O que a mudança de consumo em restaurantes de Fortaleza tem a ver com as canetas emagrecedoras?

Enquanto queda no gasto com bebidas e sobremesas comprime margens do setor, redes focadas em proteína veem faturamento estável.

Escrito por Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
19 de Setembro de 2026 - 07:00
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Legenda: Segundo especialistas, a pressão sobre bares e restaurantes pode residir na combinação entre juros elevados, endividamento das famílias e a impossibilidade de repassar custos fixos ao consumidor.
Foto: Camila Lima.

O setor de alimentação fora do lar em Fortaleza enfrenta um cenário de mudanças de hábitos de consumo motivado, entre outros fatores, pelo endividamento da população, juros altos — a taxa Selic está em 13,75% — e inflação de quase 4% neste ano. Além disso, uma nova causa despontou no mercado: as canetas emagrecedoras.

O debate em torno do medicamento ganhou força na capital cearense após o pedido de recuperação judicial do grupo Cervejaria Turatti, com dívidas que ultrapassam R$ 12 milhões.

A decisão do juiz Cláudio Augusto Marques de Sales acolheu a argumentação apresentada pelo grupo que tinha, além do uso dos medicamentos de combate à obesidade, a mudança de hábitos dos consumidores após a pandemia e a retração do consumo presencial no setor de bares e gastronomia.

“A expansão massiva do uso de análogos do receptor GLP-1 (as canetas emagrecedoras) provocou redução documentada do apetite e do consumo de bebidas alcoólicas, somada ao declínio estrutural e geracional do consumo de álcool pela Geração Z”, diz a decisão judicial, ao resumir os argumentos apresentados pelo grupo na petição.

Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Ceará (Abrasel-CE), Taiene Righetto, as canetas emagrecedoras são uma realidade sem volta, porém administrável por meio de adaptação e engenharia de cardápio.

“Isso exige atenção do empresário, mas eu não vejo esse fenômeno apenas como problema. Vejo também como oportunidade. Colocar nas canetas emagrecedoras a responsabilidade pelo fechamento de empresas ou pelos pedidos de recuperação judicial seria, na minha avaliação, olhar apenas para a ponta do iceberg.”
Taiene Righetto
presidente Abrasel-CE

Custo fixo e endividamento comprimem margens

A verdadeira pressão sobre os bares e restaurantes da capital cearense, segundo especialistas, pode residir na combinação entre juros elevados, endividamento das famílias e a impossibilidade de repassar custos fixos ao consumidor.

O economista Thiago Holanda, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), explica que o setor enfrenta um deslocamento estrutural de demanda que atinge justamente os itens de maior rentabilidade, como bebidas alcoólicas, petiscos e sobremesas.

“Um prato principal pode gerar receita alta, mas normalmente utiliza mais insumos, mão de obra e tempo de produção do que bebidas e sobremesas de alta margem. O estabelecimento pode apresentar salão cheio e, ainda assim, enfrentar deterioração do resultado operacional caso o ticket médio e a margem por cliente estejam caindo”, detalha Holanda.

A avaliação corrobora com a análise do presidente da Abrasel-CE. Segundo ele, a conta do restaurante não fecha porque o custo operacional para manter uma mesa ocupada permanece o mesmo.

“A mesa ocupada por um cliente que gasta R$ 60 tem praticamente o mesmo custo fixo de uma mesa em que se gasta R$ 120. Continuam existindo aluguel, folha de pagamento, energia, gás, impostos e toda a estrutura. É aí que aparece o chamado 'efeito tesoura': a receita por cliente fica pressionada enquanto os custos permanecem elevados.” 
Taiene Righetto
presidente Abrasel-CE

O orçamento destinado ao lazer encolheu no Brasil. Com a taxa Selic a 13,75% ao ano e 82% das famílias brasileiras endividadas em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), sobrou pouco espaço para o supérfluo.

A situação é crítica no Ceará, que ostenta o maior índice de endividamento do Nordeste: mais de metade da população adulta (52,59%) está inadimplente, de acordo com o Mapa da Inadimplência da Serasa de agosto deste ano.

Holanda pondera que, se o aperto das margens persistir, o setor pode passar por um processo mais amplo de consolidação.

“Se a compressão das margens persistir, o setor pode passar por um processo mais amplo de consolidação, com sobrevivência dos operadores financeiramente mais eficientes”, diz Holanda.

Diante disso, a orientação é focar na gestão rigorosa de caixa e reformular o portfólio para recompor a lucratividade sem assustar o cliente.

