Do antigo ao novo cangaço: o crime muda, mas a raiz persiste

Escrito por Rafael Gonçalves Mota producaodiario@svm.com.br
14 de Julho de 2025 - 06:00 (Atualizado às 07:19)
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Legenda: Rafael Gonçalves Mota é advogado

O cangaço, símbolo da rebeldia no sertão nordestino entre os séculos XIX e XX, não desapareceu, apenas se adaptou aos novos tempos. O que antes era visto por alguns como banditismo com traços de justiça social, protagonizado por figuras como Lampião, hoje se manifesta em ataques a bancos, uso de explosivos e armamento de guerra, em ações organizadas que espalham pânico em pequenas cidades. Esse é o chamado “novo cangaço”.

Apesar das diferenças, há traços comuns que merecem atenção. Ambos os fenômenos emergem em territórios historicamente marcados pela ausência do Estado, pela desigualdade persistente e pelo abandono social. No passado, os cangaceiros mantinham relações ambíguas com a população e, muitas vezes, alianças com os coronéis locais. Hoje, os novos criminosos atuam com lógica empresarial, sem vínculos com a comunidade e movidos exclusivamente pelo lucro.

O cangaço tradicional combinava vingança e sobrevivência. Já o novo cangaço tem uma atuação com características mais técnicas, estratégicas e impessoal. Se antes havia algum tipo de identificação popular, hoje resta apenas o medo. Normalmente as ações ocorrem de madrugada, com elevado grau de planejamento, uso de tecnologia, armamento superior ao das forças locais e rotas de fuga calculadas.

Ainda assim, não se deve tratar o novo cangaço apenas como um fenômeno totalmente desvinculado de sua origem pois ambos refletem, em alguma medida, o vazio deixado pelo poder público. Em regra, onde o Estado falha em garantir justiça, segurança e dignidade, o crime encontra terreno fértil para agir.

Compreender o novo cangaço exige mais do que repressão. É preciso reconhecê-lo como espelho de uma estrutura social que segue produzindo exclusão. O Brasil profundo continua clamando por uma presença efetiva do Estado. Ignorar esse chamado é permitir que o passado retorne, com novas armas, mas com as mesmas feridas abertas.

Rafael Gonçalves Mota é advogado 

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