A tribuna da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), nesta quarta-feira (28), teve os discursos dominados pela recente fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil. Candidato derrotado na disputa pela presidência da República, ele chegou nos Estados Unidos durante a manhã desta quarta.
Flávio Bolsonaro teve os passaportes comum e diplomático suspensos após pedido da Polícia Federal. Apesar disso, ele conseguiu sair do Brasil sem ser registrado nos postos migratórios. Ele seguiu para a Argentina, de onde saiu em aeronave particular, que fez escala no Equador sem sobrevoar o espaço aéreo brasileiro.
Os deputados estaduais cearenses se dividiram sobre o tema. Houve quem enfatizasse que a fuga de Flávio Bolsonaro ocorreu por conta de investigações contra o senador — que perde o foro privilegiado em fevereiro de 2027.
Parlamentares refutaram a narrativa de "perseguição política", que vem sendo adotada por aliados de Flávio, e usaram como argumento o fato do PL ter conquistado as maiores bancadas tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal.
Entre apoiadores de Flávio, houve críticas ao pedido de apreensão do passaporte do candidato derrotado e também à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro Alexandre de Moraes.
Parlamentares também citaram salmos bíblicos para Flávio e disseram que "quase metade dos brasileiros" estão em oração pelo senador.
Investigação contra Flávio Bolsonaro
O deputado estadual Renato Roseno (Psol) foi o primeiro a falar sobre a fuga de Flávio do país. "Há de se reconhecer que Flávio Bolsonaro teve quase 60 milhões de votos. E, a exemplo daquele personagem da famosa novela Vale Tudo, ele deu uma banana para os brasileiros que o apoiaram", disse o parlamentar.
"Ele não sai do Brasil perseguido politicamente. Ao contrário. O seu partido fez a maior bancada do senado, 29 senadores. O seu partido fez a maior bancada da câmara federal, 121 deputados federais. Não me vem aqui a conta de quantos deputados estaduais, mas certamente algumas centenas de deputados estaduais no PL. Ele se voltou e deu as costas a estas pessoas. Ele deu as costas a 60 milhões de eleitores que depositaram confiança nele, aos 29 senadores, aos 121 deputados federais, dentre os quais seus irmãos".
O parlamentar reforçou ainda que a fuga ocorre porque Flávio "tem conta no cartório". Roseno cita investigações contra o senador por lavagem de dinheiro, incluindo suspeitas em torno do advogado Willer Tomaz, apontado como sócio de Flávio.
O deputado De Assis Diniz fez discurso semelhante sobre o assunto. "O que levou Flávio Bolsonaro a fugir do Brasil, de forma clandestina, são as ações que nós agora vamos ter o pulso dessas apurações", disse.
"Não é ditadura, é corrupção que leva Flávio Bolsonaro a fugir de forma melancólica para fora do Brasil. E ele é cínico, ele é um canalha, porque de manhã grava que não tem a menor hipótese de discussão de fugir do Brasil".
Oração e citação à bíblia
A deputada estadual Dra. Silvana (PL) criticou os "insultos" proferidos contra Flávio Bolsonaro. "É no mínimo deselegante, até porque quando você ataca quando você oprime uma população, essa população inconformada, ela reage de alguma forma", disse.
Dra. Silvana afirmou não saber onde estava o senador, mas garantiu que "pelo menos quase metade dos brasileiros estão sim orando pelo grande líder Flávio Bolsonaro".
"Eu peço a Deus que ele seja protegido de todo mal", disse e, em seguida, dedicou o Salmo 124 a Flávio.
Na sequência, a parlamentar questionou a decisão do Supremo sobre o passaporte do candidato derrotado. "A verdade tem que ser dita: está irregular, está errado", disse.
As críticas ao Supremo Tribunal Federal também estiveram presentes nos discursos de outros parlamentares.
Felipe Mota (PSDB) falou sobre o fato de que, "7 minutos após a proclamação do resultado" da disputa presidencial, havia uma decisão do STF a respeito do passaporte de Flávio Bolsonaro — contudo, o que ocorreu 7 minutos depois do TSE confirmar a derrota de Flávio, foi o pedido da Polícia Federal por indícios de fuga do candidato derrotado.
"Isso me fica uma preocupação das instituições, do equilíbrio das instituições do nosso país", disse. O deputado afirmou ainda que "as decisões monocráticas do STF", durante todo o período eleitoral, "desmoralizaram" outras instituições como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O deputado Cláudio Pinho (PSDB) também questionou o pedido de apreensão dos passaportes de Flávio Bolsonaro. "Será que isso é justo?", indagou. "Esses abusos também mostram que a sociedade precisa amadurecer, as instituições precisam amadurecer".
"Aqui não estou fazendo a defesa de seu ninguém. Se ele acertou, se errou, se fugiu, se não fugiu. A verdade é que está postos aí, todos nós estamos vendo o que está acontecendo no Brasil por conta dessa polarização que abrange e atinge famílias, atinge a Justiça, atinge esta Casa, atinge o Poder Executivo, atinge o Congresso Nacional e atinge toda a sociedade".