Educação: caça às bruxas

Escrito por Davi Marreiro producaodiario@svm.com.br
26 de Maio de 2026 - 06:00
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Legenda: Consultor pedagógico
A divulgação dos resultados da primeira edição da Prova Nacional Docente (PND) abriu um debate necessário, mas também perigosamente parecido com antigos mecanismos de caça às bruxas. Os números chamam atenção: 35% dos participantes não atingiram o nível mínimo de proficiência, e a Matemática apresentou o pior desempenho entre as áreas avaliadas. Bastou isso para que começasse a busca acelerada por culpados.
 
E toda caça às bruxas começa da mesma maneira: primeiro se estabelece a convicção de que existe um inimigo; depois, escolhem-se rostos para carregar o fracasso coletivo.
Agora, os novos feiticeiros serão os professores? Mais uma vez, ergue-se a velha ilusão de que basta lançar alguns nomes à fogueira para purificar o reino. Enquanto as tochas iluminam apenas a sala de aula, o que continua se movendo nas sombras? Seria apenas o professor o responsável pelo fracasso ou existe um desastre metodológico silencioso atravessando as próprias licenciaturas, uma formação que separa domínio técnico de competência pedagógica? E se as feiticeiras mais perigosas nem estiverem diante da lousa? Li algumas notícias que incendiavam o ensino a distância.
 
Afinal, no debate sobre a PND, a primeira distorção é colocar toda a lupa apenas sobre a sala de aula. Ao mesmo tempo, existe outro erro igualmente nocivo: criar um escudo corporativo que impede qualquer crítica à formação docente. PND não criou esse problema. O que não pode acontecer agora é transformar a avaliação em espetáculo público de punição moral.
 
Nenhuma carreira sobrevive quando o debate nacional se transforma em praça pública para humilhação, desvalorização e exposição permanente. Toda caça às bruxas precisa de corpos na fogueira para alimentar a sensação coletiva de justiça. Mas qual jovem com sólida formação acadêmica escolherá a docência ao enxergar uma profissão tratada, ao mesmo tempo, como depósito das frustrações nacionais e alvo preferencial de execuções públicas simbólicas?
 
Sistemas educacionais sérios não evoluem pela lógica do tribunal inquisitório, nem pela crença de que punir os culpados fará desaparecer o fracasso. Fogos iluminam espetáculos, não soluções.
 
Davi Marreiro é consultor pedagógico

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