A geopolítica mundial vive um período de forte instabilidade. Guerras, tensões entre potências e rupturas nas cadeias globais de suprimento ampliaram a busca por países capazes de fornecer recursos estratégicos com segurança e estabilidade. Nesse cenário, o Brasil surge como protagonista potencial, tanto pela força de suas commodities agrícolas quanto pelas reservas de terras raras essenciais à economia do futuro.
A guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio elevaram a volatilidade dos mercados de energia e matérias-primas. Segundo o Banco Mundial, commodities chegaram a registrar oscilações superiores a 40% em determinados segmentos. Ao mesmo tempo, cresce a demanda global por minerais estratégicos utilizados em tecnologias de alto valor agregado.
O Brasil já ocupa posição relevante como exportador de soja, café e minério de ferro. Porém, o diferencial brasileiro vai além do agronegócio. O país possui uma das maiores reservas de terras raras do planeta, ficando atrás apenas da China em volume estimado, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Esses minerais são fundamentais para baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, smartphones e equipamentos militares. Em meio à transição energética e à disputa tecnológica global, tornaram-se ativos estratégicos comparáveis ao petróleo do século XX.
Hoje, a China domina cerca de 70% da produção mundial e grande parte da capacidade de refino, criando preocupação entre países ocidentais devido à dependência geopolítica. A Agência Internacional de Energia projeta crescimento de até 400% na demanda por terras raras até 2040.
O Brasil reúne condições para ocupar posição estratégica nesse novo mercado, mas transformar potencial em desenvolvimento exige superar desafios importantes. Falta ao país um marco regulatório moderno para minerais estratégicos, além de investimentos robustos em tecnologia, infraestrutura e capacidade industrial de refino.
Também há o desafio ambiental. A exploração de terras raras exige rigor técnico e fiscalização eficiente para evitar impactos ambientais relevantes. Sem planejamento e sustentabilidade, o país corre o risco de repetir ciclos históricos de exploração sem desenvolvimento estrutural.
O principal obstáculo, porém, é a ausência de uma estratégia nacional de longo prazo. Recursos estratégicos precisam ser tratados como política de Estado, com segurança jurídica, previsibilidade regulatória e continuidade administrativa.
O Brasil vive uma encruzilhada histórica. Pode permanecer como exportador de commodities de baixo valor agregado ou aproveitar a oportunidade para integrar cadeias tecnológicas globais e fortalecer sua soberania econômica em um mundo cada vez mais disputado.
Renato Ewerton de Melo é advogado