A corrida do Nordeste para construir data centers precisa estar em linha com os demais investimentos de reindustrialização da região, conforme avalia a professora emérita da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tania Bacelar.
A economista participou da I Semana Científica do Núcleo de Práticas em Economia (Nupe) da Universidade de Fortaleza (Unifor), na noite dessa quarta-feira (26).
“Acho que, junto com a onda de data centers, deveria haver outras prioridades para o Nordeste. Uma delas é o melhor posicionamento no programa Nova Indústria Brasil (NIB)”, disse.
NIB, a iniciativa governamental mencionada pela economista, é uma política industrial cujo objetivo é modernizar e impulsionar a reindustrialização brasileira.
“O Nordeste está com uma presença muito restrita nos investimentos do NIB, precisamos ter uma presença mais forte. A indústria de transformação é muito ampla, temos várias oportunidades. Qualquer que seja o setor, temos potencial em vários segmentos no Nordeste”, completou.
Dos diferentes projetos de data center em andamento no Nordeste, um dos mais destacados fica na Grande Fortaleza: o da Omnia, que tem como principal cliente a ByteDance, dona da rede social TikTok.
Com investimento que supera a casa dos R$ 200 bilhões, o empreendimento deverá ser o primeiro de hiperescala do Brasil.
"A discussão que temos é o que ele usa das nossas potencialidades e o que ele entrega em troca. Usa principalmente energia, que temos em abundância, mas também muita água. Dizem que a tecnologia que está sendo desenvolvida usará cada vez menos água. O Ceará tem esse debate sobre o impacto no uso da água", reflete Bacelar.
Impactos da Reforma Tributária
Bacelar participou do painel "Desenvolvimento do Nordeste e a reforma tributária", ao lado do secretário da Fazenda do Ceará, Fabrízio Gomes, auditor fiscal da Receita Estadual.
Na ocasião, foram debatidos os desafios da reforma tributária, que vai unificar três impostos federais (IPI, PIS e Cofins), um estadual (ICMS) e um municipal (ISS) em dois tributos: CBS, de competência da União, e IBS, de estados e municípios.
O novo modelo passará por um período de transição até estar plenamente implementado, para todos os tributos, a partir de 2033. As mudanças já começaram neste ano.
Para Bacelar, a reforma tributária vai simplificar o sistema, mas ainda há pontos que geram dúvidas, como a definição da alíquota e o modelo do fundo de desenvolvimento regional.
A economista lembrou que o modelo anterior concentrava a cobrança do imposto sobre consumo na origem da produção, o que beneficiava estados com forte base industrial, como São Paulo.
Com a mudança para a cobrança no destino, via Imposto sobre Valor Agregado (IVA), ela avalia que o Nordeste, por ser mais consumidor do que produtor, deve ganhar vantagem competitiva.
“A reforma tributária vai simplificar, não resta dúvida. Minhas questões são outras. Tínhamos uma distorção que era o peso de São Paulo, que levava a cobrar o imposto do consumo na origem da produção. Aquele sistema era muito ruim. Acho que há um lado positivo nessa cobrança do IVA no destino”, observou.
“Como o Nordeste é mais consumidor do que produtor, isso traz uma vantagem para a região. A criação do novo imposto é positiva para o Brasil, porque simplifica, e para o Nordeste, porque passamos a cobrar onde se consome, e o Nordeste consome mais do que produz”, destacou.
O secretário da Fazenda do Ceará, Fabrízio Gomes, acrescentou que a alíquota do novo sistema ainda está em estudo e que o teste inicial deve começar em 2027, com alíquotas experimentais para avaliar a robustez do tributo.
Segundo ele, embora percentuais entre 28% e 30% sejam mencionados, a expectativa é de uma alíquota menor conforme o modelo mostrar sua eficiência de arrecadação.
“Tenho certeza de que a reforma tributária vai trazer mais eficiência, reduzir custos para o empresário e será muito mais positiva para o Brasil”, avaliou.