Pelo menos 1.333 pessoas idosas estão em situação de rua na capital cearense. Os dados, referentes a pessoas beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em 2025, foram divulgados pelo Observatório da Pessoa Idosa, plataforma lançada pela Prefeitura de Fortaleza neste mês.
A pesquisa é dividida em sete eixos e 49 indicadores, e busca traçar um olhar mais atento às desigualdades vividas pela população idosa da Capital, com o intuito de contribuir para a criação e o aprimoramento de políticas públicas.
Segundo levantamento feito pela reportagem com base nos dados do Observatório, o número de pessoas idosas em situação de rua que recebiam o benefício no ano passado é quase o dobro do registrado em 2023, quando o número era de 740. Em 2024, eram 1.045 pessoas idosas na mesma situação.
O BPC é um benefício assistencial que garante um salário mínimo por mês para pessoas com idade igual ou superior a 65 anos e pessoas com deficiência de qualquer idade que comprovem, em ambos os casos, ser de família de baixa renda. Diferentemente da aposentadoria, para ter direito ao benefício, não é preciso ter contribuído com o INSS.
Esses índices representam o recorte mais vulnerável da população idosa de baixa renda da Capital, que é muito mais numerosa. Atualmente, 177.747 pessoas com mais de 60 anos que moram em Fortaleza estão inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal. O número corresponde a 14,3% de todas as pessoas inscritas no CadÚnico na Capital.
As desigualdades sociais, sobretudo raciais, são demonstradas no recorte de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade. Das pessoas idosas inscritas no CadÚnico, 87% se declaram pretas e pardas. Em relação ao recorte de gênero, 63,9% são mulheres.
Questionada sobre o aumento de pessoas idosas em situação de rua, a coordenadora de Assistência Social da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social de Fortaleza (SDHDS), Iracema Machado, afirma que o crescimento foi influenciado por uma série de fatores.
“Tanto as pessoas estão envelhecendo mais, como a gente, depois da pandemia, teve um empobrecimento populacional. Então, muitas pessoas perderam suas moradias, perderam suas referências, e acabaram ficando em situação de rua”, explica.
Iracema destaca que, além disso, o principal motivo pelo qual as pessoas estão em situação de rua, de forma geral, são os conflitos familiares, que impedem o fortalecimento de uma rede de apoio em momentos de dificuldade.
“Esses conflitos acabam decorrendo muito do uso de substâncias psicoativas de forma abusiva, de forma permanente; de várias situações de transtorno mental; da questão mesmo das fragilidades dos vínculos familiares – por exemplo, quando era criança, o pai não cuida do filho, então o filho também não acha que tem responsabilidade posteriormente com o pai”, explica.
De acordo com Iracema Machado, a Prefeitura tem ampliado políticas públicas para atender à população idosa, com atenção especial aos que estão em situação de rua.
Ela cita como iniciativas voltadas para esse público a previsão da ampliação do número de Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros Pop) – uma nova unidade deve ser inaugurada no Papicu ainda em 2026 – e de vagas em pousadas sociais, que devem ir de 240 para 300, nos próximos meses.
“Nós vamos ampliar a rede da proteção de média complexidade, que é a proteção que trabalha os Centros Pop, que trabalha um atendimento que não é um atendimento tão integral como é o acolhimento – o acolhimento proporciona alimentação, todos os outros cuidados, enquanto que o Centro Pop é um atendimento mais diário, mais cotidiano”, detalha. Nos Centros Pop, um dos principais focos é o acesso à higiene.
Iracema ainda cita a requalificação dos espaços de acolhimento e a ampliação das vagas de aluguel social – atualmente 170 – como medidas que também beneficiam a população idosa em situação de rua, mas ressalta que a cidade “ainda precisa de muito mais” pela alta demanda.
Segundo ela, há cerca de 11 mil pessoas em situação de rua em Fortaleza atualmente, índice que coloca a capital cearense como a quarta com mais pessoas em situação de rua do Brasil.
Os dados do Observatório, segundo Iracema, serão a base para que a Secretaria tente “trabalhar o máximo possível para reverter essas complexidades”. “São pessoas que precisam de oportunidades de reorganizar suas vidas”, pontua.
Fatores diferentes levam homens e mulheres à situação de rua
Diariamente, diferentes instituições não-governamentais, muitas delas de cunho religioso, buscam aplacar a fome e conceder mais dignidade à população de rua da Capital. Entre elas está o Grupo Espírita Casa da Sopa, em atuação há 31 anos.
