As Licenciaturas e o que fica nas margens

Escrito por Rodolfo Guimarães producaodiario@svm.com.br
14 de Junho de 2026 - 06:00
capa da noticia
Legenda: Rodolfo Guimarães é executivo da área de educação

A segunda edição do Enade das Licenciaturas no novo modelo trouxe um número que rendeu manchetes: 42% dos concluintes não atingiram o padrão mínimo de proficiência. É um dado que justifica preocupação. Mas não descreve, sozinho, o Brasil real - um país educacional profundamente heterogêneo, em que a linha de chegada esconde pontos de partida muito desiguais.

Quem trabalha com educação a distância lida com a realidade de alunos mais maduros, que trabalham em regime de tempo integral, normalmente responsáveis pela renda da casa, vindos de famílias com menos anos de estudo e em municípios sem ampla oferta educacional. Sem a modalidade, esse público dificilmente teria chegado ao ensino superior. Ignorar esse perfil ao analisar o resultado de uma prova é um erro que desfoca o debate público.

Os números confirmam essa afirmação. Cerca de 94% dos concluintes da iniciativa privada com fins lucrativos foram avaliados em EaD; 92% dos da rede federal, no presencial. Comparar diretamente os dois agregados é comparar realidades distintas. Quando se padroniza a composição, o gap entre pública e privada cai significativamente. E há um achado consistente: o EaD tem notas inferiores em todas as categorias, inclusive na pública federal. A suposta fragilidade da modalidade, na verdade, reflete a realidade do aluno - mas não necessariamente da instituição.

Esse diagnóstico não é novo. Os microdados dos ciclos anteriores do Enade mostram que, controlando fatores como idade do estudante e capital cultural da família, a diferença entre EaD e presencial desaparece. O que pesa é o conjunto perfil-trabalho-família - variáveis que o agregado nacional silencia.

O debate ganha urgência diante da discussão regulatória em curso. Está em consulta pública uma proposta que amplia a carga horária presencial das licenciaturas e reduz a participação da educação a distância. O efeito previsível é maior evasão e redução de matrículas, com impacto direto sobre o acesso ao ensino superior justamente para o público que mais precisa dele.

Há ainda um efeito menos visível: o estrangulamento das margens do sistema - os territórios aos quais conseguimos fazer o EaD chegar. A formação de professores em um país do tamanho do Brasil não comporta uma média única. A pergunta produtiva não é quem tirou a melhor nota, mas onde estão os déficits, atendendo a quem, e como ampliar acesso e qualidade sem fechar portas. Por essas portas entra hoje grande parte dos novos professores do país.

Rodolfo Guimarães é executivo da área de educação

Renato Magalhães de Melo

08 de Maio de 2026

Alexandre Rolim

06 de Maio de 2026

Odmar Feitosa Filho

05 de Maio de 2026

Weruska Marrocos Aguiar Dantas da Silveira Pinheiro

05 de Maio de 2026