“Minha preocupação não são especificamente as canetas emagrecedoras. A mudança de hábito alimentar é administrável e o mercado vai se adaptar. Minha preocupação é o conjunto. Há desequilíbrio nas contas públicas, juros muito altos, famílias fortemente endividadas, crédito caro e perda de poder de compra”, reforça Righetto.

Na contramão, redes de proteína mantêm estabilidade

Diferente dos estabelecimentos que possuem as bebidas alcoólicas como foco de sustentabilidade financeira, redes de proteína veem migração de consumo sem queda no ticket médio em Fortaleza.

Na avaliação de Fernando Ribeiro, CEO da SB Franquias, responsável pelo restaurante Sal e Brasa Grill Express, o impacto do uso de medicamentos emagrecedores varia conforme a vocação do cardápio.

Em segmentos cuja força reside na proteína, item central na dieta de quem utiliza as canetas, o volume de consumo se manteve aquecido.

A rede percebeu uma migração gradual: menos carboidratos pesados e mais saladas, vegetais, porções extras de proteína, refrigerantes zero e cervejas sem álcool.

Com vendas estáveis, a operação projeta faturamento entre R$ 18 milhões e R$ 20 milhões no Ceará neste ano, impulsionado por um crescimento estimado de 5% a 10% nas lojas já existentes e pela abertura de uma nova unidade no Shopping Eusébio, na Grande Fortaleza.

Nesse mesmo segmento, a rede Coco Bambu também confirma estabilidade nas receitas ao calibrar a operação à demanda observada.

“A mudança de hábito ocorre de forma muito pontual e até o momento com pouca relevância. Planejamento de compras e escala já são calibrados por demanda observada em cada unidade, o que absorve mudanças graduais de mix.”
Felipe Barreira
Sócio-diretor do Coco Bambu

Segundo Barreira, de janeiro a agosto de 2026, houve retração de 3% no número de contas de salão nas unidades do Ceará, na comparação com igual período do ano passado. A queda foi compensada pelo aumento de 4% no valor do ticket médio da rede. 

Conforme a empresa, houve lançamento de pratos individuais proteicos e projeção de faturamento de R$ 185 milhões para as oito unidades no Ceará, com intenção de abrir uma nova operação no Estado. 

Tendência nacional e readequação de cardápios

A transformação verificada na capital cearense insere-se em um movimento de escala nacional. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), compilados pela Fiquem Sabendo e analisados pela Abrasel nacional, indicam que a venda de medicamentos com semaglutida e tirzepatida cresceu 23,2% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano anterior.

No Ceará, a quantidade de unidades vendidas nas farmácias, em agosto de 2026 (24 mil), foi cerca de 41% maior que a registrada em janeiro (17 mil).

Entre janeiro e agosto de 2026, foi registrada a venda de 160.409 unidades desses medicamentos no Estado, considerando diferentes apresentações e marcas. O volume equivale a 2,6% das quase 6,2 milhões de unidades vendidas no País no mesmo período.

Um levantamento da Abrasel também mostrou que 61% dos empresários do setor de alimentação fora do lar no Brasil já identificam mudanças associadas aos inibidores de apetite, como aumento na procura por porções menores (64%) e redução no consumo de sobremesas (65%).

“Enquanto o uso desses medicamentos esteve restrito às classes A e B, os estabelecimentos tinham como opção o investimento em experiências e produtos de maior valor agregado. Contudo, com a queda da patente e a possível chegada às classes C e D, o consumo deve passar por outro momento de mudança e os estabelecimentos terão que buscar formas de se adaptar.”
Paulo Solmucci
Presidente executivo da Abrasel nacional

O movimento de readequação alinha-se aos dados da Pesquisa Anual Setorial de Food Service ABF/Galunion. A pesquisa confirma que 53% das redes de franquia de alimentação no país já realizaram adaptações nos cardápios devido ao avanço dos medicamentos GLP-1 (com foco em opções saudáveis, refeições leves e ricas em proteína).

Simone Galante, fundadora e CEO da Galunion, ressalta que os dados chamam a atenção por mostrarem uma transformação que já chegou à operação:

“Quando mais da metade das redes pesquisadas declara ter feito alguma adaptação no cardápio, estamos diante de um movimento que merece ser acompanhado de perto. Não se trata apenas de reduzir itens, mas de entender novas ocasiões de consumo, tamanho de porções, composição do menu e o papel que a alimentação passa a ter na jornada desse consumidor”.

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