Senhora, não. Rainha

A convivência educa mais que qualquer manual de 10 passos.

Escrito por
Eliziane Correia eliziane.correia@svm.com.br
Legenda: Na rotina da vida, muito mais do que aquilo que dizemos, nossos filhos aprendem com aquilo que fazemos.
Foto: Breno Cardoso\Pexels.

O sucesso da maternidade quase nunca aparece nas grandes cenas. Ele está, muitas vezes, nas entrelinhas. Naquele espaço de tempo que, de repente, nos faz sentir orgulho por cada escolha, por cada sacrifício, por cada oração.

Enquanto criamos nossos filhos, fazemos planos o tempo inteiro. O que fazer. O que não fazer. O que permitir. O que evitar. A lista existe e nem sempre é totalmente seguida. E sabe por quê? Porque não somos perfeitos. Foi assim que aprendi a não me cobrar tanto. 

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Sei como é difícil olhar para as famílias aparentemente perfeitas do Instagram, para os relatos de sucesso nos grupos de mães e não se comparar. Não pensar que alguém está fazendo melhor. Não sentir que deveríamos estar fazendo mais. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, estamos fazendo o melhor que podemos pelos nossos filhos.

Minha filha me lembrou exatamente disso em um dia comum. Uma noite qualquer. Depois de um dia cansativo de trabalho, supermercado, compromissos, treino. Eu estava finalizando o lanche da tarde quando pedi para minha pequena levar minha xícara até a pia.

Ela me olhou com aqueles olhos grandes e brilhantes e respondeu:

- “Levo, sim, senhora!”

E, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, completou:

- “Senhora, não. Rainha!”

Eu ri. Mas, por dentro, alguma coisa parou. A alegria tomou conta da nossa sala. Não tinha câmera para registrar. Não postei no Instagram. Não virou conteúdo. Não viralizou. Mas aquele pequeno gesto virou memória. Porque, naquele instante, minha filha me deu um presente que eu nem sabia que precisava. Um lembrete de que estou indo bem.

Muito mais do que aquilo que dizemos, nossos filhos aprendem com aquilo que fazemos. Eles observam a gentileza que temos com alguém na fila do supermercado. O pedido de desculpas. O abraço depois de um dia difícil. O “eu te amo” dito sem data especial. A forma como lidamos com a frustração, com o cansaço, com os nossos próprios erros.

É esse repertório que entregamos a eles.

Nossos filhos vão carregar os gestos que testemunharam, os sentimentos que experimentaram, a segurança que encontraram em nossa presença. Por isso, é importante olhar mais para o hoje.

Não adianta passar a infância inteira tentando construir o adulto perfeito do futuro se, na pressa de chegar lá, falta o principal no presente: presença.

A maternidade não precisa ser um projeto impecável. Ela precisa ser vivida. Com erros. Com acertos. Com cansaço. Com recomeços. Com colo. Com limites. Com pedidos de desculpas. Com risadas inesperadas no meio de uma noite qualquer. E, às vezes, com uma pequena voz dizendo: “Senhora, não. Rainha.”

Um pequeno coração nos lembrando, do jeito mais bonito, que estamos no caminho certo.