A segunda etapa da eleição presidencial no Ceará, no último domingo (25), foi marcada pelo comparecimento ostensivo de um público que não tem o voto como uma obrigação legal, mas que fez questão de exercê-lo: a população idosa com idade superior aos 70 anos.
Ao que diz a Constituição Federal de 1988, o alistamento eleitoral e o voto são facultativos para aqueles que não são alfabetizados, os que são maiores de dezesseis e menores de dezoito anos, além dos que acumulam em sua biografia mais de sete décadas de vida.
'Um voto faz diferença'
Uma dessas pessoas foi João Ernandes Evangelista, 86 anos, que foi até sua seção na sede da Secretaria da Saúde do Ceará, na Praia de Iracema, em Fortaleza, antes mesmo da votação começar. À equipe do Diário do Nordeste, ele afirmou que sua ida ao local, logo cedo, se deu por ter "outras obrigações" no restante do dia.
"Acho que é muito importante a votação, se o país não faz bem, procura-se uma melhora", justificou o eleitor octogenário. Ernandes revelou que há muito tempo não ia votar. "Faz mais ou menos uns 10 ou vinte anos [que não voto]", destacou.
Já Mirian Costa Lima, de 76 anos, foi votar no Círculo Militar, no bairro Meireles, na Capital. "Sempre venho", justificou ela ao ser questionada pela reportagem, no domingo. A eleitora também falou que compareceu ao primeiro turno e que comparecerá a futuras eleições sempre que possível.
Segundo ela, que disse comparecer em toda votação mesmo com dificuldade de locomoção, o voto confiado ao seu candidato tem uma importância na totalização. "Quero que meu candidato ganhe e às vezes um voto só faz diferença", salientou.
Familiares e amigos se mobilizaram
Em alguns casos, a solidariedade foi essencial para possibilitar o acesso de eleitores com mais de 70 anos às urnas. Um deles foi o da professora Roberta Maia, que levou sua avó e mais dois vizinhos aos locais de votação.
Ao que ela explicou, a mobilização aconteceu devito à "importância do momento político" e os esforços necessários para reduzir a abstenção.
"Por isso, me disponibilizei a levar minha avó e um casal de irmãos vizinhos dela. Nenhum dos três tinham ido votar no primeiro turno e decidiram ir no segundo turno, por compreenderem a importância dessa contribuição para o processo eleitoral", explicou ela à reportagem do Diário do Nordeste.
A educadora disse que entende sua contribuição como um "exercício de cidadania". "A atitude deles de ir votar, para mim, é algo muito mais importante, pois demonstra a vontade de ainda poder participar dos processos políticos que decidem o futuro da sociedade, compreendendo que eles possuem direitos que precisam ser garantidos e também necessidades que precisam ser supridas", completou.
Lúcia Chaves foi outra pessoa que se mobilizou para levar uma familiar para votar, sua tia, Antônia Chaves, de 90 anos. Segundo ela, sua tia vota em todas as eleições, mas não compareceu ao primeiro turno. "Dessa vez, ela mesma pediu que eu a levasse, pelo desejo de votar em Lula", disse a entrevistada.
"Toda a família ficou comovida com a atitude dela. Não só a família, como também as pessoas que estavam no momento", completou. Lúcia afirmou que, por conta da mobilidade reduzida da tia, mesários e responsáveis pela operação na escola em que foi votar ajudaram a conduzir a eleitora até a seção, em Crateús, interior do Ceará.
O mesmo aconteceu com a humorista cearense Karla Karenina, que levou a avó Maria Sá, de 101 anos, para votar, depois de algumas eleições sem ir. "Quando soube que Lula não havia ganhado o primeiro turno, ela se interessou em ir votar", explicou a neta.
"Ela mobilizou os parentes mais próximos do dia a dia dela e começou a preparação. O título dela foi achado e ainda tava válido, ela pediu pra providenciar uma roupa com as cores vermelha e branca", contou.
A disposição da eleitora emocionou os familiares. "Para nós que convivemos com ela e sabemos da sua lucidez foi motivo de orgulho e exemplo de cidadania. A emoção foi muito grande para nós que fomos acompanhá-la nesse momento histórico", detalhou.
A preparação para esse momento incluiu até um treinamento para que sua avó pudesse usar a urna eletrônica, uma tecnologia inovadora do sistema eleitoral brasileiro instituída em 1996. "Ela havia treinado em casa com uma simulação do teclado. Ela se admirou de como foi simples", comentou Karla.
Título cancelado
Houve ainda quem tentou votar e não conseguiu por conta do cancelamento do Título de Eleitor. Foi o caso de Raimunda Delmiro, de 98 anos, moradora do Crato, que foi acompanhada da neta Priscila Delmiro, após dez anos sem comparecer a um pleito.
"Fomos até o local de votação dela, e o número do título não entrou na máquina. Fomos até a presidente da seção, ela pesquisou na internet e o título dela estava cancelado", contou a familiar de dona Raimunda.
O cancelamento do documento pode ocorrer em situações como quando o eleitor deixa de comparecer a uma revisão do eleitorado determinada pela Justiça Eleitoral.
Por isso, a situação cadastral de cada pessoa deve ser consultada nos canais oficiais do TSE ou no cartório eleitoral. A regularização pode ser requerida virtualmente pelo Autoatendimento Eleitoral ou de maneira presencial.
Direito ao voto
Essa mesma parcela da população com voto facultativo e que foi às urnas em 2026 para eleger o responsável pela condução da Presidência da República pelos próximos quatro anos integra uma geração que não pôde exercer este direito entre 1964 e 1988, em razão da eliminação das eleições diretas pela ditadura militar.
De acordo com dados da Justiça Eleitoral, 390,4 mil pessoas com 70 anos ou mais foram às urnas no primeiro turno das eleições no Ceará. Esse quantitativo equivale a 61,05% dos 639,5 mil eleitores deste recorte demográfico aptos em todo o estado.
As informações sobre o perfil do eleitorado que compareceu na segunda fase do pleito ainda não havia sido divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na manhã desta terça-feira (27).