A Claque e o Colapso

Escrito por Davi Marreiro producaodiario@svm.com.br
12 de Maio de 2026 - 06:00
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Legenda: Consultor pedagógico
Enquanto a Bett Brasil 2026 consolidou o debate sobre o futuro da educação brasileira, temas igualmente estruturantes, seguem tensionando os bastidores das políticas públicas educacionais. A recente tramitação do Projeto de Lei nº 2129/2025, que propõe a inclusão transversal da inteligência artificial nos currículos da educação básica, coincide, de forma trágica, com o episódio de violência ocorrido em Rio Branco. Discute-se a sofisticação tecnológica da escola do futuro, enquanto a sustentação humana da escola do presente continua, muitas vezes, em colapso.
 
Não se trata de antagonismos medíocres sobre questões temporais, tampouco de uma disputa cansada entre inteligência artificial e inteligência humana; reduzir o debate a esse eixo seria uma leitura fútil do problema. A questão central é outra: até quando permaneceremos presos aos “teatros mambembes” das vaidades ideológicas, pouco comprometidas com a realidade?
 
Existe hoje um desafio estrutural que atravessa ambas as agendas: fortalecer, simultaneamente, a infraestrutura tecnológica e a infraestrutura humana das escolas. O problema é que o Brasil parece ter se especializado em transformar políticas públicas em uma grande encenação.
 
Exagero? A Base Nacional Comum Curricular já incorporou competências ligadas à cultura digital e ao pensamento computacional. Da mesma forma, a Lei nº 13.935/2019 já prevê a presença de psicólogos e assistentes sociais nas redes públicas de educação básica. Em outras palavras: o roteiro existe. O elenco institucional também. A novidade é o roteirista: açorado, ansioso pelos aplausos da plateia. O que segue ausente é a estrutura mínima para que a encenação finalmente se transforme em prática.
 
Qual é a condição permanente das tragédias e das guerras? Quando princípios, projetos ou convicções deixam de servir à vida humana e passam a se desconectar dela, como diria, Kundera, nenhum roteiro possui relevância quando depende de claque e aplausos ensaiados para sustentar mais espetáculo do que benefício prático à humanidade. E, ao final de mais um ato, colecionamos mais um papel no roteiro: “o colecionador de promessas”.
 
Davi Marreiro é consultor pedagógico

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