Localizada no Centro de Fortaleza, a organização fornece 100 refeições gratuitas diariamente, além de objetos de higiene básica e de um espaço de educação popular que inclui aprendizagem e outras atividades, como oficinas artísticas, rodas de conversa e acolhimento terapêutico, a Escola Mandacaru.
Socióloga e coordenadora administrativa da Casa da Sopa, a professora Lídia Valesca Bonfim Pimentel pontua que muitos dos atendidos pela instituição são idosos – tanto pela idade considerada pela lei quanto pelo envelhecimento precoce que a situação de rua provoca. Ela explica que há muitos beneficiários que, na faixa dos 50 anos, já estão profundamente envelhecidos pelos anos de vida precária.
“Eu tenho mulheres aqui de 50 anos que têm uma fisionomia de idosa. Temos mulheres – e homens também – que têm um processo de envelhecimento muito rápido”, explica.
Segundo dados do Observatório da Pessoa Idosa, as mulheres são maioria entre os idosos de baixa renda na Capital, e representam 63,9% das pessoas idosas inscritas no Cadastro Único. Lídia Valesca explica que, entre as atendidas pela Casa da Sopa, muitas foram parar na rua por falta de autonomia financeira após perda de familiares e problemas com questões patrimoniais.
“Já escutei várias histórias assim: ‘eu morava com meu meu pai e minha mãe, meu pai e minha mãe morreram, eu já estava com uma certa idade, aí meus irmãos ou alguém ficou com a casa, e não me deu direito à casa’. Aí a pessoa ficou sem rede familiar”, relata Lídia.
Em muitos desses casos, de acordo com a socióloga, as mulheres não exerciam funções laborais por serem as cuidadoras de seus parentes mais velhos.
“Nos homens, a gente já vê outra realidade. A gente vê o perfil de pessoas com uso abusivo de substância, principalmente álcool”, completa. A solidão e o sofrimento mental, em ambos os sexos, também são fatores que, quando não levam à rua de fato, dificultam a superação dessa situação. “A rua tanto recebe pessoas que estão em sofrimento mental e vão parar na rua, como a própria rua adoece”, ressalta Lídia.
Maioria da população de rua está no Centro
A socióloga Lídia Valesca aponta que, como em muitas outras capitais, a população em situação de rua da capital cearense está majoritariamente localizada no Centro da cidade, com o intuito de ter acesso a serviços básicos ofertados pelos órgãos públicos e pelas instituições de caridade. No caso dos idosos, alguns recebem aposentadoria ou BPC e conseguem até alugar quartinhos precários na região.
“O fato de a pessoa estar dormindo num lugar desses não quer dizer que ela não está em situação de rua, porque a gente vai entender que a situação de rua não é só dormir no chão da praça, e debaixo da marquise. É viver e sobreviver do espaço público”, explica.
De acordo com Lídia, muitas dessas pessoas têm acesso a benefícios sociais, mas não conseguem viver apenas com eles. “Alguns estão endividados, com empréstimos, e precisam pagar aluguel. Um aluguel no Centro de Fortaleza, nesses lugares precários, é entre R$ 400 e R$ 500”, contextualiza.
“Aí você diz: ‘por que que ele paga caro morando no Centro de Fortaleza, nesses lugares?’ Porque o Centro tem vários dispositivos, públicos e privados de atendimento, como o restaurante popular. Se eu venho para o Centro, eu tenho uma rede de serviços que garante alguns direitos. E o principal deles é o direito à segurança alimentar”, completa.
A situação ilustra, para a socióloga, a necessidade de descentralização dos espaços de atendimento, já que muitos vão para a rua porque não têm apoio em seus territórios.
Apesar das questões próprias da capital cearense que dificultam a superação de rua, Lídia Valesca vê o problema como uma questão muito mais ampla, pautada principalmente na disparidade socioeconômica vivida pela população.
“A situação de rua vem crescendo muito, principalmente, em função do modelo socioeconômico do mundo, isto é, o neoliberalismo. São pessoas que não conseguem mais voltar pro mundo do trabalho, porque as pessoas em situação de rua têm baixíssima qualificação, em termos de escolaridade”, aponta.
“O último Censo, de 2021, feito pela Prefeitura, dizia que 17% da população em situação de rua não sabia ler e escrever. Esse dado é maior do que a média nacional, muito maior”, relembra Lídia.
“Quando você pega essa população de pessoas com baixíssima escolaridade, pessoas que têm algum nível de sofrimento mental, com uso abusivo de substância, quando você junta essas coisas todas, essa pessoa não consegue se inserir no mundo do trabalho. E aí ela vai precarizando a vida”, conclui.