Inclusão de estudantes neurodivergentes no ensino superior

Historicamente, a universidade foi organizada a partir de um modelo homogêneo de ensino, que privilegia determinados padrões cognitivos, comunicacionais e comportamentais

Escrito por Ana Virginia Aragão producaodiario@svm.com.br
04 de Maio de 2026 - 06:00
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Legenda: Professora e Psicopedagoga

A inclusão de estudantes neurodivergentes no ensino superior precisa ser compreendida como um compromisso estruturante das instituições acadêmicas, e não como uma ação pontual ou assistencialista. Em um cenário educacional que se pretende democrático, reconhecer a neurodiversidade — que abrange condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia, entre outras — é reconhecer que há múltiplas formas legítimas de aprender, interpretar e produzir conhecimento.

Historicamente, a universidade foi organizada a partir de um modelo homogêneo de ensino, que privilegia determinados padrões cognitivos, comunicacionais e comportamentais. Esse modelo, ainda predominante, tende a invisibilizar estudantes que não se encaixam nesse perfil, gerando barreiras que vão desde dificuldades de acesso à aprendizagem até impactos significativos na permanência e na saúde mental. Não se trata, portanto, de uma limitação individual, mas de uma inadequação estrutural do próprio sistema educacional. Do ponto de vista técnico, a inclusão exige a adoção de princípios como o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), que propõe a diversificação de estratégias pedagógicas, de modos de apresentação do conteúdo e de formas de engajamento e avaliação.

Além disso, implica flexibilização curricular responsável, acessibilidade pedagógica e investimento contínuo na formação docente. O professor do ensino superior, nesse contexto, deixa de ser apenas transmissor de conteúdo e passa a atuar como mediador, curador do conhecimento e facilitador de processos de aprendizagem diversos. É necessário, ainda, deslocar o foco da adaptação do estudante para a responsabilidade institucional. A ideia de que o aluno deve “se ajustar” à universidade reforça práticas excludentes e desconsidera o papel da educação como promotora de equidade. Incluir estudantes neurodivergentes significa, sobretudo, revisar concepções arraigadas sobre inteligência, desempenho e normalidade acadêmica.

Defender a inclusão é, portanto, defender a qualidade do ensino superior. Ambientes diversos favorecem o pensamento crítico, a inovação e a produção de conhecimento mais sensível às complexidades sociais. Trata-se de um posicionamento que envolve dimensões pedagógicas, éticas e políticas, e que exige compromisso real das instituições com a construção de uma universidade mais plural, acessível e socialmente responsável.

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