O que fazer com os nossos lutos?
Não existe um tempo definido para nos (re)encontrarmos novamente em um caminho seguro.
A morte de um ente querido. De um amor. De uma esperança. De histórias que começaram dentro de nós e jamais se tornaram realidade. A obrigação de deixar na estrada da vida um desejo. Tantas vezes pedaços nos são arrancados e precisamos prosseguir de alma amputada.
Seguimos, então, colecionando memórias de quem partiu, às vezes por morte, outras, em vida. Memórias de nós. Questionamo-nos: o que fazer com nossos lutos? Quantos deles precisamos passar ao longo da vida? O que fazer com as memórias que ficam de quem partiu — já que tantas são também as nossas?
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Quando nos despedimos de quem amamos algo muda dentro de nós. Não somos jamais os mesmos. A alma precisa encontrar um ponto de partida para seguir viagem. Não existe um tempo definido para nos (re)encontrarmos novamente em um caminho seguro.
A viagem da vida segue seus rumos de rotina, e tantos que nos olham de fora jamais percebem o que lateja entre os olhos e o coração. O que há por fora resiste, sorri, aceita, caminha, segue firme (?) performa… mas por dentro há revoluções que não têm hora para se instalar no peito. Apenas permanecem.
Algumas pessoas morrem. Outras vão embora em vida, desaparecem e deixam vazios irreparáveis. Algumas tantas se transformam, perdem a essência de quem foram um dia, e precisamos nos adaptar a novas histórias, novas expressões de existir.
Há pessoas que, ainda presentes neste mundo, são retiradas de nós, pois nem sempre a vida nos dá opções, segue um rumo arbitrário que não mede o tamanho dos nossos desafios. Silenciamos vazios porque barulhar (nem sempre) reconstrói raízes.
Existem ainda aquelas pessoas de quem nos retiramos por motivos que causam dores ainda maiores que a ferida de partir. Porque precisamos, cada vez mais, ter certeza de que não merecemos apenas sobreviver, mas, sim, sentir uma vida com qualidades de tempo, amor, cuidado, leveza — e muito disso começa em nós quando nos despedimos de pessoas, situações ou lugares.
Restam, dos nossos muitos lutos na vida, roupas, sapatos, aquela música; o apelido, as histórias e causos de família; o canto vazio na mesa do café... Ficam as saudades que não sabemos combater, mas que também nos ensinam porque elas são variadas.
Nem todo dia sentimos a mesma saudade de quem partiu. Há dias em que amanhecemos com uma falta desconhecida, e com ela precisamos lidar. Traçamos então uma rota para aprender a reconhecê-las.
É um processo de tempos que não se medem, não se contam. Não há uma única resposta correta sobre o que fazer com os lutos da vida, mas uma delas certamente sempre será: buscar alívios dentro de nós. Que assim seja.