Loura que Te Quero Verde

É preciso incentivar o plantio e manutenção de espécies nativas, adaptadas ao nosso clima, em lugares apropriados e da forma correta

Escrito por Marcus Vinícius Amorim de Oliveira producaodiario@svm.com.br
13 de Abril de 2026 - 06:00
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Legenda: Promotor de Justiça do MPCE, Professor Universitário e Doutor em Ciências Jurídico-Criminais pela Universidade de Coimbra

Caminhar por Fortaleza é sentir o calor que irradia do asfalto. Essa sensação, cada vez mais intensa com as mudanças climáticas, expõe a insuficiência de arborização na cidade, uma crônica falha de planejamento. A loura desposada do sol, como descreveu Paula Ney, se tornou, em muitas áreas, uma capital do concreto. O resultado é qualidade de vida em declínio.  

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, 59,7% da população de Fortaleza moram em vias com presença de árvores. Embora seja a melhor marca entre as capitais do Nordeste, está abaixo da média nacional, que é 66%. Em Campo Grande, o índice é de 91,4%. Décadas de um urbanismo que privilegiou o automóvel em detrimento do pedestre e a verticalização desenfreada sem a devida compensação ambiental criaram “ilhas de calor”, onde a temperatura pode ser vários graus mais alta do que em áreas mais verdes. Quem frequenta o parque do Cocó percebe.   

 No entanto, um horizonte de mudança se desenha. O recém-lançado Plano Nacional de Arborização Urbana pelo governo federal é um chamado à ação, oferecendo diretrizes e, espera-se, recursos para que municípios como Fortaleza possam avançar na “verdificação”. O Ministério Público do Ceará, em que há procedimento para acompanhar e fiscalizar a política de arborização na capital, permanecerá atento a essa questão para exigir melhorias na arborização dos espaços públicos em busca de melhor conforto térmico para todos os cidadãos.   

 Afinal, não se trata apenas de plantar árvores. É necessário criar corredores verdes que conectem os parques, observar o Plano Diretor para resguardar as áreas com matas e florestas e exigir mais permeabilidade em novos empreendimentos. É preciso incentivar o plantio e manutenção de espécies nativas, adaptadas ao nosso clima, em lugares apropriados e da forma correta. E, de modo especial, revisar os atuais critérios de autorização para cortes e podas de árvores.   

Transformar Fortaleza em cidade genuinamente verde não é só questão estética, mas de saúde pública, justiça climática e inteligência urbana. O verde não é obstáculo para o desenvolvimento urbano ou inconveniente de engenharia. É elemento importante da infraestrutura da cidade e fator ecossistêmico fundamental que diz respeito a todos os seres que nela vivem. O melhor presente que podemos dar à nossa cidade em seu tricentenário é um legado de sombra, ar fresco e bem-estar para as próximas gerações.

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