O RH vive o fim da era dos benefícios engessados

Escrito por Gustavo Chehara producaodiario@svm.com.br
30 de Maio de 2026 - 06:00
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Legenda: Gustavo Chehara é empresário

Durante muitos anos, os benefícios corporativos seguiram uma lógica relativamente simples. As empresas estruturavam pacotes padronizados, ofereciam os mesmos produtos para todos os colaboradores e entendiam isso como parte natural da remuneração. Funcionou por bastante tempo. Mas o mercado de trabalho mudou, e o comportamento das pessoas mudou ainda mais rápido.

A nova geração de profissionais não enxerga benefícios da mesma forma que as anteriores. Hoje, existe uma expectativa muito maior de flexibilidade, autonomia e personalização. O colaborador quer participar das escolhas. Quer entender como aquele investimento pode fazer sentido para a própria realidade e não apenas aceitar um pacote fechado definido pela empresa.

Isso já começa a aparecer de maneira muito clara dentro das operações. Há profissionais que preferem um plano de saúde mais enxuto para direcionar parte desse valor a benefícios ligados ao seu estilo de vida, como assistência para pets. Outros, em modelos híbridos, praticamente não utilizam vale-transporte e preferem converter esse recurso em mobilidade própria ou em outros formatos de benefício que façam mais sentido para sua rotina.

O ponto central é que o benefício deixou de ser apenas uma obrigação corporativa e passou a ocupar um espaço muito mais estratégico na percepção de valor do colaborador. Em muitos casos, ele pesa tanto quanto remuneração, cultura ou perspectiva de crescimento na decisão de entrar ou permanecer em uma empresa.

Essa transformação acompanha uma mudança geracional importante. Profissionais da Geração Z e os mais jovens da geração millennial já representam uma parcela dominante da força de trabalho e carregam uma relação diferente com carreira, consumo e qualidade de vida. São profissionais que valorizam liberdade de escolha, experiências mais individualizadas e relações menos engessadas com o trabalho.

O reflexo disso chega diretamente ao RH e também ao financeiro das empresas. Porque flexibilizar benefícios não significa simplesmente aumentar custos ou abrir mão de controle. Pelo contrário. Quando existe inteligência na gestão, análise de dados e entendimento do perfil dos colaboradores, a personalização pode trazer mais eficiência para o investimento e melhorar a percepção de valor sem necessariamente elevar orçamento.

Esse movimento começou nas grandes corporações, especialmente nas empresas mais ligadas à tecnologia e inovação, mas hoje já avança de forma acelerada entre médias e até pequenas empresas. Existe uma pressão cada vez maior por retenção de talentos e competitividade, principalmente em mercados onde a disputa por profissionais qualificados se tornou mais intensa.

Ao mesmo tempo, o próprio mercado de benefícios passou por uma expansão significativa. Surgiram novos produtos, novas plataformas e soluções muito mais adaptáveis. Benefícios

ligados à saúde mental, educação, bem-estar, mobilidade e estilo de vida já fazem parte da estratégia de muitas empresas e devem ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.

Na prática, estamos vendo o fim de uma lógica única de benefício corporativo. O modelo padronizado começa a perder força diante de um cenário em que pessoas têm rotinas, prioridades e estilos de vida completamente diferentes entre si.

Essa não parece ser uma mudança passageira. É uma evolução estrutural da relação entre empresas e colaboradores. E as organizações que entenderem isso mais cedo terão vantagem não apenas na atração de talentos, mas principalmente na construção de vínculos mais duradouros, sustentáveis e alinhados ao que o mercado de trabalho passou a exigir.

Gustavo Chehara é empresário 

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