A Cencosud, grupo chileno controlador do GBarbosa, vai fechar todas as seis lojas da rede em Fortaleza e concentrar investimentos em outras praças. Para fontes especializadas, a saída reflete a falta de posicionamento da marca em um mercado dominado por redes locais e a busca por operações com retorno mais rápido, entre outros fatores.
Em comunicado enviado ao Diário do Nordeste, a companhia afirmou que o Brasil segue como mercado prioritário e que continuará investindo no fortalecimento das operações, por meio de novas inaugurações.
Em Maceió (AL), o GBarbosa reinaugurou uma loja no bairro Stella Maris, dentro das comemorações dos 71 anos do grupo. A unidade passou por modernização e adotou o conceito "store in store", que integra marcas e operações dentro do supermercado, segundo a empresa.
O GBarbosa foi fundado no dia 13 de julho de 1955 pelo comerciante Gentil Barbosa, em Aracaju, Sergipe. Em 2007, o grupo chileno comprou a rede de supermercados nordestina por US$ 380 milhões (R$ 660 milhões, na cotação da época) e assumiu ainda US$ 50 milhões em dívidas.
Falta de identificação e atacarejos
Para a especialista em varejo e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Claudia Buhamra, as lojas da rede em Fortaleza careciam de posicionamento estratégico e não conseguiram se fixar na percepção do consumidor.
"Diante de um mercado competitivo como o cearense, a marca precisa encontrar o nicho com o qual vai dialogar e entregar um produto que agrade e atenda às necessidades desse público. É importante falar com ele a partir de valores como confiança, conveniência e credibilidade", afirma.
O economista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Ricardo Coimbra, avalia que a falta de identificação com o consumidor alimenta a tendência de retração das redes nacionais nos investimentos no Ceará.
"O que observamos é um redimensionamento das unidades locais. Provavelmente, não davam bom retorno, e por isso a empresa passa por uma reestruturação e foca as unidades em que consegue obter maior lucro no curto prazo", diz.
Coimbra contrasta o fechamento de todas as lojas do GBarbosa com o avanço, no mercado cearense, de outras empresas do setor, como Atacadão, Cometa, Frangolândia e Mix Matheus.
"O segmento vem em um ritmo bastante interessante, com a abertura de outras lojas. Cada vez mais, vemos atacarejos no Ceará. Essa empresa, talvez, tivesse uma estruturação diferente e vinha perdendo essa fatia do mercado, até que a operação ficou inviável para o conglomerado."
Preço e mudança de comportamento
Buhamra aponta outros fatores que ajudariam a explicar a saída do GBarbosa de Fortaleza. Um deles é a mudança no comportamento dos consumidores, que estão mais atentos à busca pela opção mais barata.
Para ela, isso resulta da perda de poder de compra e do endividamento constante dos cearenses, somados à crise econômica global, que afeta toda a cadeia de serviços oferecida pelos supermercados.
"O consumidor sempre vai para onde o preço é mais popular. Quando entra no supermercado e encontra só duas marcas de carne, por exemplo, ainda que a carne seja uma commodity, ele se pergunta: 'Será que não teria outras opções?'. Sem pensar duas vezes, vai a outro lugar atrás de algo mais em conta", complementa.
Buhamra lembra que o mercado cearense de supermercados é extremamente competitivo e dominado por marcas locais consolidadas, que já conquistaram a preferência e a identificação afetiva dos clientes.
A professora cita ainda a localização das unidades como possível fator de afastamento dos clientes. "Um supermercado em vias muito rápidas geralmente é muito bom para quem faz compras grandes, mas acaba perdendo um pouco da vizinhança residencial", opina.
Movimento de reposicionamento dos concorrentes
Segundo Buhamra, marcas antes consideradas de periferia se reposicionaram, migrando para bairros de maior poder aquisitivo e readequando o mix de ofertas.
Ela avalia que movimento semelhante será necessário caso outra grande rede nacional do setor decida investir no Ceará, considerando a competitividade do mercado.
"É preciso haver três segmentos para quem busca ir ao supermercado: aqueles em que o serviço é considerado premium, os que fazem um meio-termo entre oferta e demanda e os mais populares. O GBarbosa, para mim, não se encaixava em nenhum."
De acordo com a professora, o GBarbosa não encontrou um espaço de referência na mente dos clientes, que buscam alternativas capazes de competir diretamente com grandes redes nacionais em áreas historicamente dominadas por elas.
"Quando um empreendimento tem cara de supermercado e de atacado, não se sabe muito bem o que ele é nem com quem fala. Ele não se posiciona, confunde o mercado, e o consumidor acaba não o incluindo no conjunto de consideração", ressalta.
Como será o fechamento do GBarbosa em Fortaleza
O Diário do Nordeste visitou, na quinta-feira (8), a unidade do GBarbosa no bairro Joaquim Távora e encontrou prateleiras vazias, setores inteiros removidos, estruturas danificadas e maquinário em manutenção.
Funcionários relataram ter sido informados de que o encerramento ocorrerá até o fim deste mês. A equipe foi comunicada no início de setembro. Segundo uma funcionária, todos devem ser demitidos, sem realocação para outras operações do grupo.
A empresa, contudo, não confirmou essas informações.
As lojas do GBarbosa em Fortaleza estão nos seguintes endereços:
- Joaquim Távora: Rua Padre Valdevino, 920;
- Parreão: Av. Borges de Melo, 1135;
- Edson Queiroz: Av. Washington Soares, 1779;
- José de Alencar: Av. Maestro Lisboa, 802;
- Parangaba: Av. Silas Munguba, 400;
- Presidente Kennedy: Av. Gov. Parsifal Barroso, 600.