O Ministério Público do Ceará (MPCE) apura a suposta prática do crime de "rachadinha" na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema) de Monsenhor Tabosa, ao longo do ano de 2025. A investigação começou em abril deste ano, mirando o prefeito do município, Salomão (PT), e o ex-secretário da pasta, Tony Ferreira (PSB).
O PontoPoder buscou o MPCE para entender como estava o andamento do procedimento investigatório. O órgão não deu detalhes sobre o avanço da apuração desde abril e ressaltou que os trabalhos seguem em segredo de justiça.
O procedimento se originou de representações protocoladas perante a Procuradoria de Justiça dos Crimes Contra a Administração Pública (Procap) do MPCE por ex-servidores comissionados da secretaria. Os relatos apontam que a devolução parcial dos salários ocorria de forma contínua e sob coação, com a ameaça de perda dos cargos.
Um dos ex-funcionários atuou na Sema entre abril e novembro de 2025, com uma remuneração bruta mensal de R$ 1,9 mil. Contudo, na prática, ele recebia efetivamente cerca de R$ 900, segundo a denúncia. O restante era repassado em espécie a Tony Ferreira. Ao longo do período em que permaneceu no cargo, a quantia retida somou aproximadamente R$ 8 mil, conforme o relato da vítima.
Outra servidora comissionada manteve contrato por período similar, de fevereiro a novembro do ano passado. Enquanto a remuneração oficial chegava a R$ 3 mil, o saldo salarial efetivo ficava em torno de R$ 2 mil, devido à obrigação de devolver um valor fixo de R$ 1 mil mensalmente. Os comprovantes anexados à denúncia indicam um desvio acumulado de R$ 9 mil.
Uma das pessoas denunciantes foi chamada para prestar depoimento sobre o caso em duas ocasiões: a primeira na Promotoria de Justiça de Monsenhor Tabosa, em agosto, e a segunda na própria sede da Procap, em Fortaleza, durante o mês de outubro. Apesar disso, não há indicativos públicos de uma conclusão célere do caso. As denúncias também foram levadas à Justiça do Trabalho, a fim de reaver os proventos supostamente cedidos ao então secretário e benefícios como 13º salário e férias e de contestar a "exoneração sem aviso prévio".
Nas petições encaminhadas ao MPCE, os denunciantes sustentam que o prefeito "detinha pleno conhecimento da prática ilícita, anuindo e permitindo a continuidade da negociata, sem adotar qualquer providência para cessar as ilegalidades ou responsabilizar os envolvidos".
O que diz o prefeito
Em contato com o PontoPoder, na figura do seu chefe de gabinete, Toinho Sampaio, o chefe do Poder Executivo Municipal negou a acusação sobre anuência e afirmou que tomou os procedimentos cabíveis em agosto deste ano, quando teve ciência das denúncias. Entre os encaminhamentos, está a exoneração do então secretário municipal do Meio Ambiente, decisão administrativa que “não implica reconhecimento da procedência dos fatos objeto da investigação”.
A gestão ainda evitou “antecipar qualquer juízo sobre responsabilidades individuais ou sobre o resultado da investigação” e se colocou à disposição do Ministério Público para prestar todos os esclarecimentos necessários. “A Administração Municipal reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência, a responsabilidade na gestão pública e o respeito às instituições de controle e fiscalização”, declarou, em nota enviada ao PontoPoder.
A reportagem não conseguiu localizar o ex-secretário Tony Ferreira. O espaço está aberto para manifestações.