militar disse que o processo foi demorado, mas várias partes da cidade já foram 'pacificadas', incluindo a Sapiranga, Pirambu, Aerolândia, Papicu e Tancredo Neves. "Em todos esses territórios os resultados já podem ser vistos. O número de homicídios caiu, mas os roubos de veículo, por exemplo, aumentaram em mais de 50 %".

Segundo o PM, o movimento na reversão dos crimes de morte se dá porque o PCC dominou os presídios cearenses e determina o que deve ser feito. "Dentro dos presídios eles coordenam até quem vai ter direito à televisão e vai fazer a limpeza das alas nos dias de visita. Do lado de fora, os advogados deles são os intermediários para marcar encontros entre os chefes do crime de cada comunidade e propor o fim das mortes".

De acordo com o PM, o efetivo da Corporação é pequeno e quando há diminuição das mortes em um ponto, o policiamento ostensivo é deslocado para reforçar outras áreas mais críticas. "Quando o acordo de paz na Sapiranga foi selado, os homicídios caíram e as viaturas foram deslocadas para o Lagamar. Sem a Polícia, o tráfico rolou solto. A pacificação nada mais é eles terem entendido que não fazia sentido matar o usuário ou o 'avião' do tráfico e atrair a Polícia para dentro da comunidade. Nesses pontos onde as mortes diminuíram e consequentemente a presença da Polícia, temos registros de aumento de até 200% nos lucros do tráfico", disse o PM.

A fonte explica que dados estatísticos do Estado mostram que 9 entre 10 pessoas que são executadas tinham envolvimento com algum crime, especialmente homicídio, roubo, tráfico de drogas, porte ilegal de arma e formação de quadrilha. "Quando essas pessoas não são mortas, elas vão para a rua cometer o crime em que são especializadas, atendendo ordens do chefe de seu bairro, que por sua vez atende a ordens do PCC. Isto acontece, porque os membros da facção que estão do lado de fora têm obrigação de alimentar financeiramente a organização".

Sensação de insegurança

O militar afirmou, ainda, que isto já pode ser percebido nos números divulgados mais recentemente. "Os homicídios diminuíram e isto não trouxe a impressão que a cidade está mais tranquila. O que as pessoas chamam de sensação de insegurança, não é só uma sensação. O número de pessoas dispostas a roubar que estão nas ruas, nos últimos meses, é realmente maior. Mais casas estão sendo invadidas, mais carros roubados, mais pessoas estão sendo assaltadas".

Uma fonte da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) disse que o tráfico, em Fortaleza, é dominado pelo PCC. Nesse caso, os criminosos que agem em alguma organização atendem ordens da facção, mesmo que não sejam filiados oficialmente a ela. Porém, os criminosos que agem individualmente são mais adeptos ao Comando Vermelho (CV).

"O PCC é mais organizado do lado de fora dos presídios. Eles têm um estatuto com regras, que devem ser respeitadas e com direitos. O CV mantem alianças mais facilmente. Inclusive, foi o CV que primeiro se aliou aos 'Guardiões do Estado', que é uma facção local", declarou a fonte.

Um servidor da Polícia Civil disse que a facção 'Guardiões do Estado' foi criada há menos de um ano, no Conjunto Palmeiras, mas por ter sido percebida por facções maiores, passou a ter visibilidade e se expandiu para outros locais. "Era uma facção que agia apenas naquela área e que não tinha notoriedade. Depois de receber o suporte das maiores ganhou adeptos e passou a pintar muros divulgando o nome. Foi então que as coisas se complicaram, porque os criminosos de bairro passaram a fazer parte de uma coisa maior. Combater o crime organizado é muito mais difícil que combater o crime aleatório", disse.

Regras

A fonte da SSPDS disse que dentro dos presídios funciona uma espécie de 'mundo paralelo', onde as regras são diferentes. "As ações e decisões do PCC acontecem dentro das Cadeias. Lá eles decidem como os membros vão se organizar nas ações, dão ordens que são cumpridas aqui fora. Os reflexos destas decisões são sentidos nas ruas, mas são apenas um reflexo do que foi planejado lá. Não existe um PCC funcionando na rua, mas sim atendendo ordens dadas dos presídios", explicou o investigador.

O policial civil que conversou com a reportagem declarou que, neste momento, não existe uma guerra de facções nos presídios, mas uma união em retaliação, por conta da instalação dos bloqueadores de sinal de celular. "Eles estão unidos para pressionar. As mortes acontecem por conta de divergências que não são toleradas pelas facções, como as delações feitas à Polícia; desrespeitos ou descumprimentos de ordens dos comandos das facções; ou os chamados 'bocas de lata', que assediam as mulheres de outros presos. Eles mesmo promovem os 'tribunais' e 'julgam' de acordo com regras da Cadeia", afirmou.

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A reportagem teve acesso a um estatuto do PCC assinado por um preso. As regras devem ser respeitadas. Mas também apontamos direitos que os presos passam a ter depois que são “batizados” dentro das unidades prisionais