Uma casa pequena, de apenas dois cômodos: sala conjugada com cozinha e um banheiro. Janelas e portas pouco confiáveis. Muros baixos. É assim que Rute Rocha descreve o local onde viveu com a filha por cerca de três anos, no bairro José Walter, em Fortaleza.
Foram sete anos vivendo de aluguel, que ocupava boa parte do orçamento mensal. À medida que os imóveis se valorizavam, as duas precisavam se mudar para casas dentro do limite de R$ 400, reduzindo o padrão estrutural.
"Eu faço bicos de faxina e recebo o Bolsa Família, mas é tudo muito caro. Eu recebia uma ajuda da minha mãe, mas o pai da minha filha não pagava pensão, aí ficava mais complicado", lembra.
A situação mudou em 2024, quando a família foi selecionada para receber um dos imóveis do residencial Cidade Jardim. O edifício se enquadra na Faixa 1 do programa Minha Casa, Minha Vida, que subsidia moradias para famílias de baixa renda.
"Agora temos uma sala com divisória e cada uma tem um quarto. E, agora que a minha filha está maiorzinha, gosta da privacidade dela. Também temos mais segurança e espaços de convivência para brincar e conviver com os vizinhos", relata.
A família de Rute foi uma das milhares que, no Ceará, saíram da situação de déficit habitacional nos últimos anos. O indicador no Estado caiu de 10,2% para 6,54% entre 2014 e 2024, conforme balanço da Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades.
O Ceará tem um déficit de 216 mil residências. Em 2014, a necessidade era de 283 mil imóveis. Fortaleza e o Sul do Estado concentram a maior carência de moradias.
Em nível nacional, o índice de carência de habitação caiu de 9% para 7,32% no mesmo período. Faltam cerca de 5,7 milhões de moradias em condições dignas em todo o território brasileiro.
O principal componente do déficit habitacional no Brasil e no Ceará é o ônus excessivo com aluguel, situação em que as famílias de baixa renda gastam pelo menos 30% dos ganhos mensais para alugar um imóvel.
O déficit engloba as moradias que faltam no estoque e aquelas que não têm condições de habitabilidade, como imóveis improvisados e rústicos.
Dentro da necessidade de incremento do estoque, estão a coabitação familiar forçada, quando famílias que gostariam de morar separadas não conseguem, e a moradia em locais não residenciais.
Programa habitacional tem importância na redução do indicador
O programa Minha Casa, Minha Vida tem papel fundamental na redução do déficit habitacional no Ceará e no Brasil, destaca a arquiteta e doutora em Planejamento Urbano e Regional arquiteta e doutora em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ), Joisa Barroso Loureiro.
A iniciativa é a segunda política de produção em massa de moradia do País, depois do Banco Nacional de Habitação (BNH), da década de 1960.
A especialista pondera, entretanto, que os objetivos de regularização fundiária, que permitiriam construir os residenciais nos centros das cidades, foram sendo relegados ao longo do tempo.
"É um grande desafio, mas, para vencê-lo, é preciso resolver a questão fundiária do Brasil. O Minha Casa, Minha Vida tenta. Quando foi aprovada, em 2009, a lei do MCMV trazia orientações para a produção de moradias e para a regularização fundiária, com a perspectiva de conseguir acesso à terra bem localizada, mas isso ainda é um gargalo", comenta.
A redução definitiva do indicador passa também por políticas de redução da desigualdade social, pondera a pesquisadora do Laboratório de Estudos em Habitação da Universidade Federal do Ceará (Lehab-UFC), Sara Vieira Rosa.
"É importante levar infraestrutura e realizar melhorias habitacionais, mas é preciso olhar também para a produção desigual da cidade, para a desigualdade social e econômica e para a desigualdade no acesso à terra. Caso contrário, ficamos sempre enxugando gelo: enxugamos um pouco e o gelo continua derretendo", avalia.
Famílias que ganham até um salário mínimo são as que mais enfrentam déficit habitacional, por dedicarem boa parte da renda ao aluguel ou por viverem em habitação precária. Já na situação de coabitação forçada, lideram as famílias que recebem entre um e dois salários mínimos.
MAIS DE 87 MIL CASAS CONTRATADAS NO CEARÁ DESDE 2023
Desde a retomada da política, em 2023, o Ceará teve a contratação de 87,2 mil moradias. As operações financiadas somam R$ 10,9 bilhões, incluindo a nova faixa voltada para a classe média.
Já na linha subsidiada, em que as famílias recebem a residência, foram contratados 14.610 imóveis para famílias em situação de vulnerabilidade social no Ceará. As construções demandaram R$ 1,9 bilhão e utilizaram recursos do Orçamento Geral da União.
