Por que Fortaleza ficou de fora de projeto da 'Transnordestina Turística'?

Proposta de interligação entre capitais na região Nordeste privilegia apenas porção leste da região.

Escrito por Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
27 de Agosto de 2026 - 06:00
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Legenda: Transnordestina Turística segue em estudo, de acordo com o Ministério dos Transportes.
Foto: Thiago Gadelha.

Uma ligação ferroviária de passageiros ao longo do litoral do Nordeste vai conectar capitais da região, mas deixa de fora Fortaleza (CE), Teresina (PI) e São Luís (MA). O projeto é chamado de "Transnordestina Turística".

A proposta consta do novo Plano Nacional de Logística (PNL 2050), documento do Ministério dos Transportes que orienta os investimentos em infraestrutura de transporte no Brasil até 2050.

Essa rota é diferente da anunciada pelo governador Elmano de Freitas (PT) em novembro de 2024. Na ocasião, o governo do Ceará informou que o planejamento federal previa uma ferrovia ligando Teresina a Salvador (BA) passando por Fortaleza, ou seja, incluindo a Capital cearense.

Essa previsão, contudo, não se confirmou no PNL 2050 divulgado agora. Todavia, segundo o Ministério dos Transportes, uma possível conexão entre Fortaleza e essa nova ligação ferroviária do litoral nordestino ainda está em avaliação.

A análise depende de estudos sobre a malha da antiga Transnordestina, conduzidos em consultoria pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O Diário do Nordeste demandou a Casa Civil sobre o projeto e aguarda resposta. Quando houver retorno, este texto será atualizado.

O que é a "Transnordestina Turística"?

O projeto prevê o transporte de passageiros interligando oito das nove capitais do Nordeste, usando principalmente trechos da antiga Transnordestina, atualmente sob concessão da Ferrovia Transnordestina Logística (FTL). Fortaleza não está entre essas oito capitais.

'Transnordestina turística' prevê interligação ferroviária entre Macau, no interior do Rio Grande do Norte, e Salvador. Projeto não contempla a porção oeste do Nordeste, que englobam os estados de Ceará, Piauí e Maranhão.
Legenda: 'Transnordestina turística' prevê interligação ferroviária entre Macau, no interior do Rio Grande do Norte, e Salvador. Projeto não contempla a porção oeste do Nordeste, que englobam os estados de Ceará, Piauí e Maranhão.
Foto: PNL 2050/Reprodução.

No PNL 2050 divulgado pelo Ministério dos Transportes, um dos eixos do plano prevê a interligação apenas entre Natal (RN) e Salvador, com a possibilidade de um trecho adicional entre Natal e Macau (RN).

Para Fortaleza, o PNL prevê somente a manutenção da Ferrovia Fortaleza-São Luís, chamada pela concessionária FTL de "malha operacional". A concessão deste trecho se encerra já no próximo ano.

Fatores para excluir Fortaleza do projeto

A professora doutora em Geografia pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), Ângela Falcão, acredita que um dos fatores que podem ter excluído a capital cearense do projeto de ligação ferroviária entre as capitais do Nordeste é em virtude da construção da nova Transnordestina.

A ferrovia corta o Ceará de norte a sul, tendo como ponto final o Porto do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza.

"Outro fator determinante é o impacto financeiro: a inclusão de Fortaleza adicionaria mais trilhos, elevando substancialmente os custos de construção. Vale ressaltar que os investimentos da Transnordestina no Ceará atendem à atual dinâmica econômica do estado, focada no escoamento em larga escala da produção do interior da região (como minérios e a produção agrícola do Matopiba)", considera a especialista.

Já conectada a Teresina e São Luís por meio da FTL, Fortaleza ganharia conexões com Recife e Salvador possibilitadas pela extensão da Transnordestina e da FCA.
Legenda: Já conectada a Teresina e São Luís por meio da FTL, Fortaleza ganharia conexões com Recife e Salvador possibilitadas pela extensão da Transnordestina e da FCA.
Foto: PNL 2050/Divulgação.

Ainda que não se conecte a capitais como Natal e João Pessoa (PB) de forma direta por trilhos, a professora avalia que os eixos ferroviários do PNL 2050 privilegiam a interligação ferroviária de Fortaleza com Recife (PE) e Salvador por meio de futuras conexões da Transnordestina e da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).

Fortaleza permanecerá dependendo de rodovias, analisa especialista

Sobre a Transnordestina Turística, o Ministério dos Transportes afirma que o projeto analisa o reaproveitamento da chamada "malha não operacional" da FTL. O objetivo é de que a ferrovia seja usada para transportar cargas ou passageiros.

A professora reflete que a falta de uma ferrovia entre Fortaleza e as seis capitais a leste do Nordeste sinaliza um desinteresse histórico na integração logística na região.

"As decisões governamentais históricas priorizaram a ligação entre centros produtores dos estados e portos no litoral, como opção de escoamento da produção, principalmente para exportação. Desse modo, historicamente, a integração dentro da região nunca foi colocada entre as prioridades de construção das ferrovias no Nordeste", enfatiza.

Fortaleza continuará dependente de rodovias para realizar a dinâmica logística com outros estados da região e do Brasil. Entendendo que os demais estados nordestinos também são centros consumidores, o escoamento dos produtos que não são voltados à exportação fica prejudicado, pois continuará sendo impactado pelos custos da logística de transporte rodoviário".
Ângela Falcão
Professora doutora em Geografia pela Uece

Falta de conexão entre Fortaleza e interior do RN gera 'desarticulação logística' no Nordeste

Falcão finaliza a questão observando que não existe uma conexão entre Fortaleza e Macau, distantes cerca de 350 km por via terrestre. 

Enquanto a capital cearense é, na análise da especialista, um "nó logístico central", que usa a infraestrutura dos portos do Pecém e do Mucuripe para escoar a produção, Macau é um importante produtor nacional de sal marinho e de pescados.

"Devido à ausência de uma ferrovia e sem perspectivas de implementação a curto prazo, o fluxo de mercadorias entre o centro produtor potiguar e a capital cearense depende exclusivamente do modal rodoviário, que se reflete diretamente no encarecimento dos fretes e, consequentemente, dos insumos", pontua.

"Sem a expansão da malha ferroviária para integrar diretamente esses dois polos, a tendência é que ambos os estados perpetuem a fragmentação de suas dinâmicas espaciais e de suas estratégias de escoamento produtivo", avalia a professora.

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