Uma das casas construídas pelo programa em Fortaleza nos últimos anos será entregue a Gilciane Bezerra, de 44 anos. Ela foi selecionada para morar no residencial Santa Mônica, no bairro Granja Lisboa, e deve superar a situação de déficit habitacional.
Dedicada integralmente aos cuidados da filha Rhayale, de 23 anos, que tem paralisia cerebral e é surda, Gilciane vive com a renda de um salário mínimo, fruto do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
"O único lugar que eu tenho condição de alugar é na comunidade. Já me mudei várias e várias vezes. O aluguel vai subindo, e vamos procurando coisas mais simples. Eu chego a pagar R$ 450 com a água, mas, para quem tem um salário mínimo, é difícil", conta.
O apartamento atual não tem banheiro adaptado, forro nem cobertura de piso, e a estrutura não atende às necessidades da filha de Gilciane. Além disso, fica no segundo andar, o que dificulta a locomoção.
"A entrada é muito ruim, escura, e tem muitos gatos que defecam na escada. Quando chove, cria lodo, porque a entrada é a céu aberto. Nós tentamos manter a casa limpa, mas, pelo ambiente, não tem como", conta.
A mudança, prevista para os próximos anos, será essencial para a recuperação de Rhayale, que passou por um transplante de rim no último mês. Os cuidados com a filha se tornarão mais fáceis em um lar com mais higiene e estrutura adequada, celebra Gilciane.
Eu passo em frente e o vejo quase pronto, a coisa mais linda. Vai ter dois quartos, banheiro, o piso lindo. E ela tem prioridade para ficarmos no primeiro andar. Eu conto e, ao mesmo tempo, não acredito. Porque ter uma filha especial, ser contemplada com uma alegria dessas e, ao mesmo tempo, ver a minha filha ganhar outra vida é incrível.
AMPLIAÇÃO DAS OUTRAS FAIXAS DO PROGRAMA
O Minha Casa, Minha Vida correspondeu a mais da metade das unidades lançadas e vendidas no Brasil em 2025, segundo balanço da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). No segundo trimestre de 2026, o programa respondeu por 58% de todos os lançamentos do país, a maior participação desde o início da série histórica.
O orçamento do programa bateu recorde de R$ 180 bilhões no ano passado e deve ser superado em 2026. Em abril, o governo anunciou a injeção de R$ 20 bilhões no programa para ampliar as operações de financiamento da Faixa 3.
Os limites de renda das faixas de financiamento foram ampliados, além da criação de um segmento para a classe média, com condições especiais de crédito para famílias com renda mensal de até R$ 13 mil.
A redução dos juros pelo programa tornou possível o sonho de Camila Magalhães. Ela financiou um apartamento com o companheiro em janeiro de 2024, no bairro Cambeba, em Fortaleza.
"As condições facilitadas do programa foram essenciais para conseguirmos o financiamento, mas, além disso, acredito que a possibilidade de parcelar a entrada do imóvel também poderia atrair mais pessoas. A isenção de tributos, como o ITBI e o IPTU por cinco anos, também me atraiu", conta.
Ela procurou aluguéis ao decidir sair da casa dos pais, mas, ao identificar que o valor da parcela do financiamento era similar, decidiu pela compra. Essa também foi a oportunidade de optar por um apartamento que atendesse a todas as suas necessidades.
"Um imóvel é um investimento. Por mais que você passe muito tempo pagando, é um bem que, ao final do financiamento, será seu e, com a amortização, o tempo até a quitação pode ser reduzido", celebra.
SEGMENTO ECONÔMICO É PRINCIPAL INDUTOR DE CRÉDITO IMOBILIÁRIO
O segmento econômico, foco do programa, tem sido o principal indutor da produção de moradias no Ceará, com estímulo à cadeia da construção civil.
No primeiro semestre de 2026, foram lançadas 3.255 unidades de padrão econômico, alta de 45% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE).
"Além de ampliar o acesso à moradia, o Minha Casa, Minha Vida oferece previsibilidade para novos empreendimentos, movimenta uma extensa cadeia de fornecedores e serviços e gera empregos desde a elaboração dos projetos até a execução e a entrega das unidades", comenta o presidente do Sinduscon-CE, Patriolino Ribeiro.
A construção civil está consolidada como um dos principais setores geradores de postos de trabalho e ocupa, oficialmente, 97.826 pessoas no Ceará.
Neste ano, o programa habitacional pretende alcançar três milhões de unidades contratadas, o que mantém elevada a demanda potencial por imóveis.
O aumento dos limites de renda familiar e do valor dos imóveis abarcados contribui para uma projeção de crescimento de até 10% do mercado imobiliário de Fortaleza.